O Papa Pio XII e o Nazismo – III

Reflexão Continuação

No rodar dos acontecimentos, no ano de 1943, a autoridade nazi de Roma emitiu a ordem de prisão imediata de todos os judeus residentes nesta cidade. Previu-se que fossem capturadas cerca de seis mil pessoas, a fim de serem enviadas para o campo de concentração de Mauthausen. O papa interveio directa e rapidamente, quer recolhendo milhares de judeus no Vaticano e em Castelgandolfo, quer mandando aos superiores e às superioras dos mosteiros e dos conventos que, suspensas as suas constituições, escondessem imediatamente os homens e as mulheres perseguidos. Assim se salvaram quase cinco mil judeus; muitos dos restantes foram deportados para Auschwitz – e mais não foram devido à intervenção do secretário de Estado de Sua Santidade, cardeal Luigi Maglione, junto do embaixador alemão no Vaticano a quem pediu: – «Tente salvar os inocentes que sofrem por pertencer a uma raça determinada». A este propósito, lembro o que em 1951, no Seminário de Cristo-Rei, nos contou a nós, jovens alunos, o cardeal-patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira. Disse ele que, no início do segundo semestre de 1943, Hitler pensara em ocupar o Vaticano e sequestrar ou mesmo matar Pio XII, como resposta à primeira prisão de Benito Mussolini, da Itália; é que o ditador não podia deixar em claro o papel anti-nazi do pontífice. No caso de tal acontecer, o núcleo governativo da Santa Sé, não tendo condições para exercer a sua missão em Roma, talvez se estabelecesse no convento de Mafra, segundo o que se havia acordado diplomática e secretamente com o Estado Português.

A guerra na Europa terminou em 7 de Maio de 1945, com a derrota e a rendição da Alemanha. Tendo consciência do apoio humanitário, inteligente e eficaz que lhe fora dado por Pio XII e pelos católicos, o povo judeu manifestar-se-ia agradecido ao papa. Destaco alguns momentos em que tal sentimento de gratidão foi concretizado de forma pessoal: – Em 7 de Setembro, por José Nathan, comissário da União das Comunidades Judaicas Italianas; em 21 seguinte, por Leo Kubowitzki, secretário geral do Congresso Judaico Mundial; e, em 29 de Novembro, por oitenta delegados dos prisioneiros dos campos de concentração alemães, que particularmente lhe agradeceram a sua «generosidade demonstrada para com eles durante o terrível período do Nazi-fascismo.» Todos reconheciam que a influência de Pio XII, «em toda a Europa durante a guerra», fora extraordinária ao ponto de mandar e aconselhar os arcebispos e bispos das Dioceses, os religiosos e religiosas dos conventos e os responsáveis das instituições da Igreja Católica que socorressem os perseguidos, apesar dos perigos a que se expunham. Perante a grandeza moral do sumo pontífice, depois de assinada a paz, o rabino-mor de Roma, Israel Zolli, e sua mulher, que o papa tinha recolhido no Vaticano, converteram-se ao catolicismo, sem influxo de ninguém.

Por seu turno, Golda Meir, ministra das Relações Exteriores de Israel e mais tarde primeira-ministra, quando Pio XII faleceu em 1958, escreveu numa missiva que enviou à Santa Sé: – «Nós choramos um grande servidor da paz. […] Compartilhamos da dor da humanidade. […] Quando o terrível martírio se abateu sobre o nosso povo, a voz do papa elevou-se em favor das vítimas.» E o célebre cientista e judeu alemão Albert Einstein, que morreu em 1955, não deixou de escrever no “The Tablet” de Londres: – «Só a Igreja Católica se pronunciou claramente contra a campanha hitleriana que suprimia a liberdade. Até então a Igreja nunca tinha chamado a minha atenção; hoje, porém, expresso a minha admiração e o meu profundo apreço por esta Igreja que, sozinha, teve a coragem de lutar pelas liberdades morais e espirituais.» Outro judeu, o dr. Greenstein, presidente das Associações Caritativas Judaicas de Baltimore, também testemunhou: – «Jamais esquecerei o meu encontro com Pio XII. Disse a Sua Santidade que lhe levava uma bênção especial do seu amigo, o rabino Herzog, pelos esforços que tinha feito para salvar a vida dos judeus durante a ocupação nazista da Itália. Respondeu-me ele que a sua única pena era a de não ter conseguido salvar um ainda maior número de judeus.»

O professor judeu Pinchas Lapide, que exerceu as funções de cônsul israelita em Milão e de director do Serviço de Imprensa do Governo do seu país, falecido em 1997, foi um dos investigadores que estudaram a atitude de Pio XII com os judeus, durante a segunda guerra mundial. Quando, em 1963, se desencadeou um ataque violento e ofensivo da memória de Pio XII, considerando que nada fizera para evitar o genocídio do povo judeu e apresentando-o como cúmplice de Hitler, com base na publicação e representação em Berlim da peça teatral, escrita pelo protestante Rolf Hochhuth, “O Vigário” (a seguir transposta para o cinema), aquele professor saiu em defesa do sumo pontífice com o livro “Rom und die Juden”. Pouco antes de morrer, Lapide fez ainda novas declarações, juntamente com sua mulher Rute, historiadora e especialista em judaísmo, que em 1997 foram incluídas na revista alemã “PUR-Magazin”. Classificando as afirmações de Hochhuth como «preconceitos injustos contra o papa», e, no que se refere a Pio XII, «uma simplificação e em parte calúnias», escreveu ele: – «Posso afirmar com verdade que o papa, pessoalmente, os núncios e toda a Igreja Católica salvaram da morte cerca de quatrocentos mil judeus.» Lapide recordaria também que Mons. Eugénio Maria Pacelli (futuro Pio XII), quando núncio apostólico em Munique, tinha contribuído em 1917 para, na Palestina, salvar os judeus de um massacre projectado. E lembra ainda que, pouco antes do Natal de 1944, esteve com Pio XII durante cerca de uma hora; entre outras coisas, disse o papa: – «Senhor Lapide, estou certo de que, no futuro, vai pensar-se que eu poderia ter feito mais para salvar judeus – e é evidente que poderia fazer mais; mas é uma realidade aquilo que pude fazer.» Por sua vez, Rute haveria de corroborar: – «As Igrejas Evangélicas e o Comité Internacional da Cruz Vermelha fizeram muito menos do que fez o Vaticano para salvar judeus.»

Termino estas linhas, referindo apenas três episódios: – Em 18 de Janeiro de 2005, uma delegação de representantes religiosos judeus, deslocando-se ao Vaticano em visita a João Paulo II, agradeceu o que a Igreja Católica havia feito em favor das vítimas do Nazismo; – em 18 de Junho de 2008, um pequeno grupo de sobreviventes do “Holocausto” foi à presença de Bento XVI com idêntica finalidade; – e, ainda em 2008, Erich A. Silver, destacado rabino americano de Cheshire (Connecticut), escreveu no prólogo do livro de Margherita Marchione, então publicado: – «Vale a pena destacar que, após o fim da guerra e até à sua morte, os judeus continuamente elogiaram Pio XII, reconhecendo-o como salvador.»

Mons. João Gaspar