Papa critica “criminalidade selvagem”

Bento XVI mostrou-se preocupado com a situação social na Calábria, região do sul italiano. De visita a uma cartuxa, elogiou o silêncio.

Bento XVI realizou no domingo uma visita de doze horas à região italiana da Calábria, no sul do país, conhecida pela sua ligação à Máfia, tendo criticado a “criminalidade selvagem”.

Perante dezenas de milhares de pessoas, reunidas na área industrial de Lamezia Terme, 589 km a sul de Roma, o Papa falou de uma “terra sísmica, não só do ponto de vista geológico”, mas também de um ponto de vista “comportamental e social”.

“Uma terra onde o desemprego é preocupante, onde uma criminalidade muitas vezes selvagem fere o tecido social, uma terra na qual se tem a contínua sensação de estar em emergência”, afirmou, a respeito da Calábria, região mais a sul da Itália continental, com mais de 2 milhões de habitantes e berço da “Ndrangheta”, a Máfia calabresa, tida como uma das mais poderosas da Europa.

Na sua 25.ª viagem em solo italiano, Bento XVI apelou aos presentes para não colocarem em primeiro lugar as “preocupações materiais” e a viverem um “profundo amor a Deus e ao próximo”.

O Papa disse querer partilhar “alegrias e esperanças, cansaços e compromissos, ideais e aspirações” desta população, admitindo que na região meridional da Itália “não faltam dificuldades, problemas e preocupações”. “Estou certo de que sabereis superar as dificuldades de hoje para preparar um futuro melhor. Não cedais à tentação do pessimismo”, pediu.

Aos católicos, em particular, Bento XVI sublinhou a importância de um trabalho “moderno e orgânico” para enfrentar uma nova realidade social e religiosa, “diferente do passado, talvez mais carregada de dificuldades, mas também mais rica de potencialidades”.

Nesse contexto, saudou a escola de Doutrina Social da Igreja, na diocese, deixando votos de que a mesma dê origem a uma “nova geração de homens e mulheres capazes de promover não tanto interesses particulares, mas o bem comum”.

A segunda parte da visita decorreu na cidade de Serra São Bruno, localidade que se desenvolveu em volta da cartuxa de Santo Estêvão, devendo o seu nome ao fundador da Ordem dos Cartuxos, em 1084, na cidade francesa de Grenoble.

Papa alerta para risco de viver

a “virtualidade” em vez da realidade

Bento XVI elogiou aos mosteiros de clausura e o “silêncio”, alertando para o risco de a “virtualidade” se sobrepor à “realidade” nas sociedades contemporâneas. “O progresso técnico, nomeadamente no campo dos transportes e das comunicações, tornou a vida do homem mais confortável, mas também mais frenética, por vezes convulsa”, disse, na homilia da celebração de vésperas a que presidiu na cartuxa local.

Segundo o Papa, nas cidades de hoje “raramente há silêncio”, mesmo durante a noite, e o desenvolvimento dos meios de comunicação “difundiu e ampliou um fenómeno que já se sentia nos anos 60: a virtualidade que se arrisca a dominar a realidade”.

“Cada vez mais e sem perceber, as pessoas estão imersas numa dimensão virtual, por causa das mensagens audiovisuais que acompanham as suas vidas noite e dia”, principalmente os jovens, apontou Bento XVI. “Trata-se de uma tendência que sempre existiu, especialmente entre os jovens e nos contextos urbanos mais desenvolvidos, mas hoje alcançou um nível tal que se pode falar de mutação antropológica. Algumas pessoas já não são capazes de permanecer em silêncio e sozinhas”, alertou o Papa.

Na sua homilia, Bento XVI falou do carisma da Ordem dos Cartuxos, cujos religiosos vivem em silêncio e na clausura, declarando que cada mosteiro, feminino ou masculino, é um “oásis”, mostrando à sociedade de hoje que “o silêncio e a solidão são necessários”.