O Papa João Paulo II e Timor-Leste

D. CARLOS FILIPE XIMENES BELO

Administrador Apostólico da Diocese de Dili.

Nobel de Paz em 1996

O Vaticano acabou de anunciar que Sua Santidade o Papa João Paulo II, que faleceu no dia 2 de Abril de 2005, vai ser beatificado no dia 1 de Maio do corrente ano.

Para os cristãos de Timor-Leste esta notícia foi motivo de muita alegria e de contentamento. É que os cristãos de Timor, durante os conturbados anos da ocupação Indonésia, puseram muita esperança e confiança na solicitude pastoral de Sua Santidade.

Quando foi do anúncio da beatificação, o director da Sala de Imprensa considerou que João Paulo II será lembrado, entre outras coisas, “pelas suas visitas aos povos mais necessitados do alimento e justiça”. E o actual Papa, Bento XVI, referiu-se com alegria à beatificação que classifica como “guia na fé, na verdade e na liberdade”.

Timor-Leste teve a dita de receber a visita de João Paulo II a 12 de Outubro de 1989. Contra todas as críticas e incompreensões, Sua Santidade, aproveitando a visita à Indonésia, quis estar com o povo timorense umas horas, celebrando a Eucaristia em Dili (na altura, capital da vigésima sétima província da Indonésia).

No aeroporto de Dili, não beijou o solo timorense. Mas fê-lo na Igreja Catedral, em Vila Verde. Ao dirigir-se do aeroporto para o centro da cidade e, antes de entrar no automóvel, procurou o administrador apostólico da Diocese de Dili, dizendo: “Dove è il vescovo?” Queria ter junto de si o Ordinário do lugar. O prelado timorense, sentado ao seu lado, dizia ao Papa: “Santidade, antes da sua visita, os timorenses prepararam-se espiritualmente: rezaram, confessaram-se e comungaram; alguns receberam o Baptismo e outros contraíram o Matrimónio com o rito católico”. E o Papa respondia, sorrindo: “Graças a Deus! Nalguns dos meus encontros, os jovens perguntam-me: «Porque o Papa viaja tanto?» E eu respondo: «É preciso evangelizar, percorrer o mundo e anunciar a Boa Nova aos Povos». Se os cristãos timorenses, se confessaram, comungaram e rezaram, e houve conversões, então valeu a pena fazer esta visita a Timor-Leste!”

Depois de ter benzido a nova catedral de Dili e de ter falado ao clero ali reunido, dirigimo-nos para Taci Tolu, onde o Papa celebrou a Eucaristia para cerca de 150 mil pessoas. Depois da missa, alguns jovens timorenses fizeram uma manifestação diante do altar papal, gritando: “Viva João Paulo II! Viva Timor-Leste Independente”. O Santo padre assistia aquele acto com muita calma e silêncio. O administrador apostólico sussurra-lhe aos ouvidos: “Santidade, eles querem manifestar à Sua Santidade a sua situação de sofrimento e de falta de liberdade…” O Papa apenas dizia: “Capito!”

Meses depois, o prelado timorense é recebido no Vaticano, em “visita ad limina”. Ao despedir-se, ouviu estas palavras do Papa: “Amanhã, vou visitar Eslovénia, um país que também lutou pela liberdade…”

Para recordar a visita de João Paulo II, foi colocada em Dili uma grande estátua do Papa (sete metros de altura). Ele, qual Bom pastor sempre vigilante, olha para a cidade de Dili com amor de pai e defensor da liberdade!

Que o novo beato João Paulo II continue a abençoar e proteger o povo e os cristãos de Timor-Leste!

Porto, 23 de Janeiro de 2011.