O que são sacramentais?

III Etapa Pastoral A Diocese de Aveiro, na terceira etapa rumo ao jubileu, tem entre os seus objectivos pastorais “rever e revitalizar a pastoral dos sacramentais”. Nesta página apresenta-se em grandes linhas o que são sacramentais.

Diz o Catecismo da Igreja Católica (CIC) que os sacramentais “são sinais sagrados por meio dos quais, imitando de algum modo os sacramentos, se significam e se obtêm, pela oração da Igreja, efeitos principalmente de ordem espiritual”.

Há claras diferenças entre sacramentos e sacramentais, a começar pelo facto de os primeiros terem sido instituídos por Jesus Cristo e terem o seu número fixo (sete), enquanto os segundos são instituídos pela Igreja e podem variar consoante a história e geografia. Por outro lado, enquanto os sacramentos significam a salvação de Cristo (santo Agostinho dizia que “não há outro sacramento de Deus senão Cristo”), isto é, continuam as acções de Cristo ressuscitado e do seu Espírito através da Igreja (também ela sacramento, sinal), os sacramentais preparam, acompanham e prolongam a acção dos sacramentos. São secundários em relação aos sacramentos. Em certos casos essa relação é muito clara, como na água benta, um sacramental que nos lembra o Baptismo. Ou no acto da exposição e bênção do Santíssimo, que remete para a Eucaristia. Ou até nas cinzas, que sugerem conversão e penitência, logo, Reconciliação. Noutros, como em algumas bênçãos, a relação pode não ser tão explícita, mas como todo o baptizado “é chamado a ser uma bênção e a abençoar”, a ligação ao Baptismo está subjacente.

Quais e quantos são, então, os sacramentais? O Catecismo não os elenca todos deixando claro que o seu número é variável, já que são “instituídos pela Igreja com vista à santificação de certos ministérios da mesma Igreja, de certos estados de vida, de circunstâncias muito variadas da vida cristã, bem como do uso de coisas úteis ao homem”. E acrescenta: “Segundo as decisões pastorais dos bispos, podem também corresponder às necessidades, à cultura e à história próprias do povo cristão duma região ou duma época”. Destaca, no entanto, dois sacramentais: as bênçãos e o sempre polémico exorcismo. José Aldazával, no seu “Dicionário Elementar de Liturgia” (disponível no sítio do Secretariado Nacional da Pastoral Litúrgica), aponta outros: exéquias, profissão religiosa, persignação na fronte, aspersão dominical com água benta, imposição das cinzas, bênção dos ramos, adoração da Cruz na Sexta-feira Santa, procissões diversas. Há quem aponte ainda o crucifixo, as imagens, os ícones, as velas, os escapulários.

Entre todos estes sacramentais, as bênçãos adquirem maior destaque. Algumas, como a dedicação de uma igreja e do altar, afectam toda a Igreja, pelo que são reservadas ao Bispo, mas muitas outras são realizadas por padres, diáconos e leigos. Para estes últimos, a mais comum será a bênção da mesa e dos familiares – cada vez menos praticada. Os leigos também podem presidir às exéquias, embora seja raro entre nós.

Porque tudo o que é digno e honesto pode contribuir para santificar o ser humano e louvar a Deus, há bênçãos previstas para quase todas as situações humanas no “Cerimonial das Bênçãos”: para as crianças e os doentes, para alimentos e campos, grávidas e vestes, para animais e instrumentos de trabalho, meios de transporte e instalações…

As bênçãos precisam de ser valorizadas pelos cristãos e, por vezes, expurgadas de superstições e de desejos de efeitos mágicos. Contou o padre Vítor Melícias, frade franciscano, conhecido sportinguista, que após a bênção da primeira pedra do Estádio Alvalade XXI a comitiva foi para o antigo estádio ver a partida Sporting – Braga. Jogo amigável. O Braga ganhou, pelo que um adepto sportinguista, descontente com o resultado, disse ao frade franciscano: “Tanta benzedura, não sei para quê…” O padre Vítor Melícias respondeu: “Eu benzi a carroça, não os burros”. Mas mesmo que tivesse benzido os burros, a bênção nunca é um “doping” sagrado.

A principal finalidade das bênçãos, como de todos os sacramentais, é ligar e alimentar e predispor quem as recebe (ou quem usa os objectos benzidos) para o sacramento maior que é Jesus Cristo.

J.P.F.

Diferenças entre sacramentos

e sacramentais

SACRAMENTOS

* São sete: Baptismo, Crisma, Eucaristia, Reconciliação, Unção dos Doentes, Ordem, Matrimónio

* Foram instituídos por Jesus Cristo

* São universais

* São actos de Cristo através da Igreja para a salvação dos seres humanos

SACRAMENTAIS

* De número variável, destacando-se as inumeráveis bênçãos, as exéquias e a água benta

* São instituídos pela Igreja

* Podem variar na história e nos lugares

* Predispõem, acompanham e prolongam os sacramentos; derivam e remetem para os sacramentos