A rotina das palavras esvazia de sentido as expressões. E encontramo-nos, por vezes, diante de pérolas de sabedoria e de vida que ecoam sem vida, que se espalham sem conteúdo. Da lista dessas pérolas estropiadas, seguramente que consta o Pai Nosso, a oração que Jesus ensinou aos discípulos como síntese da vida cristã.
Nos tempos que correm, algumas das expressões que o compõem podem tornar-se mola real para desencadear mudança de paradigma nas nossas mentalidades, génese de uma nova cultura de matriz cristã.
Pensemos, por exemplo, no pedido: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Uma inversão surpreendente, face às expressões anteriores. Aparece, no dizer de Martín Descalzo (Ousamos dizer PAI NOSSO), como o grito desajustado de uma criança a dizer que tem fome, no meio de um sermão de S.to Agostinho que nos estivesse a desdobrar a sentença: Não peçais nada a Deus senão Deus mesmo.
A surpresa desta inversão levou teólogos – e ainda hoje leva – a fazer interpretações místicas do pão que se pede. Há poucos dias mesmo recebi uma dessas interpretações. Mas o certo é que “a oração do Senhor fala mesmo de pão, sem metáforas, sem sentidos místicos”, como refere o autor citado. Pois, como é verdade que nem só de pão vive o homem, também é verdade que não vive apenas da Palavra. E, por isso, Jesus, que se não cansa de pregar a Palavra, é o mesmo que tem compaixão das multidões que o seguem e não as despede sem lhes aconchegar o estômago.
“Desde que Cristo se fez homem, os interesses da terra são interesses do céu.” – são palavras de Martín Descalzo. A Incarnação é um tremendo desafio à vida dos discípulos, das comunidades de discípulos. É que o compromisso com as condições de vida dignas, com o limiar de uma condição humana respeitada, não pode continuar a ser uma acção pastoral periférica e ocasional, suscitada por momentos de crise. Pelo contrário, tem de se tornar a expressão mais visível do carinho de Deus por cada pessoa, reclamando, de quem tem, uma vida de sobriedade e austeridade, cujos resultados revertam a favor de quem não tem o indispensável.
A credibilidade das primeiras comunidades resultava exatamente desta fraternidade voluntária, bebida e alimentada continuamente na Palavra, na Oração, na Eucaristia. Essas mesmas as fontes que nos incutem a confiança de pobres, que sabem pedir a Quem temos a certeza que tem o poder de dar. “Não se estende a mão ao avarento, mas ao generoso. Só se pede quando se ama e quando se sabe que se é amado” – continua Martín. Esta é a confiança, que fundamenta a esperança de quem pede o pão “hoje”, na certeza de que o pode pedir amanhã com a mesma confiança.
“Este pão que pedimos também é «pão nosso». Ao «Pai nosso» é impossível, absurdo, pedir-lhe o «pão meu». Tudo é plural nesta oração” – prossegue Martín. Quanto de piedade individualista teremos que varrer das nossas práticas e das nossas orações! Como estará Deus agoniado com tanto egoísmo revestido de religião! Relação filial e fraterna reclamam-se mutuamente no desenho da identidade cristã!
