Igreja da Vera Cruz encheu-se para a oração ecuménica Católicos e metodistas encontraram-se para rezar e conviver pela Unidade dos Cristãos. Sente-se que é possível ir mais longe
“Os moinhos de Deus moem devagar, mas moem muito fino”. Assim se referiu o bispo metodista Ireneu da Silva Cunha à reaproximação das igrejas cristãs que se verifica no diálogo ecuménico.
Falando aos cristãos – católicos e metodistas, principalmente – que enchiam por completo a Igreja da Vera Cruz, na noite de 24 de Janeiro, D. Ireneu, actualmente aposentado, reconheceu que há “sinais de cansaço e desmotivação” entre os cristãos que procuram a unidade, mas não existem “soluções rápidas e milagrosas”. “Procuramos caminhar no sentido contrário ao de muitos séculos em que se acumularam ódios e desconfianças. Não é em 10, 20 ou 50 anos, que se superam séculos de divisão”, disse.
Actualmente a residir em Oliveira do Bairro, onde no domingo anterior participara numa celebração na igreja paroquial da cidade bairradina, o bispo metodista, disse não estar arrependido do “afã ecuménico” e recordou as celebrações pioneiras, logo após o Vaticano II, na cidade de Aveiro. Na altura, Ireneu Silva era pastor na comunidade metodista da cidade dos canais e surgia a par de Pe Paulino, Carlos Candal e Mário Rocha como promotor de encontros ecuménicos no Grémio do Comércio. “Ainda não era possível fazer encontros nas vossas igrejas”, disse, dirigindo-se aos católicos. “Nem nas nossas”, acrescentou.
O bispo medotista recordou as palavras do Pe Couturier, pioneiro do ecumenismo entre os católicos, que afirmara: “A unidade que Deus quiser, pelos meios que quiser”. E acrescentou: “A unidade que Cristo quer. Não a que os metodistas ou os católicos querem. A que Cristo quer, quando quiser. Antes era o ‘Venham a nós’. Agora caminhados todos para Cristo”.
A ideia de centrar em Cristo a busca da unidade foi igualmente sublinhada pelo Pe Francisco Martins, que co-presidiu à celebração. O vigário paroquial da Vera Cruz afirmou a necessidade de “construir alicerces em Jesus Cristo”, acrescentando: “As mesmas pedras que servem para levantar muros, podem servir, com muito mais proveito, para fazer pontes”. D. António Marcelino, contrariamente ao previsto, não pôde estar presente, por motivos de saúde.
Fim das costas voltadas
Na memória dos que participaram nesta celebração ficará certamente o momento em que os fiéis, virando-se para o corredor central, se reconheceram pecadores diante de Deus e uns em relação aos outros. “Irmãs e irmãos em Cristo, reconhecemos ter-vos virado as costas quando mais necessitaram de nós”.
A celebração ecuménica decorreu no âmbito da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos (todos os anos de 18 a 25 de Janeiro) e foi seguida de um convívio que encheu o salão contíguo à igreja durante “uma boa hora bem passada” e “muito cordial”, como referiram alguns dos presentes.
Dois ou três em nome d’Ele
A frase do Evangelho de S. Mateus “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estarei no meio deles” foi o mote das celebrações ecuménicas deste ano. Para D. Ireneu Cunha da Silva, essa frase de Jesus afirma “o poder extraordinário de dois ou três em Seu nome” e não é apenas “uma justificação para quando se reúnem poucos”, como é costume num encontro de católicos e – ficamos a saber – igualmente nos de metodistas. Por outras palavras, não é um lamento, mas algo muito potenciador. E D. Ireneu Silva deu alguns exemplos de grupos pequenos e transformadores: os apóstolos, em primeiro lugar, mas também John Wesley (fundador do metodismo, “cowboy do Evangelho”, como lhe chamou o bispo, por ter percorrido a Inglaterra a cavalo) e os seus seguidores, ou a comunidade ecuménica de Taizé, que começou “com dois ou três”. “Quando o seu coração está em Cristo, a Palavra de Cristo está neles”. Um grupo de dois ou três em nome de Jesus tem “um efeito multiplicador”.
