“O presente é o único espaço possível de fidelidade e de felicidade”

Texto proferido por Mons. João Gaspar nos aniversários de D. António Marcelino

Desde que comecei a privar de perto com ele, nunca deixei de admirar a intensidade e a energia de uma vida sem cansaço, estando presente onde via ser necessário ou útil, para estimular tantas e tantas pessoas empenhadas no serviço da Igreja, para orientar as consciências no caminho certo, para dialogar com os sacerdotes, os diáconos e os leigos, para transmitir a mensagem cristã em conferências, palestras, ou simples encontros, para servir na celebração de sacramentos ou na presidência de sessões públicas, para acompanhar tanto os sofredores de momentos de infortúnio como os contentes em horas de regozijo.

Um outro sector a que se entregou e continua a entregar é o dos meios da comunicação social. São frequentes as entrevistas e as intervenções, sobre muitos aspectos da vida política, social, moral e eclesial. Contudo, realço a redacção do primeiro artigo no jornal diocesano “Correio do Vouga”, pontualmente e sem excepção publicado semanalmente, logo transcrito por muitos outros periódicos, mesmo diários. Os temas desenvolvidos são sempre actuais; a erudição e a competência do autor sobressaem desde a primeira à última linha. Sempre leu e lê a vida numa perspectiva humanitária e cristã, com o fim de estabelecer pontes entre a fé a cultura, entre a Igreja e a Sociedade.

É por demais conhecido como ele se tem dado e se tem preocupado intensamente com o rejuvenescimento das comunidades cristãs, a reforma das estruturas diocesanas e paroquiais, a procura de novos caminhos que se ajustem às prementes necessidades actuais. Para consciencializar os cristãos na urgência da missão junto dos crentes e junto dos adormecidos e indiferentes, incentivou o Congresso dos Leigos, lançou e acompanhou os trabalhos do II Sínodo Diocesano e activou a Caminhada Sinodal sobre os Jovens; além disso, promoveu Assembleias Diocesanas e visitou regularmente as paróquias, as instituições e as comunidades religiosas.

Voltado, outrossim, para a formação integral da pessoa humana, além de acompanhar de perto a formação dos candidatos ao sacerdócio e ao diaconado, deu incremento a escolas de diversos graus, como centros sociais para a infância e colégios do Ensino Básico e Secundário; e, com o desejo de preparar leigos para as lides apostólicas, arrancando-os da monotonia, em 1989 criou o Instituto Superior de Ciências Religiosas, cuja acção se desenvolve em múltiplos cursos e em vários níveis.

Pessoalmente, sempre vi D. António Marcelino num esforço contínuo de imitar, com vivacidade, o apóstolo S. Paulo (I Cor. 9, 22), que se fez tudo para todos, a fim de ganhar alguns, por todos os meios. Com os dons e as virtudes de que é enriquecido, com o dinamismo e a alegria que lhe são naturais e com a inteligência e a vontade de que é dotado, a sua presença em Aveiro foi e continuará a ser marcante. Na mensagem datada no dia em que iniciou o múnus de primeiro responsável da Diocese, D. António deixou transbordar do coração a norma que é a sua regra de acção; cito essas palavras: – Ao meu lema da primeira hora – ‘Fazer a verdade na caridade’ – desejo juntar, agora, uma outra palavra do apóstolo Paulo, com a consciência do que ela exigirá, todos os dias, de mim e dos meus colaboradores: – ‘Darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pela vossa salvação’ (II Cor. 12, 15).

Ardendo em desassossego na multiforme acção pastoral, sempre em projecto permanente, o nosso Bispo tem-me estimulado a jamais ser indiferente perante uma sociedade em mutação, onde é necessário que a Igreja seja um clarão de esperança; continuarei a vê-lo como alguém que constantemente me lembra que a caridade de Cristo me obriga a não parar.

Sr. D. António:

Se hoje é o termo de uma etapa da sua vida e da sua vida episcopal, de forma nenhuma desejamos que deponha as armas, porque muito esperamos do seu labor colaborante, do seu conselho prestimoso e da sua amizade fraterna. Decerto que também os seus Colegas no Episcopado e o nosso novo Bispo esperam muito da sua disponibilidade. Como até aqui, também confiamos na sua prece, para bem do Reino de Deus nas Terras de Aveiro, que são suas e que lhe são muito queridas. Bem haja, pelo incentivo que sempre nos deu e pelo exemplo que sempre nos alentou, mesmo em procurar destruir rotinas sem vida, individualismos sem abertura, tradições sem sentido, não tendo complexos em relação ao passado, mas respeitando e dialogando com as pessoas. O seu dinamismo sem desalento ajudou-nos a concretizar, cada vez mais, o nosso compromisso cristão e sacerdotal ou diaconal… cada vez melhor, o nosso empenho na vocação e a nossa caminhada na missão.

Afinal, na perspectiva dos anos que lhe podem restar de vida – como escreveu em 25 de Setembro de 2002, no “Correio do Vouga” – “não é o tempo o principal, mas sim o manter vivo até ao fim o projecto de fidelidade Àquele e àqueles a quem me devo e o permanecer sensível aos sinais dos tempos, que tanto denunciam apelos de Deus, como ausência de horizontes de transcendência. Não se pode estar onde se está, senão vivo; nem adormecer, nem desistir. O que se viveu antes diz-nos hoje que tudo na vida constituiu certeza, força e esperança para continuar de modo útil. Quando a nossa razão tem Deus pelo meio, o presente é o único espaço possível de fidelidade e de felicidade”.

Mons. João Gonçalves Gaspar