Perguntas e respostas sobre a Bíblia – 4 No capítulo 5 do Génesis, encontramos uma lista de dez Patriarcas chamados «Pré-diluvianos» porque são anteriores ao relato do dilúvio universal. Estes cobrem o espaço que vai de Adão até Noé, apresentando de forma monótona a idade com que teve o primeiro filho e o tempo total da sua vida. São eles: Adão (930), Set (912), Enosh (905), Cainã (910), Malaleel (895), Jared (962), Henoc (365), Matusalém (969), Lamec (777) e Noé (950).
Já no c. 11, encontramos outro elenco de outros dez Patriarcas, desta vez chamados de «Pós-diluvianos», e que preenchem período que vai de Noé até Abraão. Estes são: Sem (600), Arfaxad (438), Salé (433), Héber (464), Faleg (239), Reú (239), Sarug (230), Nacor (148), Taré (205) e Abraão (175). Com estes 20 Patriarcas é preenchido o tempo decorrido de Adão, o pai da humanidade, até Abraão, o pai de Israel.
À primeira vista, pela forma solene como são apresentados, as datas e os dados referentes a cada Patriarca parecem ser históricos. Mas, vendo com atenção, deparamos com alguns aspetos curiosos e que apresentam dificuldades: o número dos Patriarcas é pequeno para a história da humanidade; viveram muitos anos; as suas idades diminuem dum quadro para outro.
Também nos admiramos com a extraordinária longevidade dos Patriarcas, quando a média de vida do homem moderno não consegue ultrapassar os 70 ou 80 anos. Como é que o homem primitivo poderia atingir idade tão avançada?
Por outro lado, os dados recolhidos no relato bíblico não pretendem ter um sentido estritamente histórico nem cronológico. Os 20 nomes são reminiscências de velhas tradições. Porém, querem ensinar uma verdade religiosa muito importante: que a promessa feita a Adão em Génesis 3,15, chega até Abraão por uma cadeia ininterrupta. Existe, pois, unidade e continuidade na História da Salvação.
Para alguns dos Patriarcas foi encontrada uma solução uma hipótese de explicação para as suas idades. Assim, Adão viveu até aos 930, porque este número é igual a 1.000 (o número de Deus) menos 70 (o número da perfeição). Quer dizer: pelo seu pecado, Adão afastou o número da perfeição e não pôde alcançar o número de Deus. Henoc viveu 365 anos, número pequeno, mas perfeito, correspondente aos dias do ano eternamente repetido. Por isso Henoc é o único da lista do qual não se menciona a morte e ocupa o 7.º lugar na lista, lugar perfeito. Também a idade de Noé é simbólica. O dilúvio sobreveio quando ele tinha 600 anos, ou seja 10 multiplicado por 60. Pois bem, 60 representa a divisibilidade máxima (por 2, 3, 4, 5, 6) e, portanto, a síntese do sistema sexagonal e decimal.
Um dos mais interessantes jogos de números simbólicos é o das idades dos Patriarcas posteriores, isto é, Abraão, Isaac e Jacob. A Bíblia diz que os três morreram respetivamente com 175, 180 e 147 anos.
Abraão: 175 anos = 7x (5×5)
Isaac: 180 anos = 5x (6×6)
Jacob: 147 anos = 3x (7×7)
Aqui o multiplicador começa em Abraão com o número perfeito 7, que é um número primo. Passa para Isaac com o número primo logo abaixo 5, e chega a Jacob com o número primo 3. Enquanto estes números 7, 5, 3 diminuem, os números multiplicados repetem-se duas vezes e aumentam progressivamente: 5, 6 e 7. Por um lado, parece estar a indicar uma ordem de importância dos patriarcas (7–5–3) e, por outro, uma sucessão e continuação na história da salvação. E não pára por aqui: se em vez de multiplicar, somarmos estes números teremos:
Abraão: 7 + 5 + 5 = 17
Isaac: 5 + 6 + 6 = 17
Jacob: 3 + 7 + 7 = 17
17 é a soma de dois números completos: 10 (símbolo de perfeição humana) e 7 (símbolo de plenitude divina), o que poderá estar a indicar a importância destes homens na história do povo hebreu.
Finalmente, resta-nos analisar o problema da diminuição progressiva das referidas idades. Também aqui está contida uma verdade teológica. Para os escritores bíblicos a idade de uma pessoa e vida longa dependem da sua fidelidade a Deus. Isto está dito várias vezes no texto sagrado.
Porquê este modo de pensar daquele tempo? Porque no Antigo Testamento não havia, ainda, uma noção clara da vida depois da morte. Conforme a mentalidade da época, já que Deus não tinha como premiar os bons depois da sua morte, premiava-os já aqui na terra com muitos anos de vida. Assim, quando se queria dizer que uma pessoa tinha sido boa, dizia-se que ela viveu muitos anos. O pecador, ao contrário, teria morte prematura. Muitos anos de vida era a bênção de Deus para as pessoas justas. Daí o mandamento: «Honra teu pai e tua mãe para que tenhas longa vida» (Ex 20,12).
Assim, a idade corresponde à maneira de viver de cada pessoa. À medida que a humanidade se vai afastando de Deus, as pessoas são indicadas como vivendo menos tempo. Nesta linha de pensamento, Matusalém viveu 969, isto é, era muito justo, mais do que o próprio Adão.
As idades, portanto, não apresentam um facto real mas um ensino religioso.
J. Franclim Pacheco
Espaço da responsabilidade do ISCRA – Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro
