Reflexão sobre os serviços paroquiais para os doentes, na proximidade do Dia Mundial do Doente (11 de Fevereiro)
“Maria pôs-se a caminho e dirigiu-se à pressa (…). Entrou em casa de Zacarias e saudou Isabel” (Lc 1,39-56). A disponibilidade solícita de Maria para com Isabel e a prontidão com que a manifestou define bem a atitude que o visitador de doentes deve ter em idênticas circunstâncias. Maria, ao ter conhecimento da gravidez da sua prima Isabel, apressou-se para ir ao seu encontro para estar presente nesta nova experiência de vida de Isabel. Foi ter com Isabel, entrou na sua casa e lá permaneceu. Com esta atitude, Maria manifestou uma presença sem limites, uma atitude de serviço generoso e incondicional, símbolo perfeito da Igreja que representa: a Igreja do acolhimento, da caridade e do serviço.
Há paróquias que reduzem este serviço à visita que o ministro extraordinário da Comunhão faz, ao levar a Eucaristia dominical à residência do doente, convencendo-se de que a referida “visita”, feita muitas vezes à pressa, resolve a questão do acompanhamento espiritual e religioso dos doentes. Este serviço “eucarístico-sacramental”, muito importante para o doente acamado, é da responsabilidade da comunidade e da Pastoral de Liturgia.
Em muitas paróquias é o pároco que assegura este serviço pastoral junto dos seus paroquianos doentes – um serviço essencialmente sacramental que, na maior parte das vezes, é prestado somente nas proximidades da morte.
Os agentes da pastoral dedicados aos doentes não podem contentar-se em fazer uma pastoral reduzida a uma visita esporádica ou a levar ao doente a Sagrada Eucaristia dominical. A primeira e mais importante tarefa a desenvolver é sensibilizar toda a diocese para a necessidade de promover, organizar e actualizar a Pastoral da Saúde nas paróquias, de modo a que nenhum dos doentes de cada comunidade se sinta desapoiado, isolado, excluído ou esquecido pela comunidade que o viu nascer, crescer, envelhecer e adoecer.
Para que a Pastoral da Saúde realize a sua missão de evangelizar através do serviço que presta aos outros e produza os bens humanos e espirituais que se esperam, ao provocar na pessoa doente uma reafirmação da sua fé, radicada em Jesus Cristo, é fundamental que se reúnam e convirjam todos os esforços pastorais que hoje são dirigidos à pessoa carente e seus cuidadores envolventes, sejam eles crentes ou não. O principal objectivo des-ta acção conjunta e co-responsável é conseguir, com o esforço e participação de todos, a regeneração total da pessoa, com perspectivas renovadas de esperança salvíficas, evitando o serviço isolado, copioso, desorganizado e viciado, de cariz meramente individual e assistencial. Na minha perspectiva, aquilo que o agente de pastoral deve fazer perante a pessoa doente é colocar-se ao seu lado e ajudá-la a vencer os obstáculos que a impedem de viver como pessoa, procurando, simultaneamente, levá-la a adquirir a sua auto-estima e realização pessoal, de modo a ser feliz, a sentir-se valorizada, amada e a recuperar o seu lugar na comunidade e/ou na sociedade.
Todos os grupos de pastoral da Igreja devem trabalhar em equipa e procurar estar pastoralmente ligados, em total sincronização com os demais grupos da comunidade, criando entre si uma rede de cuidados e serviços que contribuem para o bem comum e para a realização total da pessoa doente.
A pessoa carente, a pessoa idosa ou o doente poderão precisar de pão e de atenção mas, e acima de tudo, precisarão, com certeza, de que lhe mostremos o caminho da salvação e o sentido para a sua vida, contribuindo o mais possível para a promoção da sua pessoa no seu todo. É importante também que o doente seja ajudado a descobrir e a valorizar a sua dignidade e aprenda a defender e a respeitar a vida, quer na saúde quer na doença, mesmo que esteja a ser confrontado com a sua própria impotência e vulnerabilidade.
Os visitadores de doentes na paróquia e os MEC
Os visitadores de doentes são membros activos da comunidade e, por isso, são os representantes da comunidade e da Igreja junto dos doentes, com um serviço pastoral de caridade e de presença permanentes. Sentem-se comprometidos e enviados por Jesus Cristo para ir em missão e em espírito de serviço a visitar os doentes que conhecem, para os escutar e acompanhar.
A missão do visitador de doentes é diferente da dos ministros extraordinários da Comunhão (MEC). O visitador leva ao doente disponibilidade para o escutar com carinho e acompanha-o com solicitude e generosidade apostólica. Dirige-se ao doente com atitude fraterna e identifica-o com Jesus Cristo. Vê nele o rosto de Cristo sofredor, abrindo-se à doação total de si mesmo, à causa do sofrimento dos irmãos. Entra na casa do doente e fica com ele o tempo que for necessário, como fez Maria à sua prima Isabel.
Visitadores e MEC são grupos que pertencem à comunidade e prestam serviços em nome desta aos doentes. O serviço litúrgico prestado pelos MEC é administrado somente a doentes cristãos baptizados e crentes previamente preparados.
O serviço pastoral do visitador é um serviço de presença e de acompanhamento permanente e é dirigido a todos os doentes da comunidade eclesial ou civil, sejam crentes ou não. O visitador de doentes, com o serviço humano e de evangelização efectivos, tem como objectivo a libertação total da pessoa, levando o doente a acreditar na Palavra de Deus e a desejar os sacramentos que, para nós, crentes, são meios de encontro pessoal com Deus e instrumentos de salvação. Por isso, é um serviço que precede o apostolado do MEC. Contudo, ambos completam-se.
Na prática, estes dois serviços de pastoral podem ser realizados pelo mesmo agente e o doente ser também o mesmo receptor dos dois serviços, mas como os serviços são diferentes, diferentes devem ser também os momentos de cada acção pastoral.
O serviço que os MEC oferecem aos doentes da comunidade, os bens espirituais que realizam através da Palavra de Deus e da Eucaristia, são, ou deveriam ser, o resultado final da pastoral realizada anteriormente, praticada pelos visitadores que, através do serviço de presença, apoio social e espiritual, levam o doente a acreditar na Palavra que vai escutando e interpretando em cada gesto de amor que recebe gratuitamente do agente de pastoral domiciliário.
Quando o doente recebe a Sagrada Comunhão realiza o seu encontro pessoal com Deus. Este encontro íntimo deve ser valorizado e respeitado, dando-lhe espaço para o acolhimento, recolhimento e oração.
Diác. José Carlos Costa
Médico. Coordenador da Pastoral dos Doentes
