“Ao lado do milagre do vinho, encontramos, no Evangelho, o milagre do pão, no qual o Senhor, com cinco pães, sacia milhares de pessoas e dá tanto que até sobraram doze cestos cheios de pão. Se o pão é símbolo do que o homem precisa, por seu lado, o vinho é o símbolo da superabundância da qual também temos necessidade. Ele é sinal da alegria, da transfiguração da criação. Tira-nos da tristeza e do cansaço do dia-a-dia e faz do estar juntos uma festa. Alarga os sentidos e a alma, solta a língua e abre o coração; e transpõe as barreiras que limitam a nossa existência. Deste modo, o vinho tornou-se símbolo dos dons do Espírito Santo. A Tradição fala da embriaguês na sobriedade, que o Espírito nos concede já no relato do Pentecostes, segundo o qual os Apóstolos apareciam, aos estranhos, como que embriagados. Na verdade, eles estavam em jejum e ao mesmo tempo embriagados, isto é, repletos da alegria do Espírito Santo, que os abria para uma vida de grandes horizontes, e lhes concedeu palavras, que não provinham deles mesmos, fazendo-lhes perceber a beleza da vida iluminada pela luz do Deus vivo. Assim, começamos já a compreender um pouco do significado deste milagre do vinho, que João expressamente descreve como um sinal, portanto, como uma realidade que, indo além do aconte-cimento imediato, orienta para outra maior. O grande dom deixa pressentir a natureza inesgotável do amor de Deus, fala dum amor que provém da eternidade, que é incomensurável e por isso salvífico. O milagre do vinho ajuda-nos assim a compreender o que significa receber na fé, através de Cristo, o Espírito Santo, isto é, uma nova grandeza, uma nova elevação e uma nova abundância de vida.”
Excerto da homilia do Cardeal Joseph Ratzinger, sobre o Evangelho de João (Bodas de Cana, 2,1-10), em Fátima, no dia 13 de Outubro de 1996
