Entrevista a Luís Silva, presidente da Acção Católica Rural na diocese de Aveiro “Deus fala pelos acontecimentos. E desafia-nos a dar uma resposta na realidade concreta”, diz Luís Manuel Pereira da Silva, 32 anos, casado, teólogo e professor de EMRC. Presidente da Acção Católica Rural (ACR) na diocese de Aveiro e vice-presidente da equipa nacional, nesta segunda entrevista sobre os movimentos apostólicos na diocese de Aveiro, Luís Silva defende a actualidade do movimento
Correio do Vouga – A ACR ainda é rural, quando o meio rural desaparece?
Luís Silva – Na altura do Jubileu (2000), pôs-se a hipótese de retirar o “Rural” do nome, devido à ideia de o meio rural já não existir ou, pelo menos, ser muito vulnerável às marcas urbanas. Contudo, apesar da observação de que há grupos, como o de Vilar, na Glória – Aveiro, que agora são mais urbanos do que há uns anos, constatou-se que a ruralidade persiste, ainda que as pessoas já não sejam exclusivamente marcadas pela agricultura. Há fluxos e influências múltiplas. As pessoas podem não ser rurais, mas os problemas surgem num meio marcado pela ruralidade. Mais ainda, nesta era de globalização, falar de ruralidade é assegurar a dimensão de pessoalidade e unicidade de cada um. Ser rural é contrariar o anonimato da urbanidade cosmopolita.
O que é específico da ACR?
É a vivência da espiritualidade cristã na acção. Acção e oração constituem como que um círculo vital, em que a vida da oração é a própria vida da acção e a acção dimana da oração. O método da revisão de vida, específico da Acção Católica (AC), é, em si, espiritualidade em acção, uma vez que o Ver, Julgar (não um juízo moral, mas ler a realidade à luz cristã da Palavra e do Magistério) e Agir abrem-nos os olhos para realidades interpelantes à fé cristã. Formar, participar, corresponsabilizar, evangelizar são os grandes objectivos que mobilizam o movimento.
Por vezes, entre pessoas da Igreja, persiste a ideia de que a AC está ultrapassada…
Mas a AC tem cada vez mais legitimidade e necessidade de exis-tir! Não por necessidade do movimento, que não é um fim em si mesmo, mas por fidelidade ao mundo de hoje e ao evangelho que desafia a Igreja a encontrar linguagens pertinentes para cada tempo. Mais ainda, é curioso notar que muitas das estratégias que a Igreja usa, nas suas acções pastorais, estão imbuídas da dinâmica da AC.
A AC foi inovadora ao aproximar os cristãos do mundo, contra os que entendiam que o mundo era motivo de afastamento dos cristãos. Hoje, a inovação é reconhecer o mundo como o lugar do acontecimento de salvação. Deus fala pelos acontecimentos. E desafia-nos a dar uma resposta na realidade concreta.
Como está a ACR na diocese de Aveiro?
Depois das segundas jornadas sociais, em 1993, que trouxe gente de todas as dioceses aos pavilhões da antiga Feira de Março, a ACR entrou num novo período, marcado pelo rejuvenescimento. Muitos dos que tinham constituído os grupos juvenis da AC reintegraram o movimento, já noutra fase das suas vidas. E cristãos que nunca tinham contactado com o movimento, reconheceram, no seu modo de agir, uma resposta pertinente para os desafios deste tempo, que pede aos cristãos que actuem em coerência com a sua fé. Naturalmente que isso teve efeitos. Muitos dos grupos vieram a ser constituídos por gente de faixas etárias mais jovens, com toda a carga de entusiasmo, mas também com a fragilidade de compromisso que tal comporta.
Tem havido dificuldade de crescimento, em conseguir que o movimento chegue a mais partes?
A ACR confronta-se com alguma ignorância por parte dos líderes das próprias comunidades. Enviei a todas as paróquias da diocese uma breve caracterização do movimento e sua importância e poucos ecos obtive.
Sendo um movimento de acção, que lugar tem nele a intervenção política?
A ACR é um movimento de empenhamento político (na polis, na sociedade) – o que não quer dizer partidário -, porque procura soluções para os problemas da sociedade. Os que aderem ao movimento vivem esse empenhamento, que depois pode levar, de facto, ao compromisso partidário, atingindo todo o espectro partidário. Há uma longa tradição de formação de líderes nos movimentos da AC. Alguns ocupam mesmo lugar de destaque na sociedade portuguesa. Há uns anos, realizou-se um encontro nacional de autarcas da ACR, a que, neste ano, se pretende dar seguimento, porque considera-mos que a intervenção nos lugares de decisão social pode ser, em coerência cristã, um sinal de efectivo compromisso na história de salvação do mundo.
Neste momento quais são as preocupações e actividades da ACR?
Ainda estamos no início de um ciclo de três anos (2005-2007), “Sonhar e desenhar o futuro”, em que cada militante é o construtor da transformação, neste país marcado por mudanças tão rápidas.
Em 2005/6, as nossas atenções estão na defesa da vida e educação sexual, numa visão personalista. Recentemente, realizámos um seminário nacional sobre o tema. Há dias, organizámos uma escola de dirigentes (formação de líderes); e dentro em breve, 7 e 8 de Janeiro, concretizaremos um curso de animadores (para militantes e simpatizantes do movimento).
O que é preciso para formar um grupo ACR?
Não é preciso ter muita gente. São precisas três ou mais pessoas que se reúnam, atentas à realidade envolvente, vendo os problemas que emergem no seu meio (Ver) e predispondo-se a agir em coerência com a reflexão cristã (Julgar e Agir).
A ACR tem apoios para grupos em iniciação?
Para além da equipa diocesana, que se presta a ajudar no início e em cada etapa da vida dos grupos, e dos referidos encontros de animadores e líderes, é possível uma articulação com os grupos geograficamente próximos, socorrendo-se de todos os recursos materiais de que o movimento dispõe, particularmente revistas e manuais para grupos.
