Padre em missão (1ª parte)

Padre missionário ou padre em missão. Devo ser classificado pela segunda expressão. As questões gramaticais têm um saldo negativo no seio da Igreja, embora seja fácil de interpretar, se soubermos qual é o fio condutor da história. Na natureza do meu chamamento existe um lastro psicanalítico. Passo a tentar explicitar. Minha mãe rezava a devoção do mês de Maio, todas as noites. Meu pai, nessa altura, exercia a profissão de padeiro. Com as dores do parto eminente, foi o padre, após o terço, que teve de levar a minha mãe, e eu incluído, ao hospital, dando-se o nascimento sereno do primogénito homem. Quem conta, se reinventa a si próprio. Um padre veio ao meu encontro; hoje, como padre, vou ao encontro dos outros.

No presente, deixo pela terceira vez a terra, pais e irmã, força poderosa do sangue; deixo a cultura que me formou; ainda não fui capaz de deixar a língua. O seguimento é um “deixamento”. Não tenho o “missionário” como genético, não sei dessa possibilidade histórica. Não sou padre missionário, estou em missão, como todos se esforçam por estar. Não estou a mais nem a menos. Sou padre em situação de missão. Queria ser padre missionário, mas não sou capaz. Não me programei para essa identidade. Antes acreditava, agora apenas sei. A missão das parcerias é para mim mais que suficiente. A missão que realizo é a médio prazo. O longo prazo pertence exclusivamente a Deus. A minha luta é contra o tempo a favor da eternidade. Estar em missão é uma escolha, como as que fazemos ao lavar os dentes logo pela manhã. Deste meditar surgem apetências e consequências.

Horas inconvenientes e inúteis. Horas abrasivas foram as minhas no momento da partida. Na despedida, o desencanto. Tenho a consciência de que fiz o meu trabalho de casa e reclamei de quem não o fez. Lavei a alma, sujei as mãos. Não completei ainda os 40 dias bíblicos do regresso e o coração já se dilata suavemente, sem pressas. As exigências crescem e eu diminuo dentro delas, mas não me apago. Não dou penitências a ninguém, penitencio-me. Não sou, primariamente, o que faço; sou o que sou, e nisso assumo-me, no erro e na tentativa, com prioridade à qualidade. É preferível fazer menos bem ou ser omisso? Deus quer, se as mulheres e os homens deixarem. Deixar é um verbo muito rico em termos vocacionais, que tem de ser explorado e desenvolvido. Deixou-me um sabor na boca. Deixei a família e emprego. Deixei acontecer isso e aquilo. Deixei saudades e amizades. Deixei o EVANGELHO? Deixei DEUS?

Procuro agora encontrar impres-sões que possam ser escritas. Deus dá-me novamente uma página em branco. Vou escrevendo a várias mãos. Uma multidão de mãos aju-dam-me a escrever essa página em branco. Amanhã é muito tarde, agora é cedo de mais. No instante, servindo a eternidade. Discernimento é a palavra a ser escrita no princípio e no fim de todas as situações. Discernimento é a palavra necessária, quase obsessão. Discernimento é separação. A Vida separa muito mais do que a Morte.

Apreendo a teoria, mas na prática a teoria é recriada. Não há receitas feitas. Há apenas muitos ingredientes conhecidos e com eles podemos saber fazer receitas de criar água na boca. Traço duas tangentes paralelas até ao infinto: “O universal é o local sem paredes” (Miguel Torga). Máxima de inspiração budista: “O duro perece e o brando permanece”.