O que diz o nosso bispo

Dias Positivos D. António Marcelino deu uma extensa entrevista ao Diário de Aveiro: quatro páginas, na edição de 29 de Outubro, em que se fala da família, da sucessão do Papa, da escola e vários outros assuntos. Quem lê os seus artigos, neste ou em outros jornais, aos quais o Correio do Vouga envia todas as semanas os textos do Bispo de Aveiro, já conhece o tom frontal, esclarecido e incisivo com que D. António aborda todas as questões sociais e eclesiais. No entanto, queremos deixar aqui, por temas, algumas das frases desta longa entrevista que certamente muitos leitores gostariam de ter lido.

Sucessão do Papa. “Nunca, nos tempos modernos, foi complicada a sucessão do Papa. A Igreja mais consciente não está nada preocupada com isso. No momento próprio, virá a pessoa adequada e necessária.”

Críticas à Igreja. “É curioso que as pessoas que criticam mais a Igreja são, normalmente, as que estão de fora. As mazelas e as riquezas só as percebe bem quem está dentro. Quem está fora ou é preconceituoso, ou gente que da história apenas apanhou e guardou aspectos negativos.”

Concordata e Liberdade Religiosa. “Hoje a Lei da Liberdade Religiosa dá a qualquer congregação religiosa, reconhecida e registada, o que dá à Igreja Católica. Mas continuamos a ouvir críticas à Concordata de muitos que nunca a leram, nem leram a Lei de Liberdade Religiosa, já promulgada em 2001. Não há honestidade intelectual da parte de muita gente. Reina a ignorância e o preconceito e, por vezes, mesmo o ódio.”

Família. “O bastião da família foi atingido e ela ficou fragilizada e desguarnecida. (…) Não tem lógica que num Estado em que se defenda a família, as famílias constituídas de harmonia com a lei sejam as prejudicadas no regime fiscal. (…) Diz-se por aí que é preferível que os pais se divorciem, porque as crianças podem ser traumatizadas. Mas há outros traumas a que se deve atender. Preferível é que os pais se entendam, e os casamentos se preparem cada vez com mais seriedade e sentido de responsabilidade. A capacidade de perdão e de desculpa é cada vez mais rara. Amar é conhecer, compreender, perdoar, ajudar, esperar, ouvir e fazer-se ouvir. (…) A luta era pela estabilidade. Agora basta que queiram. Uma banalização do divórcio, como está a contecer, nunca será inócua para as pessoas e para a sociedade.”

Escola, educação e Estado. “A educação é coisa do coração e as instituições do Estado, em geral, não tem coração. Há gente maravilhosa nas escolas do Estado, há professores estupendíssimos, mas a engrenagem é muito pesada. Ao passo que para nós há maior maleabilidade e temos a obrigação de fazer que assim seja. (…) Os quatro colégios que temos aqui na diocese, ligados à Igreja, são todos gratuitos. São escolas inclusivas com gente de todas as origens sociais. (…) O Estado paga numa escola estatal por aluno três vezes mais, pelo menos, do que paga numa escola privada com acordo de associação e, portanto, com ensino gratuito. (…) A educação, hoje, faz-se em rede. É a escola, a família, o escutismo, os meios de comunicação social, a rua, a comunidade circundante, a autarquia. Tanto na escola estatal como na privada, ambas públicas, ou se funciona assim ou não se consegue coisa alguma. (…) As orientações que dou sempre que falo aos pais é que têm de colaborar com a escola, não estar em oposição à escola.”

Idosos. “Há cada vez mais gente a querer alijar os cuidados com os velhos. (…) Quando precisam dos pais, os filhos sabem onde encontrá-los, mas quando se tornam um incómodo, esquecem-se facilmente deles. (…) Quando os filhos, crianças ou jovens, vêem os pais desprezar os avós, o que é que esperam estes pais?”

Droga. “Hoje verificamos que, por um lado, fazem-se leis contrárias, mas, por outro, favorece-se a permissividade.”

Terrorismo e fundamentalismo religioso. “O fanatismo religioso, quando nasce e se alimenta de uma ideologia, é pior que qualquer outro, porque tem convicções profundas para agir. Sentindo esta força, é mais fácil a coesão das pessoas que têm os mesmos princípios inspiradores. Não é a religião que faz o terrorismo, mas os fundamentalismos religiosos fanáticos que primam pela cegueira e pela falta de lógica humana.”

Ensinamento. “A vida ensinou-me que só são vencidos os que desistem.”