Palavra de Deus para todos (II)

Revisitando o Vaticano II O primeiro esquema sobre a Revelação chamava-se De fontibus revelationis. Redigido pela comissão teológica, sem consulta à Comissão Bíblica, desde o início foi julgado negativamente pelos Padres conciliares como texto escolástico e escolar, sem orientação pastoral, falho de sentido ecuménico, autoritário e desanimador. Duas tendências emergiram na aula conciliar: uma escolástica e fechada, que vivia no mundo dos conceitos, outra pastoral e aberta, que assentava na realidade da vida. Razão fundamental da recusa era aparecer, ao menos em alguns casos, a Tradição como uma fonte da revelação independente da Escritura.

Feita uma votação para decidir se continuaria ou não a discussão sobre o esquema, foi inconclusiva. O saudoso papa João XXIII, após dois dias de tensão, nomeou uma “comissão mista”, teológica e ecuménica. E “Deus escreveu direito por linhas tortas”. Escreve E. Bianchi: “Precisamente a partir deste debate sobre a Revelação determinava-se um método para a elaboração dos diversos documentos conciliares e decidia-se a orientação não só da letra mas também do espírito conciliar”.

O segundo esquema nem sequer chegou a ser discutido na aula, tal o desagrado. Nova comissão redigiu o outro texto, discutido na terceira sessão. Contributos e sugestões dos Padres moldaram o esquema definitivo, discutido e corrigido na quarta sessão; finalmente aprovado em 29 de Outubro de 1965, e promulgado a 18 de Novembro do mesmo ano, foi dos documentos mais consensuais e aplaudidos pelos peritos na matéria.

Quatro elementos, na Dei Verbum, estabelecem uma nova relação da Palavra com o Povo de Deus. Primeiro, o carácter cristocêntrico da revelação. Diz H. Bouillard: “A revelação divina não aparece aqui como um corpo de verdades doutrinais contidas na Escritura e ensinadas na Igreja, mas apresenta-se como uma automanifestação de Deus na história da salvação, da qual Cristo constitui o auge”. A Bíblia não é um livro de doutrina; é a vida de Deus entrelaçada na vida dos homens, por via de uma pessoa – Jesus Cristo.

Outro aspecto importante é o da relação entre Escritura e Tradição. Afirma D.-B. Dupuy que não são duas fontes, mas duas funções: a Escritura comunica-nos a realidade revelada; a Tradição preserva e interpreta a mesma realidade. Daí, a afeição que devemos nutrir pela Bíblia; e a atenção que devemos prestar à Tradição.

“Os fiéis devem ter acesso fácil à sagrada Escritura” (DV 22). Esta foi a novidade irreversível. E. Bianchi afirma: “A hierarquia passou do intenso temor de deixar as Escrituras nas mãos dos fiéis à viva recomendação do seu valor”. O contacto directo com a Escritura, a possibilidade de a saborear como alimento de fé, foi um dom para os católicos.

Por último, a reentrada da Palavra na Liturgia, e de maneira acessível, é outro passo gigante na cumplicidade Bíblia e Povo de Deus. É o mesmo “pão de vida” que se distribui na “mesa da Palavra de Deus e do Corpo de Cristo” (DV 21). Escreve L. Alonso Schökel: “Cristo dá-Se na Sua palavra e dá-Se na Sua carne – em ambos os casos é o pão da vida, que dá vida eterna, porque faz participar da vida que Cristo recebe e partilha com o Pai. Por isso, é legítimo falar de uma única mesa”. Além disso, é claro o incentivo conciliar para que o ministério da Palavra se apoie na “leitura e estudo assíduos da Escritura”.

Querubim Silva