De alguma forma assinalando os cinco anos de D. António Francisco como Bispo de Aveiro (8-12-2006 – 2011), o Correio do Vouga pediu aos seus leitores que formulassem perguntas ao Bispo de Aveiro. Sugiram 28 questões, algumas focando os mesmos assuntos, de dez pessoas. Seleccionamos dez questões, uma por autor, e demo-las ao Sr. Bispo, que respondeu por escrito, no meio de uma agenda ainda mais preenchida nesta altura do ano.
LEITORES DO CORREIO DO VOUGA – D. António, como sucessor apostólico com a missão de santificar, ensinar e governar e sendo um dos Bispos com responsabilidades a nível nacional, pretendia saber qual é a sua visão da Igreja para daqui a 5 anos ao nível, pastoral, teológico, eclesial e laical? Mais concretamente, permita-me também nesta linha saber a sua perspectiva futura para a nossa Diocese? (Fernando Cassola, Aveiro)
D. ANTÓNIO FRANCISCO – A resposta que de imediato esta questão me sugere firma-se na fé. Acredito na Igreja, nesta Igreja que sirvo com alegria e com entrega. Acredito na Igreja sonhada por Deus, fundada em Jesus Cristo, vivo e ressuscitado, como sua pedra angular, e animada pelo Espírito. Sei, também, que o homem é o caminho da Igreja e que a Igreja deve percorrer este caminho como peregrina, sem parar no tempo, atenta a novos desafios e realidades, sem se limitar às fronteiras estreitas desta Europa cheia de incertezas quanto ao seu futuro ou da cultura do Ocidente dominada pelo relativismo.
Confio que o futuro nos dirá com mais coerência, clareza e ousadia profética o valor do Concílio Vaticano II e do muito que dele ainda falta cumprir em tantas áreas como seja, por exemplo, na descoberta da dimensão da Igreja como Povo de Deus, na diversidade e na complementaridade dos ministérios, no assumir dos cristãos da ordem temporal, no diálogo ecuménico e inter-religioso, no sentido da comunhão, da fraternidade e do desafio da missão, para que o rosto desta Igreja que amo seja cada vez mais belo.
Olhando para Portugal, demos recentemente alguns passos no sentido do «Repensar juntos a pastoral da Igreja em Portugal», que mobilizou pessoas e instâncias de participação e de corresponsabilidade a vários níveis, nas paróquias, nas dioceses, nos institutos religiosos e nos movimentos apostólicos. Importa agora ser consequente e prosseguir este caminho que se inscreve na dinâmica sinodal de nova evangelização e de comunhão da Igreja.
Quanto à nossa Diocese, sempre lembrada do dia primeiro da sua restauração, dos dois Sínodos realizados e de tão belo caminho já andado, a palavra que me ressalta, espontânea e primeira, é uma palavra de gratidão a todos quantos nestes setenta e três anos foram as pedras vivas desta Igreja que hoje somos: bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados (as) e leigos(as).
Vejo estes próximos anos animados e dinamizados pela Missão Jubilar. O Jubileu dos 75 anos da restauração da nossa Diocese que nos vai envolver e mobilizar será para todos nós um tempo de bênção e de renovação eclesial, de formação da fé, de ânimo, de oração mais intensa, de vivência crescente da caridade e da comunhão fraterna e tempo de abrir novos caminhos e oportunidades de diálogo com o mundo. O mundo é nosso campo de missão.
É tempo de reorganização de serviços e estruturas pastorais que configurem e agilizem a nossa acção evangelizadora e o nosso modo de servir. É ainda uma oportunidade de novo impulso e de maior sentido de comunhão dados aos movimentos apostólicos existentes e actuantes na nossa Diocese. Este tempo centrado na Missão Jubilar e a partir dela é um tempo de grande esperança e permanente e crescente compromisso em que sentiremos a alegria de sermos Igreja em Aveiro e faremos desta Igreja Diocesana, sinal da presença de Cristo e Tenda de Deus neste chão da nossa Terra e no coração do mundo. É tempo abençoado para «evangelizar» com palavras e vidas inspiradas no Evangelho das Bem-aventuranças, para «celebrar» com alegria os mistérios da nossa fé e a Igreja que somos e para «Servir» fazendo irromper um sentido de plenitude a dar á vida e ao mundo, certos de que como lembrava Bento XVI na Alemanha, sua terra natal: “Onde há Deus há futuro”.
Acredito que seremos, assumindo dia-a-dia o projecto do nosso Plano Diocesano de Pastoral, «Igreja renovada na Caridade, servidora dos mais pobres, educadora da fé, orante e fraternidade de famílias». Nesta Igreja todos temos lugar e missão, todos somos necessários e todos nos devemos sentir envolvidos, para que sejamos uma «Igreja diocesana que vive e celebra na alegria o seu crescimento na fé e na caridade e se abre ao mundo com ânimo evangelizador». Uma Igreja que seja rosto de esperança neste mundo tantas vezes à procura de razões de esperança e que seja sinal visível da presença e do amor de Deus para todos. Uma Igreja «âncora e farol para os crentes ou não crentes» retomando as palavras e o compromisso que me acompanham desde o início do meu ministério.
Numa altura em que os tempos mudam, em que a forma das pessoas comunicar, a linguagem que utilizam se alteram… compreende que a Igreja em geral, a Diocese em particular, se deve manter fiel ao seu estilo eclesial de comunicação que funciona, ou deve procurar estilos e posturas que vão ao encontro daqueles que vivem no nosso meio mas não são cristãos em convicção, porque nunca ninguém lhes conseguiu chegar ao coração, à vida deles, onde eles estão? Corremos o risco de, ao fechar-nos, evangelizarmos evangelizados e não conseguirmos chegar a tanta gente que vive ao nosso lado? Será que corremos riscos de sair da “correcta” Teologia, de sermos melhores ou piores cristãos se comunicarmos de modo eficaz, ou seja… chegar às pessoas, a todas e não apenas às que estão perto? (Pedro Neto, Santa Catarina – Vagos)
Nestes setenta e três anos de vida e de história da Igreja de Aveiro foi grande o percurso feito na organização interna, na iniciação cristã, na formação da fé, no ardor apostólico, na abertura de canais de comunicação, no acolhimento dado, na busca de novos espaços de presença e de anúncio da fé, na beleza das celebrações, nas iniciativas sociais e nas formas novas de voluntariado, de presença e de comunicação em vários âmbitos e horizontes.
Em ordem ao futuro, urge incentivar a formação dos agentes de pastoral, valorizar o acolhimento dado à Palavra de Deus, com grupos bíblicos e núcleos de evangelização a partir da Palavra rezada, reflectida e testemunhada. Importa dar mais centralidade à Eucaristia na vida da comunidade e na sua acção.
Sou sensível e estou atento a esta nova realidade de tanta gente que procura Deus por caminhos que não são os mais frequentes ou habituais e que precisam de encontrar nos cristãos e nas estruturas da Igreja portas abertas para este encontro com Deus. Vejo que, também aqui, há uma Igreja a nascer, aberta à juventude e às famílias, atenta aos mais pobres e excluídos, preocupada com a formação dos leigos, dos sacerdotes, dos diáconos e dos (as) consagrados(as), receptiva a novos carismas de consagração e testemunhos de serviço apostólico, disponível para a nova evangelização e preocupada em encontrar novas formas e diferentes espaços de encontro das pessoas, de congregação da Igreja e de celebração da fé.
Os meios de comunicação social, e também aí estamos a dar passos significativos, intensificando e diversificando a presença e acção da Igreja de Aveiro, são novos instrumentos e espaços de evangelização e de serviço ao mundo.
Preparamo-nos para comemorar os 75 anos da restauração da Diocese de Aveiro. Como o Sr. Bispo gostaria de ser recordado pelos diocesanos aveirenses daqui a 75 anos? (Luís Silva, Estarreja)
Como bispo irmão, servidor humilde da esperança e apóstolo da bondade, que nunca se cansou de agradecer o amor de Deus pela Igreja de Aveiro e de bendizer os dons por Deus concedidos a esta Igreja, nos seus bispos, presbíteros, diáconos, consagrados(as) e leigos(as).
Um bispo que gostou das Terras de Aveiro e que amou as suas Gentes e por umas e por outras deu a sua vida com paixão pela missão, assumindo com alegria este ministério de comunhão, de esperança e de bondade.
Um bispo feliz, por ser chamado a servir a Diocese no Jubileu e a partir daí relançar com ardor e encanto esta Igreja em caminhos de maior amor a Deus e de renovado serviço a Aveiro e ao mundo, como lembra o nosso lema «Amar a Deus é Servir» e nos anima a nossa Padroeira, Santa Joana Princesa, com o seu exemplo.
Como se pode perceber o fenómeno de alguns jovens à procura de uma vocação virada para Deus na clausura, quando há tanto que fazer no mundo? Será mais fácil viver fora do mundo, rezando por ele? (Teresa Correia, Aveiro)
A vocação é sempre um misto de mistério, que nasce do coração de Deus, e de generosidade, que brota do coração do homem. Talvez, hoje, se dê mais conta da vocação para a vida contemplativa do que anteriormente, porque a relação proporcional entre esta e as vocações para a vida activa alterou-se, com surpresa de muitos. Esta surpresa provoca interesse até nos meios de comunicação social e interpela-nos a todos.
Contemplar é uma forma de acção apostólica e a vida contemplativa faz parte da história multissecular da Igreja. Há quem o faça em alguns momentos inspiradores dos seus dias. Há quem o faça uma vida inteira para inspirar todo o viver da Igreja ao longo de todos os seus dias. Não esqueçamos que a oração é a alma do culto e agir cristão e é, no dizer de Bento XVI, o primeiro lugar de esperança.
A vocação para a vida consagrada não é uma fuga do mundo. Se assim fosse nem seria vocação nem consagração. Rezar e agir são duas formas complementares de amar a Deus e servir o mundo. Nem a contemplação nos faz esquecer o mundo nem tão pouco a acção pastoral nos dispensa da oração e da contemplação.
Os jovens que seguem o caminho do sacerdócio ou da consagração procuram a verdade para as suas vidas, de acordo com o projecto que sentem ser o sonho de Deus para eles. Esta verdade de vidas dadas passa muitas vezes por uma radicalidade de entrega tal, que humanamente nos surpreende e causa estranheza, mas que os faz felizes e faz feliz a Igreja, as comunidades que os acolhem e o mundo e a quem eles são chamados a servir.
Este ano do plano pastoral é dedicado à família. Há um ano e meio publiquei um artigo neste jornal desafiando a Diocese a implementar alguma iniciativa em relação a todas aquelas famílias que não vivem em comunhão matrimonial. Não só os recasados como as famílias monoparentais e, porque não, os que vivem em união de facto. E constato que a pastoral familiar tinha este ano uma grande oportunidade de fazer alguma coisa para os tirar do gueto, que não foi aproveitada. Ainda vamos a tempo, Sr. Bispo? (João Manuel Querido, Aveiro)
A centralidade que queremos dar à família nesta IV Etapa do nosso Plano Diocesano de pastoral, vivido neste caminho que nos propusemos realizar rumo ao Jubileu, não esquece as situações que refere, nem marginaliza ou exclui ninguém. Queremos centrar-nos na visibilidade a dar às famílias cristãs e realçar a partir delas o valor do sacramento do matrimónio e da educação cristã transmitida de avós, a pais, filhos e netos. Não o fazemos por facilidade ou por circunstância, mas sim por convicção de fé e compromisso pastoral, porque importa propor, através do testemunho cristão destas famílias, o caminho aos mais jovens neste horizonte e sentido.
O acolhimento, o acompanhamento espiritual, a partilha fraterna de realidades, preocupações e opções diferentes têm o seu lugar natural no âmbito das comunidades paroquiais, dos movimentos apostólicos e em tantos outros momentos e espaços da vida da Igreja onde estes membros da Igreja se sintam integrados e acolhidos.
As formações propostas, como momentos de reflexão e de partilha (a próxima será sobre a Exortação Apostólica “Familiaris Consortio”) estão abertas a todos.
O muito que há a fazer neste campo passa por uma contínua reflexão da Igreja no seu todo, como Povo de Deus que somos, mas passa em muito, também, pela relação próxima, acolhedora e fraterna de cada um de nós com aqueles que vivem nas situações referidas.
Os futuros sacerdotes recebem alguma formação sistemática em relações humanas? São preparados para enfrentar conflitos sem desanimar nem pôr achas na fogueira? Além da disposição moral, são formados em técnicas adequadas a essas situações? Nomeadamente, dominam técnicas de dinâmica de grupos? São preparados para tratar toda a gente educadamente, dominando preconceitos? Ao longo do munus sacerdotal, dispõem de acções de «reciclagem»? (Manuel Alte da Veiga, Aveiro)
A formação dos futuros sacerdotes tem hoje percursos que são comuns aos dos jovens estudantes da sua idade e têm percursos próprios da missão e específicos do ministério para que se preparam nas várias vertentes: humana, académica, espiritual e pastoral. A dimensão humana, a que alude, é fundamental e os aspectos referidos constituem elementos estruturantes quer da personalidade quer da preparação sólida e equilibrada que o ministério nos exige como sacerdotes. O equilíbrio pessoal, a abertura aos outros, o relacionamento com as pessoas, o viver em comunidade e o trabalhar em equipa constituem alguns dos traços fundamentais que desenham o nosso ser e o nosso viver como sacerdotes.
A experiência trazida da Família, a vida em Comunidade, a formação recebida ao longo do tempo de Seminário, a abertura à vida pastoral e a participação em movimentos juvenis e dinâmicas de animação dos seus projectos, ainda em tempo de formação, são valores essenciais para moldar em cada um as capacidades e as virtudes que refere.
A formação é contínua, também, nestas vertentes enunciadas, fortalecida com a vida e consolidada através do exercício do ministério.
Hoje, há em todas as dioceses e institutos de vida religiosa propostas concretas de formação permanente, permitindo juntar à formação inicial o necessário contributo para uma formação contínua ao longo de toda a vida.
O que pensa da juventude da nossa diocese? E o que deseja dos jovens do futuro? Serão capazes de vivenciar e testemunhar Jesus Cristo? (Ana Patrícia Carvalho, Aradas)
Os jovens são como as pontes que unem pelo menos duas margens. Os jovens ligam o passado ao futuro. Trazem consigo os seus pais e avós, as suas famílias, que se projectam neles. Os jovens sonham e antevêem o futuro melhor do que nós adultos. O Santo Padre Bento XVI dedica a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2012 aos jovens como educadores da justiça e da paz. Eles são muito sensíveis a estes valores da justiça e da paz e a tantos outros às vezes já tão distanciados do coração de muitos adultos.
A nossa Diocese, dada a sua situação geográfica, o seu desenvolvimento económico e a sua Universidade é uma Diocese em crescimento demográfico com muitas famílias novas e com muita juventude. Dou graças a Deus por isso, também.
Ao nível da fé e do dinamismo pastoral dos jovens muitos lembram a caminhada sinodal com os jovens e todos reconhecemos o trabalho que desde há muitos anos se faz e que agora se prossegue e desenvolve com alegria, criatividade e entusiasmo. Encontramos jovens e grupos empenhados nas suas comunidades cristãs, corajosos e criativos em tão belas experiências de voluntariado missionário, presentes, disponíveis e interventivos nas várias instâncias e iniciativas da pastoral diocesana e sempre acolhedores de novos desafios para a missão.
As várias iniciativas da Igreja diocesana, a participação nas actividades e itinerários do Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional, o Movimento do Escutismo Católico e outros e as últimas Jornadas Mundiais da Juventude, em Madrid, onde tantos jovens da nossa diocese estiveram presentes, entre muitas outras iniciativas, dizem-nos da firmeza esclarecida da sua fé e anunciam tempos de crescente empenhamento por parte dos jovens na vida da Igreja.
Temos, felizmente, jovens disponíveis para escutar a voz e o chamamento de Deus com vontade de O seguirem na sua vocação. Sinto que a Igreja pode contar com eles para a missão como verdadeiros discípulos e testemunhas felizes de Jesus Cristo.
Para quando um secretariado diocesano, que se dedique aos ex-seminaristas e ex-padres, na nossa diocese de Aveiro? Por que é que, quando passam a “ex”, a diocese os esquece, marginaliza e afasta? Porventura não seriam sempre uma mais-valia diocesana? (Joaquim Carinha Horta, Murtosa)
Conheço e agradeço o testemunho de muitos, o seu empenhamento apostólico, a disponibilidade para tantas missões assumidas em Igreja. Mais do que um serviço diocesano organizado, tenho priorizado o contacto pessoal que desde o início do meu ministério procurei ter, quer com os sacerdotes que não estão no exercício do ministério quer com muitos dos alunos que ao longo do tempo frequentaram os nossos Seminários. Pouco a pouco, vou conhecendo uns e outros e sentindo quanto de bem realizam em tantos lugares da missão da Igreja e do serviço ao mundo.
Em relação aos antigos seminaristas há uma estrutura associativa a que me vinculei desde início com alegria e com dedicação. Reconheço, por experiência de longos anos, que o trabalho dos Seminários nunca se circunscreveu apenas àqueles que se ordenaram presbíteros, sabendo muito embora que é essa a sua primeira finalidade e missão. O trabalho do Seminário está presente no bem realizado na família, na sociedade e na Igreja por todos nós, que ao Seminário devemos muito do que hoje somos.
Procurarei sempre, também neste sector específico da minha missão, estar atento, ser próximo e viver e agir como irmão de todos. Penso que por aqui passa muito do que em comum podemos fazer para que uns e outros tomemos as medidas que a cada momento e com cada pessoa se revelem adequadas e necessárias.
Durante dois triénios o Sr. Bispo presidiu à Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios, desenvolvendo um trabalho reconhecido por todos a nível nacional. Em Novembro foi eleito para a Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé. Que trabalhos o esperam nesta comissão? (Jorge Ferreira, Gafanha da Nazaré)
Não escondo que foi com muita alegria que fiz parte da Comissão Episcopal das Vocações e Ministérios. Sempre me animou na vida a certeza de que Deus chama, muitas vezes em tempos diferentes e de modos novos e surpreendentes, e tenho a firme convicção de que os jovens de hoje são tão generosos e disponíveis como outrora. Partindo desta certeza e firmado nesta convicção senti que importava apelar para um maior dinamismo das comunidades cristãs e mais transparente testemunho dos chamados. Estou convicto de que uma renovada cultura vocacional está a crescer em Portugal.
Recebi a nova missão, que agora a Conferência Episcopal me confia, com apreensão. São muitos os desafios. A nova organização das Comissões Episcopais e a imperiosa articulação entre estas, para que a comunhão da Igreja se fortaleça, exigem uma adequação dos seus objectivos, concretamente na Comissão da Educação Cristã que agora integra, também, a Doutrina da Fé.
A Catequese, a Escola Católica, a Educação Moral e Religiosa Católica, o Catecumenato dos Adultos, as Publicações são departamentos que integram esta Comissão e exigem uma visão coerente e um trabalho coordenado. Importa investir na formação dos agentes de pastoral nestas várias áreas e estar aberto aos caminhos novos que a experiência dos últimos anos e alguma avaliação já feita nos indicam. Será em sede de Comissão e em âmbito alargado a novas instâncias de colaboração ao nível das dioceses que desenharemos o rumo do futuro.
As Comissões Episcopais não se devem substituir ao trabalho pastoral das dioceses e das comunidades cristãs. É aqui que a vida da Igreja se faz. As Comissões Episcopais são um serviço de subsidiariedade, de estímulo e de apoio. E as dioceses podem e devem contar com a Comissão de Educação Cristã e Doutrina da Fé. Há muitos caminhos que se abrem hoje a esta íntima articulação e criativa colaboração. Queremos ser presentes, activos e criativos. Mas sobretudo disponíveis e colaborantes com as Dioceses.
Qual o melhor caminho para subir à montanha e ir ao encontro de Jesus? (Tiago Santos, Santa Joana – Aveiro)
É muito curiosa esta questão. Se me respaldar no Evangelho direi que o caminho para subir à montanha é sempre um caminho estreito e íngreme, mas também entusiasmante e feliz. As referências bíblicas à montanha são muitas. A montanha é para o Povo de Israel o lugar por excelência do encontro com Deus. É o lugar da Presença, da Palavra e da Profecia. Na vida de Jesus encontramos a montanha do Tabor, das Bem-aventuranças, do Calvário e da Ascensão.
Cada montanha tem o seu fascínio e de cada encontro com Jesus ressalta uma mensagem a acolher, a rezar e a viver. Sei que a pergunta usa a montanha apenas como imagem, como metáfora ou até como parábola. Na procura de Jesus e neste encontro com Ele há um caminho para cada um de nós, para cada comunidade cristã e para a Igreja: é sempre um caminho de discípulo: Vinde e vede; Vem e segue-Me; Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-Me; Vinde a mim todos vós que andais sobrecarregados e eu vos aliviarei, porque sou manso e humilde de coração; Felizes sereis (segundo o belo e tão necessário Sermão da Montanha das Bem-aventuranças); Vinde benditos de Meu Pai e tantos outros convites por Jesus deixados como sinalização deste caminho a percorrer para ir ao seu encontro.
A montanha lembra-nos que somos peregrinos, com necessidade de nos despojarmos do peso de muitas bagagens que retardam tantas vezes o avanço no caminho e na escalada. O peregrino olha mais além e vê mais longe. É essa a missão do discípulo de Jesus. E aqui se encontra também o lugar e a missão do bispo e pastor: ser discípulo de Jesus, o Mestre e Bom Pastor e ser guia e condutor do seu povo que é a Igreja que lhe foi confiada para servir.
Sei, e sabemos todos, que neste caminhar não vamos sós. Caminhamos e avançamos juntos. Este caminhar de uma Igreja peregrina, em estado permanente de missão, é também o nosso conforto e estímulo. E neste caminhar em Igreja sabemo-nos inseridos como fermento na sociedade de quem partilhamos alegrias e esperanças, dores e tristezas e que será tanto mais uma sociedade nova quanto mais conhecer a beleza de Deus e viver as bem-aventuranças que Jesus o seu Filho nos trouxe.
