Questões Sociais Poucos anos depois da chamada «implosão» da União Soviética, João Paulo II chamava a atenção para «o risco de se difundir uma ideologia radical de tipo capitalista que (…) confia fideisticamente (…)» no «livre desenvolvimento das forças do mercado» para a solução dos problemas sociais (“Centesimus Annus”, 1991, nº. 43). De então para cá o poder financeiro descontrolado não deixou de crescer assustadoramente; contribuiu para a grave crise sistémica em que nos encontramos, e está a aproveitá-la para se impor e desenvolver cada vez mais.
Os Estados democráticos vivem debaixo de uma dramática tensão permanente: por um lado não dispõem de instrumentos suficientes para enfrentar tamanho poder e, ao mesmo tempo, as suas populações não lhes perdoam essa limitação; daí resulta que, nos países, como o nosso, em que o diálogo sociopolítico não está consolidado, os governos se sucedem uns aos outros adotando, e até agravando, as orientações que os seus partidos contestaram antes. Em Portugal, o fenómeno é claramente paradigmático: foi derrubado um governo do PS, contestado por todas as outras forças políticas; o governo do PSD-CDS vem adotando precisamente as medidas que dão continuidade às do governo anterior e, por isso, também é contestado por todas as outras forças políticas e até por correntes dentro da sua coligação; se porventura for derrubado, o eventual novo governo PS adotará medidas do mesmo teor que serão contestadas, obviamente, pelo PSD-CDS aliado, uma vez mais, aos partidos de «esquerda»…
Deste modo, o capitalismo desregulado encontra espaço livre para nos dominar cada vez mais: somos dominados pelos nossos credores; somos dominados pelas forças, visíveis e invisíveis, que manipulam os mercados internacionais; e somos dominados pelas nossas divisões internas, que fazem o jogo desse capitalismo. Tais divisões criam um clima desfavorável ao pagamento das nossas dívidas, e favorável ao agravamento ilimitado da situação económica e social.
