O primeiro desafio

Foi no dia da entrada na Diocese. Tínhamos terminado a celebração. Era a avalanche dos cumprimentos. Um jovem todo desenvolto disse-me de caras: “Vamos lá ver se o que disse não fica só em palavras…” Assim mesmo. No abraço fraterno, que retribui, disse-lhe por meu lado: “Depende de nós todos. Também de ti. Para serem só palavras não precisava de ter vindo. Mandava uma cassete. Vamos todos a isto?…” Nem tive tempo de lhe fixar o rosto. Nem isso era, no momento, o mais importante, porque o rosto dele e as suas palavras tomei-as como se fossem de cada cristão da diocese a interpelar muito legitimamente o bispo que chegava. Aceitei o desafio e apelei para a corresponsabilidade. Penso que ele entendeu.

Servir, estar sensível a todos os apelos e necessidades, ser instrumento de união e promotor de comunhão, permanecer sempre atento à acção do Espírito, pôr ao dispor de todos com alegria o “dom próprio”, sofrer com o que faz falta…, tudo isto na Diocese tem que ver com todos, bispos, padres, religiosos, leigos, jovens e adultos, porque todos somos membros comprometidos na missão de uma Igreja que somos nós e que é a nossa Igreja.

António Marcelino

No dia 13 de Março de 1981, D. António assina o primeiro texto no semanário da Diocese de Aveiro, numa coluna intitulada “Em Missão”. No final dessa primeira colaboração, acrescenta a nota: “Convicto da importância dos meios de comunicação social na acção pastoral, propus-me a entrar no «Correio do Vouga» e estabelecer com os leitores um encontro semanal. O jornal é um púlpito privilegiado. O bispo não pode esquecer nem dispensar esta tribuna. Do interesse concreto deste encontro, dirão os leitores”.

O texto citado encerra uma história. D. António escreve que não teve tempo de fixar o rosto do jovem, mas, mais tarde, ao cruzar-se com o jovem num café reconhece-o e interpela-o. Hoje, esse “jovem” é padre na diocese de Aveiro.