À Lus da Palavra Domingo XVII do Tempo Comum
Leituras: 2 Reis 4, 42-44; Salmo 144 (145); Ef 4, 1-6; Jo 6, 1-15
Há alguns anos, encontrei-me com um grupo de mulheres, num bairro de uma zona degradada da Cidade do México. Naquele lugar marginal não existia água canalizada, nem luz eléctrica, nem outro tipo de infra-estruturas que tornam a vida de cada dia mais fácil e agradável. Naquela tarde, meditávamos a passagem dos Actos dos Apóstolos 2,42-47. No versículo 43, o autor dos Actos diz que os Apóstolos rea-lizavam “inumeráveis prodígios e milagres”. Quando perguntei àquelas mulheres se elas eram testemunhas de algum milagre realizado à sua volta, em nome do Se-nhor Jesus, uma das senhoras sem hesitar disse: “Sim, eu sou testemunha de grandes milagres, o milagre de estarmos aqui reunidas quando há algum tempo atrás nem nos conhecíamos, o milagre de juntas procurarmos soluções para as nossas necessidades e de nos comprometermos para que possamos chegar a ter aquilo a que os nossos filhos e nós temos direito”. E o milagre da partilha foi-se concretizando em acções a favor de todo o povo. Conseguiram luz, água, a construção de um templo, um refeitório para crianças e um posto médico. O milagre foi possível na medida em que cada uma punha a render os seus talentos e estes iam-se multiplicando.
Recordava esta experiência quando lia as leituras do próximo Domingo. Tanto a primeira leitura, como o Evangelho, nos fazem ver que o pão partilhado sacia a fome de muitos. Para que o milagre se realize não é preciso ser homens e mulheres especiais, mas a Palavra de Deus revela-nos algumas atitudes necessárias. Num primeiro momento, é necessário pôr abertamente à disposição dos outros, tudo o que temos. A primeira leitura diz-nos que “veio um homem (…) e trouxe a Eliseu, o homem de Deus, pão feito com os primeiros frutos da colheita. Eram vinte pães de cevada e trigo novo” (2 Reis 4, 42). E no Evangelho, vemos como André descobre, no meio daquela multidão, um rapazinho que tem cinco pães de cevada e dois peixes. Por isso, este jovem devia ter a sua cesta com o farnel, bem à vista.
Uma tentação que todos temos quando vemos que há muitos para receber e pouco para repartir é o medo que não chegue para todos, ou talvez o medo de ficarmos nós sem nada e que o pouco que temos se perca, se dilua, sem que dê rendimento. Foi a tentação do homem da primeira leitura: “Como posso com isto dar de comer a cem pessoas?” (2 Reis 4, 43). Foi também o medo dos discípulos, que diante dos cincos pães e dos dois peixes disseram: “Mas que é isso para tanta gente?” (Jo 6, 9). A verdade é que o medo destes personagens desaparece quando começam a repartir o que têm. Afinal, chega para todos e ainda sobra. Não é que, de repente, aquele que reparte se torna o super-homem que antes não era. Talvez o que acontece é que quando um abre a sua mão e começa a repartir, faz com que outros fiquem contagiados com a sua atitude e repartam também. E quando todos dão o que têm, a ninguém falta nada, e ainda sobra para outros. O milagre da comunhão, fruto de acreditar no mesmo Deus e Pai de todos (Ef 4,6), tem como consequência outro milagre: o da partilha. E o milagre da partilha melhora as condições de vida de todos.
Estrella Rodríguez, FMVD
