A Árvore de Zaqueu Mãe de Jesus tinha mesmo jeito para levar o filho! Até fez de conta que não se lembrava do que lhe tinha custado vê-lo a fugir de casa aos 12 anos, e da estranha resposta com que ele se justificou, ao estilo de um adolescente cheio de si. E agora, homem feito, volta a mostrar-se longínquo… (e não se ficou por esta: quando um dia lhe vieram dizer que a mãe e irmãos o procuravam, respondeu que «quem fizer a vontade de meu Pai que está no Céu, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» – Mateus 12, 46-50). Sinceramente: no meio de uma festa de casamento, não poderia falar com mais jeitinho com a mãe – logo ele que foi conhecido por ser de boas palavras com toda a gente?
Contudo, a resposta de Jesus era corrente (e ainda é) para dizer que o assunto não lhes dizia respeito (o termo «mulher» não era depreciativo na cultura grega, em cuja língua foi escrito o Novo Testamento) e que não parecia o momento oportuno para agir.
Por outro lado, nesta passagem, é expressivamente destacado, pela positiva, o jeito singelo e feminino da Mãe de Jesus e como as dicas que ela deixou aos serventes revelam plena confiança na bondade, inteligência e poder do seu filho. E no final, como não podia deixar de ser – ou não haveria história… – o melhor vinho foi o que resultou desta conversa!
Simbolizava-se, assim, a supremacia da «boa nova» trazida por Cristo. Aliás, para o autor do 4.º evangelho, a dimensão simbólica das palavras e dos factos é fundamental: o que interessa são as ideias e valores veiculados no que foi descrito como um facto (mais ou menos histórico) – e o que importava sublinhar era o sentido da missão de Jesus como «o Cristo (o Ungido, o Eleito) de Deus».
Uma lição desta cena pitoresca é que nos devemos acautelar com a ingerência de familiares ou de amigos, quando pode ficar em causa o bem comum – é o bem comum que permite as melhores respostas às conveniências pessoais.
Mas também se fala, neste domingo, da «nova Jerusalém»: dela diz Isaías que se hão-de invejar a justiça e a glória. O termo hebraico traduzido por «glória» significa o «peso» de uma coisa, o seu valor real, a sua importância; o renome e a fama são apenas uma consequência. O termo «justiça» aplica-se a Deus como modelo supremo de toda a integridade; e aplica-se aos outros seres na medida em que estes reflectem a justiça divina. É esta a cidade humana «com que Deus quer casar»: uma cidade onde os habitantes se esforçam por melhorar os seus próprios dons, que, quanto mais diversos, maior riqueza total irão produzir (2.ª leitura).
Deus revela-se o maior fã possível do amor humano: trata essa «cidade» como a namorada que um dia há-de ser sua noiva (apesar de muitas vezes ser infiel – basta ler os Profetas!); e Jesus compara o reino de Deus à mais festiva das bodas (Mateus 22, 1-14).
No evangelho de hoje, Jesus como que é forçado, pelas peripécias de um vulgar casamento, a «mostrar o que vale». Nos termos do próprio evangelista, deu-se aqui «o começo dos sinais» de Jesus – é o único evangelista em que o conceito de «milagre» é expresso pelo termo «sinal» (em grego «semeion», donde deriva «semântica»). Enquanto «milagre» foca a atenção na estranheza do acontecimento (ou na manifestação de «poder»), «sinal» aponta directamente para outra realidade que importa conhecer para não trabalharmos apenas com as aparências.
O casamento é a festa do confronto entre a riqueza do homem e a riqueza da mulher, gerando novas combinações e virtualidades, a caminho de uma também nova humanidade. É a combinação dos jeitos. Não há projectos sãos e duradoiros sem honesta união de projectos pessoais e sem cultivar a alegria – para o que dá jeito o bom vinho quando usado com jeito…
A abundância de vinho é, na Bíblia, símbolo de uma época florescente. E o vinho aparece no princípio e no fim (última ceia) dos evangelhos: como símbolo estimulante da vida, da amizade e do amor e do «testemunho de sangue» de quem viveu a abrir horizontes e a fomentar estratégias de paz e de alegria (ideias tão batidas como levadas pouco a sério), e a construir uma cidade onde os seres humanos descobriram o jeito de se sentar à mesa com o próprio Deus.
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
(Este texto não segue o novo Acordo Ortográfico)
