P.e Alírio Baptista, 25 anos de glória

P.e JERÓNIMO NUNES

Missionários da Boa Nova

“No dia 20 de Novembro, dia de Cristo Rei, o P. Alírio saiu de jeep de Iapala para Nampula. Trazia como companheiro um Professor da Escola Secundária de Iapala. A cerca de 60 km de Nampula, um camião do Projecto Agrícola de Ribáue caiu numa emboscada da Resistência Moçambicana, numa descida acentuada da estrada, logo a seguir a uma curva. O carro do P. Alírio surgiu pouco depois e os homens dispararam imediatamente sobre o carro do Alírio, que foi atingido em cheio”. É o relato do P. Manuel Trindade sobre o martírio do grande missionário de Iapala, o primeiro da guerra moçambicana. Há 25 anos.

Uma família cristã e trabalhadora

O P. Alírio Baptista é o filho mais novo de Manuel Baptista e Maria de Jesus Costa, de Choca do Mar, freguesia de Calvão, concelho de Vagos, nascido a 10 de Julho de 1930. Era uma família de lavradores, honestos e cristãos. A mãe comungava todos os dias e o pai confessava-se todos os meses. Tinham oito filhos. O mais velho foi para o Seminário diocesano de Aveiro e o mais novo para as Missões.

O dia 29 de Junho 1955 foi uma grande festa: Alírio foi ordenado padre, em Cucujães. E, um ano depois, parte para Moçambique, como Missionário. Aliás, metade da família foi para Moçambique: dois irmãos tinham salinas na Matola e o outro foi administrador em vários lugares. Todos homens de profunda fé e a colaborar com a Missão.

Homem dinâmico, empreendedor e amigo

A sua iniciação à África fez-se como professor no Colégio Liceu Vasco da Gama em Nampula, durante três anos. Em 1959 foi nomeado superior da Missão de Iapala que estava ainda no começo. Com a colaboração do Irmão Balau, construiu a casa paroquial, a casa das irmãs (hoje hospital), escolas e montou uma forte estrutura para produção do tabaco para sustentar a missão. Além de fecundo trabalho apostólico, muito fez para a promoção humana da região. Tinha grande capacidade para fazer amigos mas não queria confundir-se com os tabaqueiros que lá viviam só para ganhar dinheiro. O seu objectivo era a evangelização e promoção dos africanos.

Em 1974 voltou a Nampula. Foi pároco da catedral e responsável pela missão de Murrupula. Foi um homem totalmente disponível para o serviço da diocese e continuou a fazer amigos em todas as classes sociais e das várias opções políticas. Mesmo nos tempos mais difíceis, quando andar pelas estradas já era um risco, ele não falhava uma visita a um colega aniversariante que morasse no mato. Por causa dos amigos foi preso meio ano. Mas a confiança que nele depositavam alguns responsáveis pela cadeia abriu-lhe muitas vezes as portas para ir dormir a casa com os colegas.

Ardoroso missionário

Em 1981 foi a Roma fazer o curso longo do Movimento por um Mundo Melhor. Foi uma grande oportunidade de descanso e de reciclagem teológica e espiritual. Voltou a Nampula com uma visão mais ampliada do mundo e da Igreja. Mandaram-no para a sua antiga Iapala. Entrou em cheio com ardor missionário para fortalecer as comunidades cristãs nos tempos difíceis da guerra.

De facto, a guerra civil estava forte naquela região. Visitar as comunidades longínquas era risco de vida. Acompanhado pelas irmãs de S. João Baptista e confiado nos amigos que lhe indicavam os caminhos mais seguros, as suas visitas apostólicas surpreendiam essas comunidades isoladas.

Nesta fase, a sua grande preocupação era a formação dos responsáveis pelas comunidades. Os cursos propostos pela diocese eram repetidos na sua missão para que os seus cristãos fossem apóstolos preparados para os novos tempos..

Dar a vida até ao fim

O Padre Alírio sabia que era perigoso estar na região de Iapala e andar por aquelas estradas. A guerra andava escondida, mas sempre algum amigo dava conta do movimento das tropas. E informava-o dos perigos e dos momentos e espaços mais tranquilos. Ele tomava todas as precauções para garantir a segurança. E avisava outros colegas do que ia acontecendo. Mas nunca desistiu do fiel desempenho da sua Missão. O Padre Vieira Mendes repete uma história contada por uma irmã da Congregação de S. João Baptista: Iam no jeep, numa estrada perigosa. O P. Alírio pergunta-lhe: “E se morremos aqui?” responde a irmã: “Se for para morrer, que seja hoje!” Também ele estava preparado para enfrentar esse desafio final. Missão é dar-se para que outros tenham Vida.

A área da missão era enorme e ele não queria abandonar o povo que vivia refugiado nas povoações e escondido nos matos. Os tiros surpreenderam-no numa curva da estrada. Nos dias anteriores andara em Malema a procurar casa e condições para dois novos padres irem lá morar. Tudo pronto, era preciso dizer ao Bispo que os padres já podiam vir. Era festa de Cristo Rei. Viveu e trabalhou para que Cristo reine. Para que Ele reine assumiu o caminho do martírio.

Possivelmente os que atiraram sobre o carro não sabiam que estavam a matar um evangelizador. Mas o Padre Alírio sabia que o seu mestre foi assassinado para que todos “tenham vida em abundância”. Fez do Evangelho o seu caminho. Foi e continua a ser um testemunho radical de dedicação a Deus e ao serviço do povo. Cumpriu a missão com toda a sua inteligência e com todo o amor do seu coração. Morreu fazendo a vontade do Pai que o enviou. É Mártir.

O Homem da PAZ e da ESPERANÇA

“A morte violenta do P. Alírio levanta-se como um clamor pela paz e pela reconciliação neste país martirizado pela guerra e por todas as suas naturais e devastadoras consequências” – diz o P. Trindade que chegou a Maputo na véspera da morte e participou no funeral.

“O seu corpo desceu, como semente de reconciliação e de Paz, à terra de Moçambique. No trajecto da Catedral para o cemitério, sentia-se o pesar da população de Nampula. Muitos choravam e outros se interrogavam sobre o sentido da vida e da dedicação missionária… Era um homem generoso, optimista e cheio de esperança. A morte violenta colheu-o em plena actividade missionária, deixando-nos mais pobres de missionários, mais ricos porém de testemunhos do amor até ao fim.” São palavras de D. Manuel Vieira Pinto, Arcebispo de Nampula na carta em agradece a solidariedade dos Bispos moçambicanos.

Era um homem de fé profunda, alegre, dinâmico e empreendedor, cheio de entusiasmo e ardor missionário – diz o P. Agostinho de Sousa, que entrou para o seminário junto com o P. Alírio e foi ordenado no mesmo dia e trabalhou com ele em Nampula. “Um bom missionário, querido e estimado por todos” – D. Manuel.

O primeiro padre a dar a vida pela paz em Moçambique, continua vivo junto de Deus e no coração dos discípulos que, como ele, vivem na alegria do serviço ao Reino. “O ataque brutal que vitimou o P. Alírio faz-nos pensar, mais de perto, no avanço da violência e da guerra e no risco que os missionários terão de assumir para continuarem presentes, no meio do Povo, como evangelizadores e como sinais de esperança, de reconciliação e de paz” – são palavras do P. Trindade ao comunicar a morte que entronizou um missionário como modelo de pessoa humana, cristão e santo.

Pessoalmente encontrei o P. Alírio uma vez. Esteve uma semana em Tomar, em 1968, dizer-nos o que é Missão. Como jovem aprendiz de missionário, bebi as suas palavras, a sua alegria e o seu entusiasmo. É com muita alegria que participo nesta homenagem que a Paróquia de Calvão lhe vai prestar nos dias 21 a 23 de Novembro. Um povo com história tem o futuro garantido.

Calvão recordou um sacerdote da terra

A paróquia de Calvão recordou o P.e Alírio Baptista no passado fim-de-semana. Os Missionários da Boa Nova, instituto a que pertencia o P.e Alírio, apoiados pelos Leigos da Boa Nova, realizaram sessões de divulgação em todos os níveis de catequese com a finalidade de divulgar a figura do Pe. Alírio junto das camadas mais jovens, para quem ele era um desconhecido.

As Eucaristias dominicais lembraram igualmente o sacerdote de Calvão.

No sábado à noite, no Salão da Igreja Paroquial, evocou-se a figura do mártir, com a presença dos familiares, conterrâneos que o conheceram e do povo em geral.

Fizeram intervenções de contextualização, o P.e Jerónimo Nunes, responsável pela animação missionária da Boa Nova, o P.e Georgino Rocha, na qualidade de vizinho e estudioso da vida do P.e Alírio (escreveu um esboço biográfico na revista “Igreja Aveirense”, Julho/Dezembro de 2006), e o Pe. Agostinho Pereira de Sousa, companheiro de missão, a pessoa que mais tempo privou com ele.

Jorge Carvalhais, professor e leigo missionário, relatou ao Correio do Vouga as imagens mais fortes da evocação: “Sobressaiu a imagem de um homem corajoso, apaixonado pelo Evangelho e pela Missão. Arriscou a própria vida, por amor ao povo moçambicano, com quem quis ficar, apesar da guerra civil. Foi um lutador incansável pela paz e acabou por ser vítima da violência que ele tanto condenava, ao ser assassinado por guerrilheiros da RENAMO quando se prestava para revitalizar outro campo de missão na Diocese de Nampula”. E acrescenta: “Houve diversos momentos fortes, ao longo do fim-de-semana, mas destaco a curiosidade que o percurso de vida do Pe. Alírio gerou nas crianças e adolescentes da catequese, assim como o clima de grande comoção que os presentes viveram na sessão missionária na noite de sábado. Sobretudo com o testemunho do Pe. Agostinho, seu companheiro de sempre”.