O sol é fonte de vida, mas também pode matar

Saúde Em Portugal surgem, anualmente, cerca de 700 novos casos de melanoma maligno (cancro cutâneo). O verão traz consigo alterações climáticas que merecem a atenção de todos nós. As altas temperaturas que são registadas em Portugal exigem que sejam adotadas medidas de proteção básicas para reduzir os efeitos do calor na saúde. Texto do médico José Carlos Costa.

Em certos dias de verão as temperaturas poderão atingir os 40 graus, o que impõe alguns cuidados e a implementação de algumas medidas.

As praias portuguesas são locais muito procurados pelas pessoas em período de férias, para descansarem e desfrutarem dos seus efeitos terapêuticos, relaxantes e “estéticos”.

A praia

como terapia

A ida à praia deve ser programada e objetivada. Quem vai à praia sem objetivos acaba por comprar um jornal ou levar um livro e ocupar a maior parte do tempo sentado ou deitado a ler ou a dormir.

A praia não é o melhor local para descansar e, para dormir, é o pior. É uma enorme falta de respeito pelo corpo e saúde pública dormir na praia exposto ao sol e totalmente desprotegido. Pior ainda é a negligência e incúria dos pais e de outros cuidadores de colocar bebés, crianças e pessoas idosas ao sol intenso, durante as horas de maior risco (quando a incidência dos raios solares é maior, das 11h às 17h).

O tempo de exposição ao sol não é igual para todos. Varia com o tipo de pele, a idade do indivíduo, a hora do dia e a intensidade do sol. Nos primeiros dias de praia não é aconselhável exceder os trinta minutos de exposição solar. Este período vai aumentando até chegar ao tempo máximo de duas horas de permanência na praia. Durante esse tempo devemos ir à água para refrescar e hidratar a pele frequentemente.

Os bebés não devem fazer exposições ao sol e as crianças deverão fazê-las muito cuidadosamente (entre quinze a trinta minutos diários). Após o tempo recomendado de praia para cada situação concreta, a permanência na praia deverá ser mantida com a ajuda de proteção garantidamente eficaz: à sombra e com vestuário.

Não é hábito dos portugueses pedir aconselhamento médico antes de iniciar as férias na praia. Mas principalmente as crianças e as pessoas idosas deveriam fazê-lo, por se encontrarem nos grupos etários de maior risco de poder contrair patologias graves na pele, nomeadamente o cancro. Não basta procurar o melhor protetor solar, se não forem respeitadas as restantes regras fundamentais: o tempo de exposição, a hora do dia em que é efetuada, as características da pele e a idade da pessoa. O sol é uma das melhores fontes naturais de vitamina D, muito importante no processo de crescimento ósseo das crianças e na fixação do cálcio na estrutura óssea dos adultos.

Como proteger

a nossa pele dos

efeitos indesejáveis do sol?

Não existe filtro solar totalmente eficaz na defesa da nossa pele, quando submetida a longos períodos de exposição ao sol com temperaturas elevadas. Os vulgares protetores solares, muito recomendados e usados na praia, não evitam as insolações, nem o risco de contrair o cancro da pele, causado pelas longas exposições estáticas ao sol. O melhor e mais eficaz protetor solar é a sombra. É possível desfrutarmos dos benefícios do sol sem causarmos danos ao nosso corpo, nem ter despesas com a nossa saúde. O sol é como um fármaco. Usado com regra, é benéfico à saúde e até pode manifestar efeitos terapêuticos, mas usado em excesso pode passar de benéfico a mortífero. A melhor maneira de podermos usufruir dos benefícios do sol durante todo o tempo de vida é usá-lo com parcimónia.

Sol e água

complementam-se

A praia deveria ser entendida como um lugar terapêutico e não de lazer. O sol é fonte de vida, mas também pode matar, assim como o mar. O mar é um lugar aprazível e fonte de energia vital. Relaxa e enche-nos de vitalidade, mas também pode diminuir a temperatura do corpo, comprometer a vida cerebral, paralisar os movimentos dos músculos, consumir toda a nossa força e inibir os reflexos vitais da pessoa submersa, colocando-a em situação de risco elevado e levar à morte. O mar exige respeito e prudência, mesmo a quem sabe nadar.

O mar não é o lugar privilegiado para praticar natação, nem o espaço seguro para tomar banho. Contudo, mergulhar cuidadosamente e em lugar seguro é agradável e não periga a saúde. Caminhar junto ao mar é um ótimo exercício com efeitos benéficos para as varizes, circulação dos membros inferiores, sistema nervoso e é estimulante do apetite.

A água do mar pode ser utilizada para refrescar e hidratar a pele. Pode também servir para tonificar os músculos, diminuir o volume dos vasos sanguíneos dos membros inferiores e estimular a circulação periférica. O contacto com a água deve ser efetuado com suavidade e a entrada no mar progressiva.

Para refrescar e hidratar a pele não é necessário muito tempo de permanência na água, um ou dois minutos bastam. Durante todo o tempo de permanência no mar devemos manter-nos em movimento e nunca parados, porque favorece a descida brusca da temperatura do corpo, devido à disparidade de temperatura que existe entre a água do mar e a do corpo humano. É fácil de perceber que uma pessoa submersa no mar não consegue aquecer a água, mas sim arrefecer e baixar a temperatura do corpo para níveis próximos da temperatura da água. Basta diminuir dois ou três valores da temperatura do nosso corpo para perdermos mobilidade dentro de água. Consequentemente, paralisa os movimentos dos músculos e diminui a irrigação sanguínea. São estes dois fatores mais comuns (paralisia muscular e circulatória) que estão na base da maioria das mortes por afogamento e das tão conhecidas congestões (digestivas e cerebrais). As lesões traumáticas causadas pelos acidentes na praia, recorrentes das quedas e dos mergulhos em lugares de risco, também são muito frequentes.

O sol e o

escurecimento da pele

A maior parte das pessoas que se deslocam à praia fazem-no no intuito de conseguir uma tonalidade mais escura para a sua pele. De facto, não existe melhor bronzeador que o sol. Os raios solares interagem com os melanócitos (células da pele) e incitam-nos a produzir mais melanina (pigmento principal da coloração da pele). A melanina, para além de escurecer a pele, também a protege dos efeitos nocivos do sol. Por isso, as pessoas que possuem uma pele clara têm menos defesas e estão mais sujeitas a sofrerem lesões cutâneas provocadas pelo sol.

Cuidados importantes

* O principal cuidado a ter em dias de muito calor é evitar a exposição prolongada, estática e desprotegida ao sol. Quando a necessidade obriga a permanecermos ao sol (por motivos de trabalho, por exemplo), devemos proteger o corpo e a cabeça com chapéu e roupas adequadas, preferencialmente de tecidos opacos.

* Ingerir mais líquidos, mesmo na ausência da sensação de sede (água, sumos de fruta ou de vegetais, preparados na hora).

* Diminuir ou mesmo evitar o consumo de álcool, cafeína, sal e de açúcar.

Férias com saúde e regresso com mais vigor!

Suporte alimentar na praia

* Ingerir alimentos frescos de natureza vegetal (fruta ou legumes), durante a permanência na praia, pode ser vantajoso. A água é a melhor companheira para uma pessoa que faz terapia do sol (talassoterapia). Como o calor nos faz perder mais líquidos, para evitarmos a desidratação e disfunções orgânicas graves, é conveniente ingerir mais água durante o período de férias de verão.

* Em dias de muito calor, somos tentados a ingerir bebidas geladas e de forma apressada. É um comportamento erróneo com consequências para o organismo, principalmente para a garganta e estômago. As bebidas frias devem ser ingeridas pausadamente. O sumo de fruta natural fresco é uma excelente opção às restantes bebidas comerciais.