Reflexão Ao ter conhecimento de notas e comentários sobre as atitudes do papa Pio XII perante as atrocidades nazi-fascistas durante a segunda guerra mundial (1939-1945), sinto que não posso calar algo do que conheci e vivi em cima dos acontecimentos, durante os meus anos jovens.
Tais recordações pessoais, naturalmente de menor importância, serão completadas com outros testemunhos e informações posteriores. Desde já quero dizer que respeito as opiniões de outros, mas com o desejo de se fazer luz total sobre o tema, sem preconceitos – o que será difícil.
Credenciado por eleições democráticas, a partir de 30 de Março de 1933 Adolf Hitler tornou-se o senhor absoluto da Alemanha. Poucos meses decorridos, precisamente em Julho seguinte, a Santa Sé assinou uma Concordata que, por sua parte, também garantiria o reconhecimento diplomático do regime nazi pelo Vaticano – o que então era muito vantajoso para Hitler no plano internacional. Por tal razão, para lá das suas intenções, este instrumento deu ao ditador um precioso crédito; aumentou o seu prestígio dentro e fora do país e impediu os bispos católicos de abertamente assumirem posições contra as ingerências do Estado nos assuntos da Igreja ou criticarem publicamente as decisões políticas contra os direitos humanos. Hoje pergunta-se como foi possível que tantos responsáveis das Igrejas Cristãs, de qualquer confissão, pudessem ter sido iludidos, deixando-se convencer pela pretensa bondade das ideias nacionalistas e racistas.
Todavia, perante a política alemã em crescente despotismo, o papa, apesar do referido acordo bilateral com a Alemanha, não se manteria silencioso. Logo em Abril de 1935, o cardeal Eugénio Maria Pacelli, na qualidade de secretário de Estado da Santa Sé, dirigindo-se a cerca de duzentos e cinquenta mil peregrinos em Lourdes, declarava: – «Estes [nazis] ideólogos, de facto, são apenas miseráveis plagiadores, que levantam antigos erros sob novas cores. Pouco importa se o fazem sob a bandeira da revolução social… ou se estão possuídos pela superstição da raça e do sangue». Pacelli foi outrossim o inspirador do final da encíclica de Pio XI, de 14 de Março de 1937, Mit brennender Sorge (“Com profunda tristeza”). A dita encíclica, a primeira escrita em alemão, foi distribuída secretamente aos bispos e sacerdotes e lida em todas as igrejas do “Reich” no domingo de Ramos (21 de Março). O documento condenou sem paliativos a doutrina totalitária e racista do Nazismo germânico, denunciou a opressão exercida sobre a Igreja, proclamou não ser cristão quem tivesse como norma suprema uma raça, um povo, um Estado ou os seus representantes, e rejeitou a visão e a filosofia panteístas daqueles ideólogos que terçavam armas por um deus nacional ou por uma religião nacionalista. «Quem quer que identifique, numa confusão panteísta, Deus e universo, baixando Deus às dimensões do mundo, ou elevando o mundo às de Deus, não pertence àqueles que acreditam em Deus» – lia-se no documento. O sumo pontífice, no aspecto ético, ainda refutou o Nazismo por fomentar o abandono das normas morais objectivas e advertiu: – «As leis humanas, que estiverem em oposição insolúvel com o direito natural, sofrem de um vício congénito que se não pode curar nem com opressões nem com a ostentação da força externa.» O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Berlim, em face da frontalidade da encíclica papal, não ficou calado e caracterizou-a como «uma declaração de guerra… pois chama todos os cidadãos católicos a insurgirem-se contra a autoridade do “Reich”.» Pio XII, aludindo mais tarde a este documento do seu antecessor, diria que «ninguém podia acusar a Igreja de não ter denunciado e indicado, na devida altura, o verdadeiro carácter do movimento nacional-socialista e o perigo em que ele punha a civilização cristã.»
Durante o ano de 1938, a situação na Alemanha tornava-se cada vez mais complicada; começara-se a perceber que Hitler caminhava para uma guerra europeia e mundial com o objectivo de demonstrar a superioridade do seu país, da sua política ditatorial e das suas ideias anti-semíticas. Então, ele tinha de encontrar bodes expiatórios; os mais atingidos seriam os indefesos judeus, os excluídos ciganos e as pessoas influentes na sociedade e dele discordantes. Consequentemente, no dia 9 de Novembro, a Alemanha via-se sacudida por uma onda de terror e de morte. Foi o princípio do fim. Pacíficos judeus foram subitamente expulsos das suas casas e torturados, as suas duzentas sinagogas incendiadas e as suas sete mil e quinhentas lojas comerciais destruídas e expropriadas. O pânico apoderara-se de todos os alemães; mas ninguém se atrevia a protestar publicamente. Em consonância com semelhante política, a perseguição foi até à proibição de os atingidos serem relegados de diversas profissões, incluindo as do ensino.
Quando, também no mesmo ano, foram sancionadas na Itália, aliada da Alemanha, as primeiras leis contra os judeus, o papa Pio XI logo as condenou e, a seguir, agiu em conformidade. No mês de Setembro de 1938, perante peregrinos belgas, pronunciou uma frase que teve grande repercussão: – «O anti-semitismo é um movimento no qual nós, cristãos, não podemos ter qualquer participação. […] Espiritualmente, somos semitas»; e, em Janeiro do ano seguinte, pediu aos embaixadores credenciados junto do Vaticano que conseguissem vistos para os seus países em favor dos judeus alemães e italianos. Antes de falecer, o mesmo papa ainda chamou um bispo alemão a Roma a fim de preparar um refúgio para os perseguidos junto da basílica de S. Paulo. Como é manifesto, o cardeal Pacelli estava envolvido nestas iniciativas. De facto, o general Ludendorf haveria de testemunhar: – «Pacelli foi o animador que esteve por trás de todas as actividades anti-germânicas da política da Santa Sé.»
(Continua)
Mons. João Gaspar
