Poço de Jacob – 132 Saiu há tempos um livro de título “Rezar com o Coração”. Encontra-se nas livrarias católicas do nosso Portugal e supõe a leitura de um outro, verdadeira obra clássica da espiritualidade cristã oriental russa: “Relatos de um peregrino russo”. Este tem interesse nos quatro relatos dos sete que o livro contém, pois pensa-se que só os quatro primeiros são originais. Este, por sua vez, fala de uma outra obra de nome “Filocalia”, também publicada em Portugal. Vale a pena dedicar tempo a estas leituras, especialmente aos “Relatos do peregrino” e a “Rezar com o Coração”.
No fundo, estas obras pretendem levar-nos à oração contínua, pela consciência progressiva da presença de Deus em nós e o diálogo espontâneo com o Deus que nos habita. A finalidade é essa; e o meio é o exercício da chamada oração de Jesus, que o P.e Marcelo Rossi também trouxe até nós chamando-lhe “terço bizantino”. Consiste em repetir, muitas vezes respeitando o movimento respiratório de inspiração e expiração, a frase bíblica do publicano humilde que reza no fundo da sinagoga, ou do cego Bartimeu, ambos no Evangelho: “Jesus, Filho de Deus vivo, tente piedade de mim, pecador”.
Rezado com a inspiração, o nome de Jesus invade-nos como se Deus insuflasse em nós a vida, como fez com Adão, e, ao expirarmos, o dióxido de carbono confunde-se com as impurezas interiores, ao pedir que Deus tenha piedade de nós. Um movimento suave, interior, que mecanicamente funciona desse modo, mas que pretende algo de bem mais profundo: levar-nos a viver uma relação amorosa com Deus.
O nome de Jesus tem poder. Já o diz S. Paulo na Carta aos Filipenses. Mas não um poder mágico, ou de um mantra indiano. Os yogas orientais não são maus, mas distinguem-se da oração cristã pois aqueles pretendem o relaxamento psicológico e esta a transformação interior da alma em vista à santidade. A oração de Jesus não é mantra repetitivo, nem magia eficaz. É diálogo de amor com Deus, por Seu Filho Jesus Cristo. Também relaxa, pois a oração é antisstressante quando se trata de encontro de amor. Mas, sobretudo, transforma, pelo cuidado que vamos tendo, quase automaticamente, em conservar a consciência da presença de Deus em nós.
Santa Teresa dizia que a oração é um estar a sós tratando de amizade com quem sabemos que nos ama… ou a consciência da presença interior e amorosa de Deus nas nossas vidas. A oração de coração pretende ser não uma oração vocal, nem só mental. Não movemos os lábios, nem divagamos com o pensamento, mas um ser e estar diante de Deus, totalmente conscientes de estarmos com Ele, invocando, com a mesma intensidade e espontaneidade com que se respira, a misericórdia de Deus, por Seu Filho Jesus Cristo. Não precisa de contas, embora elas também existam.
Com um grupo que levei a Israel há anos, fizemos esse exercício: a cada peregrino foi entregue um terço de tecido com 33 contas. Ensinei a oração de Jesus, e durante toda a viagem, as pessoas deveriam levar o terço consigo, rezando sem parar. Os que tomaram a sério ficaram admirados com o que se gerou no grupo e dentro de cada um. Se por um lado nos confundiam com muçulmanos ou com ortodoxos, que usam contas semelhantes, a reação dos de fora foi magnífica e vários peregrinos vieram ter connosco a pedir que os ajudássemos a rezar, e muitos dos nossos ofereceram as suas contas… E cada peregrino de Aveiro sentiu que a visita aos lugares santos de Israel estava envolvida numa ambientação especial. Parecia que visitávamos a Terra Santa com o Senhor, ali do nosso lado, pois o diálogo tornou-se contínuo, mesmo nos convívios, refeições e momentos de passeio.
A oração do coração é um dos maiores contributos da Igreja oriental à Igreja ocidental. Bem dizia João Paulo II que a igreja deve respirar com os seus dois pulmões, o do ocidente latino e o do oriente ortodoxo… E tinha razão. Afinal, o que é rezar senão educar o coração para Deus, sua vontade e seu amor?
Vitor Espadilha
