Continuação
Verificada a morte de Pio XI, ocorrida em 10 de Fevereiro de 1939, procedeu-se à escolha do sucessor, que seria o cardeal Eugénio Maria Pacelli; eleito em 2 de Março seguinte, ele adoptou o nome de Pio XII. Perante as pressões e as perseguições a que os judeus estavam a ser expostos, o novo pontífice convidou-os a acolherem-se no Vaticano e ofereceu-lhes ajuda para emigrarem; muitos aceitaram. Na sequência do seu antecessor, o novo papa também interveio persistentemente junto de embaixadores e cônsules de outros países para concederem vistos em seu favor. Atendendo a este pedido, lembro aqui a benemérita acção do dr. Aristides de Sousa Mendes que, sendo cônsul de Portugal em Bordéus de 1938 a 1940, se distinguiu no auxílio a foragidos e a refugiados da guerra e do ódio nazi. O pontífice, sentindo-se limitado em acções públicas, iria fazendo o que lhe parecia ou o que podia através do sigilo da diplomacia, da influência do seu prestígio, da hospitalidade aos perseguidos, da acção caritativa em favor das vítimas da guerra.
Pio XII não desaproveitou o que estava ao seu alcance para impedir os confrontos bélicos, inclusive com tentativas diplomáticas, com apelos aos Estados e com discursos públicos; em Maio de 1939, dois meses após a sua eleição, lançou a ideia de uma conferência internacional entre os Governos de Roma, Paris, Londres, Berlim e Varsóvia – no que não seria ouvido. Quando, em 1 de Setembro de 1939, estalou a guerra com a invasão da Polónia, o papa ainda diligenciou por evitar que a Itália entrasse no conflito, de acordo com Franklin Roosevelt, presidente dos Estados Unidos da América do Norte; e, em 20 de Outubro, na sua primeira encíclica, “Summi Pontificatus”, condenou alguns erros capitais, como a negação da igualdade do género humano e da sua necessária solidariedade, fosse qual fosse o povo a que se pertencesse, e anatematizou ainda a elevação do Estado ou da comunidade social, ocupando o lugar do próprio Criador, como fim último da vida humana e como árbitro supremo da ordem jurídica e moral. Os esforços do sumo pontífice, considerado então (mesmo pela imprensa livre) como um dos poucos baluartes da defesa da liberdade na Europa oprimida, iriam prosseguir durante os anos das hostilidades militares, tantas vezes correndo graves riscos. Pio XII era realista; não queria pagar com o sangue dos outros uma bela mas dura palavra que, no fundo, não lhe teria custado muito. «Quando o papa gostaria de gritar alto e forte, infelizmente é a espera e o silêncio que muitas vezes são impostos; quando gostaria de agir e ajudar claramente, é a paciência e a espera que se impõem» – escreveu ele em 20 de Fevereiro de 1940.
As desumanas crueldades executadas pelos nazis nos campos de concentração apenas seriam claramente conhecidas após o termo das operações bélicas, quando os sobreviventes, ao serem libertados, puderam contar tudo o que viveram e sofreram e aquilo a que estavam sujeitos. O próprio projecto alemão de extermínio total dos judeus não era conhecido nem pelo Vaticano, nem pelas organizações judaicas, nem pelos “Aliados” ocidentais; o segredo é óbvio em tempo de guerra. Ainda em 30 de Agosto de 1943, o secretário de Estado americano comunicava: – «Não há provas suficientes para justificar uma declaração a respeito das execuções em câmaras de gás.»
Apesar da falta de informações fidedignas, Pio XII e os seus colaboradores fizeram contínuos esforços para salvar as pessoas ameaçadas de deportação e para minorar as condições dos campos, de que, apesar de tudo, iam surgindo suspeitas cada vez mais alarmantes. Outrossim, o aparente silêncio escondeu uma contínua acção discreta junto das nunciaturas, dos episcopados, das organizações eclesiais e das autoridades civis para diminuir ou mesmo evitar as violências – o que se pode comprovar por documentos guardados nos arquivos. Como mero comprovativo da acção do pontífice, sabe-se da sua intervenção especial junto dos núncios, conforme aconteceu com o da Hungria, Mons. Ângelo Rotta, e com o da Bulgária, mons. Ângelo Roncalli (futuro João XXIII), que tiveram um papel decisivo em salvar a vida de alguns milhares de judeus. Também é elucidativo o caso ocorrido no outono de 1941; o papa, numa audiência a refugiados judeus, manifestou a sua estima pelo povo israelita, dizendo sofrer com a sorte dos prisioneiros, «que têm a mesma dignidade de qualquer outro ser humano.»
Todavia, as declarações e os protestos públicos, se fossem feitos, não resultariam e até tornariam mais difícil as gestões secretas para salvar vidas e poderiam mesmo agravar a sorte das vítimas e multiplicar o seu número, como aconteceu na Holanda após a condenação formal sobre as deportações de judeus; tal protesto foi corajosamente assinado pelos bispos católicos e pelos responsáveis de quase todas as Igrejas Protestantes, em telegrama enviado a Seyss-Inquart, comissário local da Gestapo alemã. Aliás, o cardeal-primaz da Holanda, Mons. Johannes de Jong, logo desde o começo da ocupação alemã em 1940, reagira contra os crimes praticados pela polícia germânica no seu país, dando directrizes que se leram publicamente nas igrejas, entre elas a proibição de os católicos participarem em organizações nazis. Estas medidas ajudaram o movimento clandestino da resistência e estimularam a que muitos sacerdotes e leigos apoiassem os judeus.
Numa primeira resposta, houve a garantia de que os judeus-cristãos não seriam perturbados. Porém, como o seu sequestro continuava sem parar, as autoridades eclesiásticas de várias Igrejas Cristãs entenderam não se calar e prepararam uma carta pastoral conjunta, cuja publicação foi vetada pelo comissário do “Reich”; o documento, sem qualquer referência à situação política vigente, continha apenas um convite à reflexão pessoal perante os acontecimentos vividos. Os responsáveis das Igrejas Protestantes retrocederam, mas os bispos católicos ignoraram as suas ordens, fazendo saber ao ocupante que não tinha o direito de se intrometer nos assuntos da Igreja Católica. A carta pastoral, em que se incluía o dito telegrama, foi publicitada nas liturgias dominicais de 26 de Julho de 1942. Nela se lia, entre outras coisas: – «Queridos fiéis, antes de mais, suscitemos em nós mesmos um profundo sentimento de arrependimento e de humildade. Com efeito, não somos nós também responsáveis pelas catástrofes que nos afligem? Buscámos sempre e acima de tudo o Reino de Deus e a sua justiça? Praticámos sempre os nossos deveres de justiça e de caridade para com o próximo? Se reflectirmos seriamente, reconheceremos que todos estamos em falta… Supliquemos a Deus que se digne conceder depressa ao mundo uma paz justa. Que fortaleça o Povo de Israel, nestes dias tão duramente provado, e o conduza à verdadeira redenção de Cristo.»
A reacção nazi à palavra profética da Igreja Católica da Holanda não atrasou mais do que uma semana… e foi brutal. No dia 2 de Agosto, todos os judeus-católicos – cerca de trezentos, incluindo os que viviam em conventos – foram presos e logo forçadamente encaminhados para os campos de morte no Leste, nomeadamente Auschwitz, Birkenau e Breslau. Todos eles foram as vítimas inocentes da vingança e do ódio que os alemães não puderam desferir sobre as autoridades eclesiásticas. Foi nesta ocasião que o sumo pontífice decidiu imediatamente suspender a condenação pública e formal do Nazismo alemão e do Fascismo italiano, que ele pensava ler aos microfones da rádio vaticana, tanto mais que soubera das desastrosas consequências, já programadas contra os católicos, no caso de ele não recuar.
Continua
