Outras caridades…

Revisitar… o Vaticano II A “mensagem cristã não afasta os homens da construção do mundo, nem os leva a desinteressar-se do bem dos seus semelhantes, mas, pelo contrário, os obriga ainda mais a realizar essas tarefas” – GS 34.

Quer dizer que o facto de se ser cristão redobra o dinamismo e a capacidade de fazer a caridade por via do empenhamento na transformação do mundo, tendo em conta o bem de todos, atendendo sobretudo aos mais débeis, porque são os menos beneficiados.

Esta forma de caridade enquadra as conquistas do “engenho e do esforço humanos” como sinais da “grandeza de Deus e uma consequência do seu desígnio inefável”. Longe de criar rivalidade do homem com o Criador, tal empenho louva o Senhor pela capacidade que Ele torna disponível para a pessoa humana.

A fé cristã torna-se, então, uma mais valia para um desenvolvimento sustentado e solidário, que exprime a caridade no cerne da vida. “Para os que têm fé, uma coisa é certa: a actividade humana, individual e colectiva, ou aquele esforço gigantesco, com que os homens se atarefam ao longo dos séculos para melhorar as condições de vida, considerado em si mesmo, corresponde à vontade de Deus” – GS 34.

Podemos esquecer que olhar para os pobres, acolhê-los, ir ao seu encontro, é desencadear processos de envolvência que os tornem também activos participantes do desenvolvimento, contribuintes efectivos para esse mesmo desenvolvimento. E, nesse caso, um empresário cristão, por exemplo, um gestor cristão, terá de colocar no seu horizonte um contributo inclusivo da sua actividade ao serviço da caridade.

Bem sabemos que a fome, seja de que tipo for, reclama actuações imediatas. Mas elas não excluem, pelo contrário reclamam, projectos consolidados de resolução das carências. E, neste afã de dar o pedaço de pão que a urgência impõe, que se não olvide a ousadia de sonhar mais ao largo.

Em vésperas de uma cimeira União Europeia – África, esta perspectiva ganha acuidade. Mesmo quando a conveniência nos faz desviar o olhar dos problemas, facto é que “a família humana se vai reconhecendo a pouco e pouco como uma comunidade em todo o mundo”. A força da existência cristã não pode deixar de inspirar um diálogo que seja precisamente este movimento de inclusão: de povos que partilham os seus saberes, as suas tecnologias, como as suas ansiedades e carências primárias, em busca de uma melhoria de condições de vida, como também de um enriquecimento pela diversidade das suas culturas.

Nesta, como noutras ocasiões históricas, urge que se ergam vozes a clamar a verdadeira norma da actividade humana: “que ela seja conforme ao bem autêntico da humanidade segundo os desígnios e a vontade de Deus e permita ao homem, considerado como indivíduo ou como membro da sociedade, realizar-se de acordo com a plenitude da sua vocação” – GS 35.

Q.S.