Nota Pastoral dos Bispos portugueses nos 500 anos do nascimento de São Francisco Xavier – 2ª parte 2006 será “Ano Xavier”. O missionário da Sociedade de Jesus nasceu no dia 7 de Abril de 1506 e morreu no dia 3 de Dezembro de 1552. Publica-se hoje a segunda parte (de três) da Nota Pastoral dos Bispos portugueses a propósito do V Centenário do nascimento do “Apóstolo do Oriente”.
A certeza interior da vontade de Deus confrontava-se com o ambiente de conquista que rodeava São Francisco Xavier, por vezes em contraste com a perspectiva evangélica que o movia. Apaixonado por Jesus Cristo, vivendo numa contínua presença de Deus, foi apostolicamente missionário do Mundo. Partindo da Europa, tocou a América (Brasil), a África (Moçambique), a Ásia e a Oceania (Molucas).
Xavier conhece uma cidade de Goa, de origem cultural indiana, mas agora habitada também por marinheiros, soldados e comerciantes portugueses, ali chegados há quatro décadas, e, por isso, já caldeada com alguns princípios cristãos e determinados costumes europeus. A promiscuidade, já existente nas relações comerciais, políticas, sociais e familiares, não estava a ser enfrentada eficazmente pelos missionários, que se sentiam mais capelães dos portugueses do que missionários dedicados aos chamados gentios.
É este ambiente que Francisco Xavier pretende purificar: rectificando costumes e comportamentos e criticando o oportunismo e a falta de elevação moral. Lança uma outra iniciativa de grande alcance pedagógico, que julga prioritária em relação ao futuro: reúne as crianças, todas as tardes, e ensina-lhes o Evangelho, colocando os textos da fé em melodias de canções infantis, que cada criança depois cantava aos pais em casa.
Depois de vários meses passados em Goa, tendo já alguns conhecimentos da língua local, deixa os seus trabalhos entregues a outros e parte para o Sul. Com esta mesma energia interior, fruto da Graça de Deus, dirigir-se-á a Malaca e às Molucas, no Extremo Oriente, pois lhe indicaram aqueles locais como pontos de referência para maior divulgação do Evangelho. E foi nesses caminhos que tomou conhecimento da excelência da cultura e da prática religiosa do povo japonês, ideia que o fascinou, a ponto de voltar a Goa e preparar o que entendia ser a grande missão da sua vida, a evangelização do Japão.
São fruto da experiência destas viagens de evangelização alguns apelos que se tornaram célebres, em cartas aos seus companheiros de vida religiosa, aos alunos da Universidade de Paris e ao Rei D. João III. Escrevia aos seus Irmãos que, algumas vezes, tinha os braços tão cansados de celebrar o baptismo, que mal os podia mexer, terminando por desabafar: “Se houvesse mais missionários que me ajudassem!…”
Dirigindo-se ao Japão, encontra ali o gosto pelo diálogo filosófico e teológico mais profundo, que ele tanto apreciava. São também os japoneses que o convencem de que, se queria dar a conhecer a filosofia do cristianismo ao mundo inteiro, teria que se revelar à cultura chinesa, de onde provinha a sua própria cultura japonesa. E foi então que Xavier, para quem não havia obstáculos intransponíveis quando se tratava da difusão do Evangelho, toma a decisão de partir ele próprio para a aventura do grande diálogo com o “Império Celeste”.
Depois de voltar a Goa para reorganizar a missionação dos jesuítas, entretanto chegados de Lisboa, dirige-se à China, onde o seu ideal o levava, mas onde não chegou a entrar, morto pelo cansaço até à exaustão, aos 46 anos de idade.
A duríssima aventura do Japão, prova bem um amor mais forte que a morte: desprovido e abandonado, mas com total confiança em Deus, convertido em chama pura, abrasado no amor de Deus. Fogo de amor que ultrapassa o gelo e a neve do Japão. Fogo que anseia depois pela chegada ao Grande Imperador da China, para dali irradiar a Boa Nova a todo o Oriente e ao mundo inteiro.
