Também no nosso século, parece que desapareceu a felicidade e o sentido dos valores. Em quem have-mos de acreditar? Em quem podemos confiar? Com quem podemos contar? Onde é que está a palavra de honra? Portanto, se vale tudo, se não há verdadeira justiça, se falta compreensão, se não se cumpre o que se prometeu para bem do povo, se se vive sem lei não se fazendo caso do direito…, então a avareza e a ganância de uns tantos é que passam a mandar, com o derrube da verdadeira ordem das coisas.
A avareza passou então a ser senhora, e a lei a ser apenas a da ganância e do lucro. Os direitos ficaram sem valor, os prémios e as “cunhas” foram aumentando até virem a substituir a própria lei e o próprio direito. Onde venceram o poder e o dinheiro, aí ficou corrompida a justiça.
Ninguém teme a justiça, porque os vícios continuam sem castigo, ninguém censura os criminosos, e aos malvados nada de mau lhes acontece. Os maus arranjam-se bem e até sobem a postos de governo e são sacrificados os inocentes, a quem não se dá a oportunidade de falar ou de se defender. Os honestos vivem na pobreza e os maus na abundância, podendo os criminosos fazer tudo o que lhes apetece.
Os justos passam dificuldades e os maus têm todas as honras; os justos são desprezados e os maus passeiam contentes na vida. Os justos levam uma vida triste e os ímpios amesquinham os justos com o seu poder.
Os bons são prejudicados pelos maus, enquanto os malvados são elogiados. Tantas vezes, os inocen-tes morrem como culpados por sentenças injustas, julgados por testemunhas e juízes sem escrúpulos, enquanto se arquivam impunemente os processos forenses daqueles réus que são tidos como criminosos pela opinião pública.
Do livro “Solilóquios”,
de Santo Isidoro de Sevilha
Santo Isidoro, doutor da Igreja, nasceu em Sevilha, no ano 636, e foi bispo da cidade andaluza durante 38 anos. Foi o homem mais culto do seu tempo. Escreveu várias obras, entre as quais “Solilóquios”, de onde é retirado este texto, e “Etimologias”, por muitos considerada a primeira enciclopédia. Na diocese de Aveiro, é o patrono de Eixo.
