Papa pede a crentes e não crentes que façam cair as “barreiras do medo”

Em Paris, nos dias 24 e 25, decorreu a primeira sessão do Pátio dos Gentios. Na mensagem final, Bento XVI disse que cabe a cada um de nós “reencontrar o caminho do diálogo”.

Uma videomensagem de Bento XVI encerrou na sexta-feira, 25, a primeira iniciativa internacional do «Pátio dos Gentios», com o Papa a desafiar os crentes e não crentes a fazerem cair as “barreiras do medo do outro”.

No momento conclusivo do lançamento desta nova estrutura do Vaticano, o Papa falou a todos os que se tinham reunido junto da catedral de Notre Dame, em Paris, sublinhando que o medo daquele que “não se parece” com cada um “nasce da ignorância mútua, do cepticismo ou da indiferença”.

“A primeira atitude ou acção que podeis fazer em conjunto é respeitar, ajudar e amar qualquer ser humano, porque é criatura de Deus e, de certa forma, um caminho que leva até ele”, disse.

A iniciativa conclui-se no adro da catedral de Notre Dame, com uma vigília de diálogo, música e teatro, especialmente direccionada para os jovens, a quem Bento XVI desafiou a “derrubar as barreiras do medo do outro, do estranho”.

“Tornai-vos atentos para estreitar os laços com todos os jovens, sem distinção, sem esquecer os que vivem na pobreza ou na solidão, os que sofrem com o desemprego, atravessam a doença ou se sentem à margem da sociedade”, referiu.

A nova estrutura da Santa Sé para o diálogo com os não crentes incluiu, desde quinta-feira, a realização de um ciclo de três conferências sobre a relação entre a fé e a razão, com a presença de representantes da Igreja, filósofos, escritores e académicos. “Muitos admitem que não têm religião, mas desejam um mundo novo e mais livre, mais justo e solidário. Cabe a cada um de vós, nos vossos seus países e na Europa, reencontrar o caminho do diálogo”, declarou Bento XVI aos jovens reunidos junto da catedral parisiense.

“Trata-se de construir um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, no qual todos se devem sentir livres e iguais no seu direito de viver a sua vida pessoal e comunitária de acordo com as próprias convicções”, acrescentou.

Bento XVI lembrou que a imagem do pátio, o átrio da igreja, “lembra o espaço aberto sobre a esplanada próxima do Templo de Jerusalém, que permitia a todos, mesmo os que não partilhavam a fé de Israel, aproximarem-se do templo e fazer perguntas sobre a religião”.

Os dois dias de conferências e celebrações em Paris tiveram como tema de fundo «Iluminismo, religiões e razão comum”, promovidos pela nova estrutura permanente de “encontro e de diálogo” entre crentes e não crentes, sob a responsabilidade do Conselho Pontifício da Cultura.

Bento XVI concluiu a sua mensagem com um convite à participação na próximo Jornada Mundial da Juventude, em Madrid (16-21 Agosto), que estendeu mesmo aos que não acreditam em Deus. “No caminho do mundo novo que percorreis, procurai o Absoluto, procurai Deus, mesmo vós para quem Deus é o Deus desconhecido”, assinalou.

Depois da capital francesa, as actividades do «Pátio dos Gentios» vão passar por Florença (Itália), Tirana (Albânia), Estocolmo (Suécia), Berlim (Alemanha), Moscovo (Rússia), Quebeque (Canadá), Praga (República Checa), Chicago e Washington (EUA).

Ag. Ecclesia

Caminhos que levam ao amor e à beleza

As palavras do Papa coroaram uma jornada com um programa muito denso. De manhã, na Sorbonne, Julia Kristeva, entre outros, soube tocar em alguns pontos nevrálgicos da filosofia. Houve também um momento de forte emoção quando, numa intervenção posterior, uma leitura de Pascal provocou um aplauso. À tarde, no Institut de France, sede dos Imortais, François Terré notou que, se buscamos a “subversão”, podemos encontrá-la no Sermão da Montanha.

Ivano Dionigi, reitor do ateneu de Bolonha, ao qual foi confiada a conclusão, proferiu palavras a serem meditadas: “A política precede a economia e a administração: mas onde está hoje a política, a única capaz de antepor o bem comum ao «business» económico e ao interesse privado?” (…)

Depois, às 19h, enquanto ainda estava em curso a mesa redonda nos Bernardinos, iniciaram os diálogos, as animações musicais, as projecções de filmes, as danças dedicadas ao Cântico dos Cânticos, as meditações de Fabrice Hadjadj sobre Job.

Falou-se da existência humana no cosmos, da fragilidade do viver, dos caminhos que levam ao amor e à beleza. (…)

Armando Torno (jornal “Corriere della Sera”, 26-03-2011). Tradução de Moisés Sbardelotto / Unisinos