“O sopro de Deus”

A Árvore de Zaqueu DOMINGO DE Pentecostes – Ano C

Este domingo lembra um fulgurante fogo de artifício depois de muitos dias de festa. Era a festa mais importante para os judeus, depois da Páscoa, e até podemos imaginar os apóstolos a sair do cenáculo, num dia cheio de sol e da poeira levantada por milhares de peregrinos, das mais variadas proveniências, com quem metiam conversa de maneira tão admirável, que a muitos pareciam embriagados (Actos,2, 12-13). Nem faltaria S. Pedro a explicar: pareciam, sim, mas é porque deixaram que «o sopro de Deus» os tocasse.

O «sopro» das leituras de hoje é o mesmo «sopro» da criação do mundo. O mesmo sopro que pode ressequir ou trazer as chuvas, matar ou trazer à vida. Com efeito, o termo hebraico para “espírito” (ruah) designa o sopro do vento e o sopro da respiração. Ambos estão ligados à morte e à vida, mas particularmente à força vital (os conceitos de corpo, alma, coração, carne e espírito têm, no Antigo e Novo Testamentos um sentido por vezes bastante diferente do actual). É um sopro continuamente criador e renovador.

Jesus Cristo deu particular atenção ao «sopro de Deus». Os profetas do Antigo Testamento desempenharam, por vezes de modo muito assinalável, um papel de «conselheiros políticos» (não sem sofrerem as consequências de serem honestos e defenderem a justiça). Jesus, porém, pouca ênfase deu à situação política concreta – mas porque se quis preocupar com as próprias raízes do bem e do mal.

Apontou-nos a direcção a seguir, a que mais defendesse a dignidade de todos os seres humanos. Mas deixou-nos o trabalho de descobrir, aprendendo com os erros, a maneira concreta de realizar esse objectivo.

Os evangelhos de Mateus e Lucas terminam sublinhando que Jesus Cristo continua presente em toda a história humana. No evangelho de João, encontramos uma expressão estranha (usada só cinco vezes): Jesus não nos abandona porque nos deixa um «paráclito» – adjectivo que indica uma pessoa chamada para «ajudar» (é este o sentido geral no grego clássico). O sentido exacto do termo é dado pela explicitação do tipo de ajuda que vem dar. E no evangelho, tem a função de nos «abrir a inteligência e o coração» e apoiar as nossas forças. É o «Espírito de Deus», continuando a «ajuda» que Jesus nos deu.

Na verdade, Jesus ajudou-nos a enfrentar a angústia fundamental da humanidade: sentir-se «órfã» (termo usado em João,14,18), desamparada ao tomar consciência de como tudo é frágil, de como desaparecem os mais estimados pontos de referência, como desaparecem todos os que para nós são «pais». Ajudou-nos, revelando Deus na linha da amizade e do amor humanos: precisamos de nos reunir, de trocar ideias, de nos sentirmos bem… e de nos sabermos abraçar sem forçar o caminho de ninguém. Revelou um Deus que ajuda na alegria e na tristeza, no sofrimento e na morte; um Deus que está presente na falta de lógica da vida. Ajudou-nos, propondo uma oração em que se junta o céu com a terra e sobretudo ensinou a «orar» – a exprimir, esclarecer e fortificar os nossos desejos. Ajudou-nos a ter mais confiança em nós próprios, porque o templo de Deus está em nós (João,4,23-24).

E assim deu toda a importância ao programa da vida pessoal, dentro do grande “plano de expansão” que se delineia nesta festa. A expansão da riqueza humana, como se veria mais tarde na acção dos primeiros missionários da Idade Média, protagonistas do desenvolvimento da cultura local; ou com os primeiros missionários portugueses na América do Sul, no Japão e na China, que trabalharam para comunicar o mais perfeitamente possível com outros povos e valores, em mútuo enriquecimento e defendendo os direitos humanos com a força do sopro de Deus.

A vitalidade característica da festa de Pentecostes revela a força contagiosa da esperança – uma esperança partilhada e que é nosso dever garantir, com todos os meios do nosso génio inventor, transformando o mundo como artistas inspirados pelo «sopro de Deus».

Manuel Alte da Veiga