Palavras que escondem números e números que escondem palavras

Na semana passada, neste espaço, fez-se referência a uma particularidade da língua hebraica (em que foram escritos quase todos os livros do Antigo Testamento) e da língua grega (em que foi escrito o Novo Testamento). Como se afirmou, enquanto em português escrevemos os números com certos sinais (1,2,3,4…), em hebraico e grego, empregam-se as letras do alfabeto para escrever os números. Ao “A” hebraico (Alef) corresponde o 1, ao “B” (Bet) o 2, ao C (Guimel) o 3, e assim sucessivamente. Esta possibilidade que têm as línguas bíblicas dava lugar a jogos engenhosos e entretenimentos originais, pois em cada quantia podia estar uma palavra escondida e vice-versa. Ao resultado da soma do valor das letras de uma palavra chama-se valor gemátrico.

Revelamos dois desses jogos, transcrevendo a explicação que surge no livro “Que sabemos da Bíblia? – III”, de Ariel Álvarez Valdés (Ed. Paulus).

Os que saíram do Egipto

«Conta-se que saíram do Egipto 603.550 homens, sem contar as mulheres, os anciãos e as crianças [Ex 2,32]. Se fosse verdade, teriam que se calcular uns três milhões de pessoas, quantidade exorbitante, provavelmente nunca alcançada pela população de Israel ao longo de toda a sua história, mas se substituirmos as letras da frase “todos os filhos de Israel” (em hebraico: rs kl bny ysr’l) pelos correspondentes valores numéricos, dá precisamente 603.550. Portanto, ao dizer que saíram 603.550, o autor quis afirmar que saíram todos os filhos de Israel»

Os antepassados de Jesus

«S. Mateus refere um desses jogos. Divide os antepassados de Jesus em três séries de 14 gerações cada uma e, no fim, acrescenta: “O total de gerações é: de Abraão a David, 14 gerações; de David até ao Cativeiro, 14 gerações; do Cativeiro até Cristo, 14 gerações” (cf. Mt 1,17). Mateus refere só três nomes para os 430 anos de escravidão no Egipto. E só dois ascendentes para preencher os três séculos entre Salmon e Jessé.

É que, de propósito, compôs estas listas para que dessem só 14 gerações, pois 14 é o número gemátrico do rei David: D (=4) + V (=6) + D (=4) = 14. E como se esperava que o futuro Messias fosse descendente de David, o evangelista quis dizer que Jesus é o “tríplice David” e portanto o Messias total, verdadeiro descendente de David.»

Jorge Pires Ferreira