Não sei se António, cartonista no Expresso, vale muito ou pouco como cartonista, é ou não grande artista na arte de fazer desenhos de humor. Para mim, não me dá sentido de artista que fique na história. Mas quem sou eu para dizer mais do que isto?
Em coisas de arte ou de aparências da mesma, valem mais a sensibilidade que os raciocínios, mais o captar da alma, que dizer razões porque sim ou porque não. Em todo o caso, a feitura de cartoons – há quem discuta se se trata ou não de uma arte – se é uma actividade humana, e como tal se paga, também nela há lugar para a ética. A menos que não haja, porque é coisa de humor… E, então, sou eu que ando para aqui baralhado?
Acabou-se de teorias. Opiniões também são razões que não se discutem.
O cartonista António, dá-me a impressão, só isso e nada mais, que quando dele não se fala e cai no anonimato porque os seus desenhos não pegam, decide fazer uma incursão instintiva pelo mundo do religioso e ridiculariza o Papa. Como este terreno é propício à pouca sensibilidade e respeito pelos outros, basta rabiscar e publicar um cartoon, e deixa logo, por um tempo, sempre breve, de ser um António qualquer. Há artistas, como políticos e outros, que não vivem sem corte e têm por isso, entre amigos e admiradores, o seu grupo, que se encarrega de escrever, falar, acordar distraídos e dar publicidade.
António já ridicularizou João Paulo II, com um cartoon que correu meio mundo, coisa fácil por via de interesses conhecidos, dado o tema do mesmo. Voltou, agora, a meter-se com Bento XVI. O Freud deve ter explicação para esta fobia dos papas…
Assim, o cartonista, com papas que não são de milho, alimenta o seu ego, recebe elogios e palmas do sector, ignora as críticas, ganha o seu dinheiro. O habitual em coisas deste género. Talvez que um dia, António perceba que está errando o alvo e o tiro lhe atinja o próprio pé. E não só o pé.
A linha de conduta e o empenhamento na missão, por parte dos papas atingidos, é facto conhecido e agradecido por esse mundo fora: defesa dos direitos humanos, aí mesmo onde eles são esquecidos ou vilipendiados e, também, das liberdades individuais; dignificação das pessoas, mormente das mais débeis, exploradas e desprotegidas; luta, sem tréguas nem medos, pela verdade, a justiça, o desenvolvimento, o respeito mútuo e a paz; coração sensível e aberto a quem quer trilhar caminhos de bem; vida devotada à verdade que liberta; grito incontido e, na hora e sobre o acontecimento, a mostrar solidariedade por tragédias humanas e naturais e a denunciar ódios e indiferenças. E falo apenas dos aspectos com repercussão na sociedade, deixando para dentro de casa o que fizeram e fazem para que a Igreja seja sinal convincente dos valores espirituais e evangélicos.
Os atingidos não se defenderam, nem se vão defender, nem de António do Expresso, nem dos antónios deste mundo, que não se dispensam de ganhar dinheiro e fama por caminhos, no mínimo discutíveis. As suas vidas gastam-se por outros caminhos que não são de humor barato e irrespeitoso de pessoas e de sentimentos, mas sim de amor e de paz. A urgência de bem fazer não lhes dá tempo para defesas ou queixas pessoais. Nem pedem que outros o façam. Mas, calar é consentir, e este país está a encher-se de expressões de ilegítima liberdade, lixo tóxico e modelos de vida pobres, a que se pode e devem reagir, livre e corajosamente. Não falta quem o faça, mas a esses desliga-se o microfone.
Se o nome de muitos humoristas, sejam eles do lápis ou do palco, não vai ficar numa história que dure, aguarda-os, por certo, a galeria da história de passagem, mais conhecida por historieta, sem passado que perdure, nem futuro que dignifique.
