Bento XVI admite erros, mas nega qualquer vontade de abrir conflito com os judeus ou dentro da Igreja
Bento XVI lançou no dia 12 de Março um duro ataque aos que criticaram a sua decisão de revogar a excomunhão de quatro Bispos, consagrados no ano de 1988 pelo Arcebispo Lefebvre sem mandato da Santa Sé, lamentando em especial que o seu gesto tenha sido obscurecido pela polémica em torno posições negacionistas de D. Richard Williamson sobre o Holocausto.
“Fiquei triste pelo facto de inclusive católicos – que no fundo, poderiam saber melhor como tudo se desenrola – se sentirem no dever de atacar-me e com uma virulência de lança em riste”, escreve.
O Papa tem palavras muito fortes para aqueles que se opõem a qualquer diálogo com a Fraternidade São Pio X: “Devemos remeter à indiferença uma comunidade que conta com 491 padres, 215 semina-ristas, 117 frades, 164 freiras, e milhares de fiéis?”
“Devemos mesmo deixá-los afastarem-se da Igreja? Poderemos simplesmente excluí-los, enquanto representantes de um grupo marginal e radical, da busca pela unidade e reconciliação?”, prossegue.
Por outro lado, Bento XVI reafirma que não tinha conhecimento das posições do Bispo Williamson, mas admite que no futuro a Santa Sé deverá estar mais atenta à Internet, como “fonte de notícias”.
“Uma contrariedade que eu não podia prever foi o facto de o caso Williamson se ter sobreposto à remissão da excomunhão”, escreve, lamentando que o seu “gesto discreto de misericórdia” se tenha transformado, na opinião pública, numa espécie de “desmentido da reconciliação entre cristãos e judeus e, consequentemente, como a revogação de quanto, nesta matéria, o Concílio tinha deixado claro para o caminho da Igreja”.
“Por isso mesmo sinto-me ainda mais agradecido aos amigos judeus que ajudaram a eliminar prontamente o equívoco e a restabelecer aquela atmosfera de amizade e confiança que, durante todo o período do meu pontificado – tal como no tempo do Papa João Paulo II –, existiu e, graças a Deus, continua a existir”, acrescenta.
Logo no início da carta, aliás, o Papa admite que a sua decisão sobre os Bispos lefebvrianos “suscitou por variadas razões, dentro e fora da Igreja Católica, uma discussão de tal veemência como desde há muito tempo não se tinha experiência” e que “alguns grupos acusavam abertamente o Papa de querer voltar atrás, para antes do Concílio”, algo que Bento XVI desmente por completo.
A carta, dirigida aos Bispos católicos, pretende ser uma “palavra esclarecedora” e contribuir para “a paz na Igreja”.
O Papa diz que entre as suas prioridades estão “o esforço em prol do testemunho comum de fé dos cristãos – em prol do ecumenismo” e “a necessidade de que todos aqueles que crêem em Deus procurem juntos a paz, tentem aproximar-se uns dos outros a fim de caminharem juntos – embora na diversidade das suas imagens de Deus – para a fonte da Luz: é isto o diálogo inter-religioso”.
A carta pode ser lida na íntegra em www.agencia.ecclesia.pt (procurar em “Documentos”).
Ecclesia / CV
“Convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso”
Além do “caso Williamson”, a carta papal admite outro erro, ao não se ter definido claramente o objectivo e o alcance da decisão sobre as excomunhões tomada no passado dia 21 de Janeiro.
“A excomunhão atinge pessoas, não instituições. Uma ordenação episcopal sem o mandato pontifício significa o perigo de um cisma, porque põe em questão a unidade do colégio episcopal com o Papa. Por isso a Igreja tem de reagir com a punição mais severa, a excomunhão, a fim de chamar as pessoas assim punidas ao arrependimento e ao regresso à unidade”, explica Bento XVI.
Para o Papa, essa unidade ainda não foi alcançada, pelo que a “remissão da excomunhão tem em vista a mesma finalidade que pretende a punição: convidar uma vez mais os quatro Bispos ao regresso”.
O Papa afirma claramente que os tradicionalistas não podem “congelar” a autoridade do magistério da Igreja em 1962, ano do início do II Concílio do Vaticano, mas diz também que “a alguns daqueles que se destacam como grandes defensores do Concílio, deve também ser lembrado que o Vaticano II traz consigo toda a história doutrinal da Igreja”.
Bento XVI não nega que ouviu “da boca de representantes daquela comunidade muitas coisas dissonantes: sobranceria e presunção, fixação em pontos unilaterais, etc.” Mas acrescenta que também recebeu “uma série de comoventes testemunhos de gratidão, nos quais se vislumbrava uma abertura dos corações”, pelo que questiona: “Não deveria a grande Igreja permitir-se também ser generosa, ciente da concepção ampla e fecunda que possui, ciente da promessa que lhe foi feita?” Bento XVI esperava que o “gesto submisso duma mão estendida” tivesse outro acolhimento por parte de todos os católicos.
