Conferência abordou a procura da verdadeira face de Cristo A procura do verdadeiro rosto de Jesus é uma tarefa inglória. Não há maneira de saber como Ele realmente era, qual o seu aspecto físico, a cor dos olhos, dos cabelos… Dizer, hoje, que Ele tinha barba, cabelos compridos e era alto, é tão acertado ou errado como dizer que era baixo, de cabelos curtos e sem barba. Os evangelhos não revelam qualquer aspecto da imagem física de Jesus de Nazaré. Porém, as tentativas que ao longo da história tentaram reconstituir o aspecto de Jesus de Nazaré revelam muito acerca da própria humanidade. As gerações humanas reviram-se e revêm-se no rosto do Bom Pastor, que, segundo outra tradução possível dessa expressão do Evangelho de João (10,11), é igualmente o Belo Pastor.
Estas foram algumas das afirmações de Jorge Pires Ferreira, professor do Instituto Superior de Ciências Religiosas (ISCRA) e director-adjunto do Correio do Vouga, na conferência “O Rosto de Jesus Cristo: História e Novas Visões”. A comunicação inseriu-se na Semana dos Finalistas da escola da diocese. Nos corredores do instituto (que funciona no Seminário de Santa Joana), ainda é possível ver uma exposição de imagens (pintura moderna e fotografia) dos modos diversos como artistas contemporâneos têm representado Jesus Cristo.
O cristianismo não proíbe representações das realidades divinas, desde que se reconheça que qualquer representação é sempre limitada, ao contrário de outras religiões, nomeadamente o judaísmo e o islamismo (daí, em parte, a polémica das caricaturas). Por isso, igreja dos primeiros séculos começou por lembrar Jesus Cristo por meio de símbolos (âncora; fénix que renasce das cinzas, como Jesus ressuscitou; peixe…) e também pela imagem do pastor, figura igualmente querida da literatura pagã, pois representava para estes o homem atento à natureza.
Feio ou “o mais belo dos homens”?
Só pelo séc. V surgiram representações de Jesus crucificado. E é por essa época, igualmente, que começa a ser representado de cabelos compridos e de barba. Era assim que pensavam que viviam os judeus do primeiro século, o que – sabe-se hoje – não corresponde bem à realidade. Entretanto, durava há séculos um debate sobre a beleza de Jesus Cristo, com duas facções. Uns apoiavam-se no profeta Isaías, para dizer que o Filho de Deus não “tinha aparência nem beleza para atrair o nosso olhas, nem simpatia para que pudéssemos apreciá-lo” (Is 53,2). Ou seja, era feio. Tertuliano, Orígenes, Cipriano e Hipólito faziam parte desta facção. Achavam, como escreveram, que Jesus tinha uma “aparência desprezível”, como “um escravo”, ou mesmo “um leproso”. Outros, como Gregório de Nisa, João Crisóstomo, Ambrósio de Milão e Agostinho de Hipona, vêem em Jesus um modelo de beleza, na linha do Salmo 45: “Tu és o mais belo dos homens”.
À falta de uma fotografia, cada época tem uma imagem de Cristo de acordo com os seus sonhos, medos, desejos e ambições: do Bom Pastor das catacumbas ao Pantocrator das cúpulas bizantinas, do rei, imperador e juiz da Idade Média, que serve de justificação a posições absolutistas dos monarcas terrenos, ao Cristo pobre e alegre de Francisco de Assis (retomado no Cristo hippie dos anos 60 e 70), do Cristo nórdico, louro e de olhos azuis, ao Cristo de pele negra, vermelha ou amarela… O que quererá dizer a profusão de imagens? Talvez isto: Jesus Cristo é verdadeiramente o ser humano universal, não por ser abstracto, mas reencarnar em cada cultura concreta.
