Ondina Matos, natural de Esgueira, é enfermeira e professora convidada na ESSUA (Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro). Desde há um ano à frente da pastoral juvenil da Diocese, fala dos efeitos positivos da participação dos jovens de Aveiro no encontro mundial com o Papa, em Madrid, e faz um balanço do seu trabalho, apontando como desejo a criação de um espaço para jovens “onde se promova o sentido de Igreja afectiva, que acolhe, escuta e ajuda a crescer e a fazer opções”. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.
CORREIO DO VOUGA – O SDPJV (Secretariado Diocesano da Pastoral Juvenil e Vocacional) optou por participar na JMJ (Jornada Mundial da Juventude) com uns dias de pré-jornadas em Córdoba, numa clara intenção de envolver mais os jovens e fazer deste evento um encontro transformador. Valeu a pena esta modalidade? Os objectivos foram alcançados?
ONDINA MATOS – A possibilidade de pré-jornadas surgiu a partir das JMJ de Paris, em 1997, e entendemo-la como uma mais-valia na vivência das JMJ. Os 243 jovens inscritos pelo SDPJV viveram de 11 a 15 de Agosto na Diocese de Córdoba, acolhidos nas Paróquias da Trindade, Assunção, Carmen, Almedinilla e Carcabuey, no Arciprestado de Priego. Estes foram os dias da proximidade, da partilha, do intercâmbio cultural. O grupo de Aveiro solidificou o espírito de grupo diocesano, experimentou a vivência de Igreja num contexto cultural diferente e viveu o acolhimento das famílias e voluntários que nos receberam, num ambiente muito mais restrito do que o grande anonimato dos dias em Madrid. Estas são as grandes vantagens dos dias de pré-jornadas.
Tendo participado mais 300 jovens da Diocese de Aveiro – os que foram com o Secretariado mais os que se integraram em movimentos apostólicos –, espera algum efeito na pastoral juvenil diocesana ou fica tudo encerrado na vida de cada jovem e de cada grupo paroquial de jovens (o que já não pouco)?
Como colocámos no título da notícia do nosso regresso, “Uma jornada desponta à chegada”. Aquilo que cada um viveu nestas JMJ teve muito de vivência de grupo, mas seguramente teve muito de experiência pessoal de Jesus Cristo para cada um dos participantes, nas eucaristias que celebrámos, nas procissões em que participámos, nos testemunhos partilhados ou em cada oração da noite que fizemos no “nosso” pavilhão em Madrid. Seguramente nas suas vidas a experiência ficará marcada, mas esperamos mais. Enraizarmo-nos em Cristo era o objectivo e isso concretiza-se no compromisso paroquial, diocesano e social. No entanto, os animadores assumem um papel fundamental para ajudar a firmar aquilo que cada um experimentou. O SDPJV vai promover, a 16 de Outubro, um reencontro para todos os participantes nestas JMJ, assumindo também este papel de estímulo ao compromisso eclesial.
O Papa deixou aos jovens muitos apelos. Qual o que teve mais acolhimento ou foi mais comentado no grupo de Aveiro?
O mau tempo que se abateu sobre Cuatro Vientos durante a vigília com o Santo Padre foi um momento especialmente duro nestas jornadas. O Papa não abandonou a vigília e, no final, agradeceu aos jovens a sua resistência, mais forte que a chuva e afirmou: “Vivemos juntos esta aventura”. Estas foram as palavras mais comentadas pelos jovens, para além do apelo ao diálogo pessoal com Cristo e ao testemunho da alegria de ser cristão, que o Papa dirigiu aos jovens em língua portuguesa.
A próxima JMJ será no Rio de Janeiro, já em 2013. O SDPJV vai promover a participação?
2013 será um ano grande de festa e de desafios. A nossa Diocese estará a celebrar a alegria dos 75 anos da sua restauração e o Papa convida os jovens a celebrar a alegria de ser cristão no Brasil. O SDPJV vai naturalmente promover a participação nessas JMJ, conscientes do peso económico que elas terão para os jovens. Será necessário um envolvimento muito maior das comunidades paroquiais e uma motivação acrescida do clero de Aveiro para possibilitar ao maior número possível de jovens a participação neste encontro, respondendo ao lema escolhido, do Evangelho de S. Mateus, “Ide e fazei discípulos de todos os povos”.
Que balanço faz do seu primeiro ano à frente de um secretariado diocesano, tanto mais que é a primeira mulher e leiga a dirigir uma pastoral juvenil diocesana?
O balanço deste primeiro ano como directora do SDPJV é bastante positivo, na avaliação já feita, não só por mim mas também pela equipa de coordenação deste secretariado, tendo em conta os objectivos traçados. Apesar de fazer parte da equipa coordenadora há seis anos, assumir a responsabilidade de directora é substancialmente diferente e um enorme desafio. Nas estruturas nacionais e diocesanas onde represento este serviço não me sinto em nada diminuída pelo facto de ser mulher e leiga, apesar de sentir por vezes alguma estranheza e reticência nos primeiros contactos. A nível pessoal, as dificuldades têm sobretudo a ver com a necessidade de coordenar esta missão com o compromisso laboral como enfermeira e docente. Senti necessidade, por exemplo, de passar mais pelas reuniões arciprestais do clero, mas a conciliação de horários dificulta este objectivo. Ser mulher e leiga pode abrir perspectivas novas à Igreja, num caminho cada vez mais alargado, abrangente e de compromisso eclesial, numa Igreja menos hierárquica e mais de comunhão.
Quais os grandes projectos e linhas de acção para 20011-12?
Estamos ainda numa fase de reestruturação da equipa e de programação específica dos objectivos para este ano, devido à grande actividade de Agosto, as JMJ. No entanto, parece-nos importante manter um dos objectivos deste ano de promoção de uma acção pastoral de proximidade, este ano com uma atenção específica às equipas arciprestais de pastoral juvenil e vocacional. Temos equipas que começaram este ano, outras a quererem iniciar neste novo ano, outras a precisarem de serem revitalizadas e arciprestados onde ainda não existem. Cada uma destas equipas precisa do acompanhamento permanente, consistente e motivador de um sacerdote assistente, em plena sintonia com a pastoral juvenil diocesana, o que nem sempre tem sido fácil.
Concretizar a 4.ª etapa do plano pastoral diocesano será outro dos grandes objectivos, perspectivando os jovens em contexto familiar. Este será também um ano para repensar a pastoral vocacional, através do seu sector específico. Terminámos, este ano, a passagem do Fórum Vocação e Vocações + por todos os arciprestados. É altura de encontrar caminhos novos.
Pensamos ainda em algumas alterações nas propostas formativas para os animadores diocesanos. O perfil do animador está a mudar, aparecendo gente mais nova a assumir este serviço e as respostas precisam de ser ajustadas à leitura que vamos fazendo desta realidade.
Ser jovem e católico, nos dias que correm, é uma conjugação impossível ou tem viabilidade?
Se fosse uma conjugação impossível não faria qualquer sentido a missão que assumi à frente do SDPJV. Ser jovem e católico é desafiante, mas absolutamente possível. Não podemos querer criar a sociedade ideal onde o jovem tenha as condições ideias para ser católico. As propostas juvenis em Igreja têm, isso sim, que ir ao encontro dos sinais dos tempos, possibilitando aos jovens a experiência de serem católicos na vida de todos os dias. As estruturas paroquiais, diocesanas e nacionais têm que fazer apostas claras na pastoral juvenil, para impregnar a Igreja da vitalidade que os jovens podem trazer.
O Secretariado tem apontado a necessidade de um espaço de acolhimento juvenil e vocacional. Continua a ser um objectivo?
Penso que é uma das propostas que poderia encarnar na realidade juvenil. Faz falta um espaço onde a Igreja se encontre cara-a-cara com cada jovem. Um espaço onde se promova o sentido de Igreja afectiva, que acolhe, escuta e ajuda a crescer e a fazer opções, através de pessoas concretas que são elas próprias testemunho vivo de Jesus Cristo, um espaço que os jovens sintam como a “sua casa”. Seria uma mais-valia para a diocese encontrar este espaço, onde pudéssemos fazer crescer este sentido de pertença.
Nota-se esforço na promoção do Conselho Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional. Passa por aí a coordenação do trabalho da Igreja em favor dos jovens?
Este é por excelência o espaço de representatividade de todos os grupos, movimentos e serviços que na diocese trabalham com jovens. No fórum nacional das vocações do ano passado falou-se muito de uma “pastoral de conjunto”. Este conselho pode e deve ser o ponto de partida para que esta ideia se concretize. Penso que ainda temos um longo caminho a percorrer. Esta representação nem sempre é assumida com o valor que lhe deveria estar subjacente. Os conselheiros, nomeados pelos grupos, movimentos e serviços, nem sempre têm esta consciência do conjunto e da importância de nos reunirmos três vezes por ano para perspectivarmos os caminhos da pastoral juvenil e vocacional com os contributos de todos.
