Hermínio Nunes, técnico de restauro de relógios antigos, alerta: Técnico da Marinha Grande, responsável pelo restauro do relógio do Santuário de Vagos, lamenta que nas paróquias não se conheçam os relógios das suas igrejas e que não haja em Portugal um organismo que restaure esse património.
Hermínio Nunes, da Marinha Grande, é um técnico de restauro de antigos relógios de torres, sinos e relógios de sol, para além de coleccionador de despertadores e relógios de parede, que também restaura.
O técnico, que trabalha exclusivamente com relógios antigos, de pêndulo, não com relógios electrónicos, considera que o seu trabalho é “uma corrida contra o tempo, numa tentativa de conseguir que essas belíssimas máquinas do tempo, que são os antigos relógios de torre, não sejam deitados para a sucata ou vendidos ao desbarato, porque, infelizmente, grande quantidade de bons relógios de torre estão já nas mãos de coleccionadores estrangeiros”.
De acordo com Hermínio Nunes, em Portugal houve grandes relojoeiros de torres, entre os quais o Veríssimo da Veiga, no século XVIII, e, já no século XX, o Manuel Francisco Couzinha e o José Pereira Cardina.
Como os relógios de torre “são um património constituído por peças únicas”, para este técnico “é pena que em Portugal não haja um organismo que coordene o restauro desse património, como acontece em outros países”. Em Portugal, “quando um desses relógios avaria, normalmente é substituído por um relógio electrónico”.
No entanto, Hermínio Nunes garante que, “quando as pessoas tomam conhecimento do património que possuem, ficam com outra sensibilidade. A maioria dos paroquianos nunca viu o relógio, nunca vai à torre da igreja, nunca vai aos sinos. E os sinos são um outro património que está em risco, porque se têm mandado para a sucata, ou fundido, sinos raríssimos, de grandes fundidores, sem que haja um estudo, sem que haja alguém a coordenar esse património. Em Espanha, não se mexe numa torre, não se manda um sino para a refundição, não se tira o relógio de uma torre, sem que a associação de campaneiros dê o seu aval”.
Hermínio Nunes restaurou o relógio do Santuário de Vagos. Tem restaurado relógios de torres por todo o país, e ainda em Espanha. Em Portugal, diz que são quatro as pessoas que se dedicam ao restauro de relógios de torres, pelo que “havia espaço para vários relojoeiros e, com isso, conservar-se a arte”.
Nos relógios que restaura, Hermínio Nunes presta um serviço pós-restauro gratuito, mediante o qual, trimestralmente, todos os relógios que passam pelas suas mãos são lubrificados. “Um relógio de torre monumental não requer grandes visitas, quer, uma vez por semana, a visita de quem lhe dá corda, e a visita do técnico de três em três meses”, afirma.
Hermínio Nunes tem um site na Internet (www.tictactemporis. com) onde dá a conhecer o seu trabalho, e presta uma função pedagógica, principalmente junto dos mais novos. O técnico está referido em diversas obras, nomeadamente no livro “Relógios e Relojoeiros – Quem é quem no tempo em Portugal”, da autoria de José Mota Tavares e Fernando Correia de Oliveira.
Hermínio Nunes é um investigador da história sobre a zona da Marinha Grande, autor de diversos livros sobre essa temática e sobre a história do vidro na Marinha Grande, para além de ser organizador e dinamizador do museu de arte sacra daquela cidade.
Os sinos não morrem
Um dos mais antigos media soa aqui ao lado: o sino da Igreja. Ontem anunciou um evento, tocando a finados; hoje anuncia outro, tocando para a missa. O sino informa e, embora o seu toque já seja automatizado, carrega-se num botão e toca, continua a ser o velho sino de sempre. Alguns sinos têm o software inscito no hardware:
Laudo Deum verum plebem voco congrego clerum
Defunctos ploro, nimbum fugo, festa decoro.
Alguns media não morrem tão depressa como se julga. Este sobreviveu ao telex.
José Pacheco Pereira
in http://abrupto.blogspot.com/
