Para acabar com a solteironice

O que diz… Frei Fernando Ventura, frade franciscano capuchinho, esteve no Centro Universitário, na noite de 7 de março, para mais uma tertúlia do Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro. Autor de “Do eu solitário ao nós solidário” (ed. Verso de Kapa), com o jornalista Joaquim Franco – com quem prepara mais um livro -, o franciscano de 52 anos, natural de Matosinhos, apelou à transformação de cada um, da solteironice à solidariedade, à fraternidade. Talvez algumas expressões tenham chocado os ouvintes, ou agora os leitores, mas se fizerem pensar em mais solidariedade e ação, acertam no alvo. Texto de Jorge Pires Ferreira.

Solteironice. O que é?

Solteironice não vem nos dicionários. Mas é palavra que existe, pelo menos desde quarta-feira passada. E agora passa a escrito (uma busca na Internet deu zero resultados). Da comunicação de Frei Ventura, deduz-se que não é um estado civil para além do solteiro (solteirice existe), casado, divorciado, viúvo. Não é um estado de vida. É mais um modo de vida e pode coexistir com qualquer um dos estados de vida. Solteironice é viver centrado em si próprio, ignorando o próximo (o de casa, o vizinho, o do bairro) e o distante (o moçambicano, o santomense, o das lixeiras de Bombaim). Em resumo, a mensagem de Fernando Ventura foi um apelo a deixar o eu solitário para entrar no nós solidário.

Insolidariedade

Num frágil equilíbrio entre sensibilidade e sensacionalismo, a raiar a demagogia, Frei Ventura defendeu um nexo causal entre a especulação económica internacional, e também o “eu ir de férias”, e o aumento da pobreza no terceiro mundo, exemplificado com os milhares de pessoas que procuram comida na lixeira de Maputo, onde “cada camião que chega é uma travessa de comida fresca”. Num súbito aumento dos cereais nos mercados internacionais atirou milhões para a fome. Os emigrantes africanos afogam que nem gatos no Mediterrâneo, tentando alcançar a ilha [italiana] de Lampedusa”.

Da centralidade para a periferia

Conhecedor das línguas bíblicas (foi tradutor dos livros de Rute e Judite, na chamada “Bíblia dos Capuchinos”, que muitos têm em casa), Frei Ventura pontuou as suas palavras com passagens bíblias conhecidas de todos, por vezes com piadas à mistura. Se por um lado, “o Sr. Adão de Barros e a Sr.a Eva da Costa”, após o pegado originante, “porque originais já há poucos”, fizeram uma tanga para criar distância entre eles – “se estavam «de tanga», deviam ser portugueses”, comentou -, por outro, com o episódio de Emaús, a distância entre os discípulos encurta-se. Caminhando da centralidade de Jerusalém para a periferia, Emaús, os discípulos são acompanhados por Jesus, que se aproxima, “mas não fala”, põe-se a caminho com eles, “mas não fala”. Entra em empatia com os discípulos e só depois fala. E eles, que “não tinham percebido nada na Última Ceia”, compreendem finalmente que é Jesus que está na Eucaristia de Emaús. “Estamos num tempo de urgência urgente da eucaristização da história. Temos de ir da missa à vida”, disse. Os cristãos, realçou, têm de perder o medo dos impossíveis, dos rótulos na testa, das convenções”.

Outras eucaristias: acolhimento e divisão

Como no Evangelho de João não há relato da instituição da Eucaristia, ao contrário dos três sinóticos, Frei Fernando Ventura relacionou a Eucaristia com o episódio do lava-pés. Perguntou: “O que faz Jesus no lava-pés?” Alguns dos presentes responderam: “Serviço”. “Deixem-se de peneiras teológicas”, contrariou o conferencista (noutro momento, disse: “Não há aqui catequistas? Graças a Deus, não costumam vir a esta coisas”; mas havia catequistas no salão do Centro Universitário), argumentando pela ideia do acolhimento, própria da cultura hebraica e dos povos de longas caminhadas ao sol e ao pó. Invocou, por outro lado, o episódio, também joanino, da multiplicação dos “cinco pães e dois peixes” de um rapazito, para realçar que o milagre da multiplicação é um milagre de divisão e partilha dos bens. “Na aritmética de Deus, para multiplicar é preciso dividir”.

Deus casado

Continuando a provocar a audiência, Frei Ventura lançou perguntas sobre o “estado civil de Deus”. “Como começa Deus no princípio da Bíblia? Como está Deus quando termina a Bíblia, no final do Apocalipse? Deus começa solteiro e termina casado na Bíblia. «O Espírito e a esposa dizem: Vem!» Casou com quem? Com a Igreja!? Coitado. Com toda a criação. Com a humanidade, com todas as religiões, até com os católicos. Deus é poligâmico. Sabem qual é o contrário de poligamia? Monotonia”. Compreende-se a ideia. Com Deus termina a solidão humana. “E a nossa missão, afirmou, é preencher a solidão com fraternidade”. “É preciso chorar porque se ama. Mas é pecado não amar para não chorar”.

Água choca no inferno

Porque a nova ecologia é a solidariedade e a nova ética é a fraternidade, o conferencista repudiou os que não fazem barulho nem ondas. “Pode chatear o barulho dos maus, mas incomoda muito mais o silêncio dos bons”, disse, citando uma frase que, com formulação similar, é de Martin Luther King. O drama de Caim, “o que tem”, e Abel, “o que é nada, buraco”, com Caim a dizer que “se está nas tintas para os seu irmão”, é do drama do mundo de hoje. O medo de fazer ondas. O inferno não é um fogo permanente, mas um “poço de água choca até ao queixo”. “Quando chega alguma alma, todas dizem: Não faças ondas”.

Os que choram

No mesmo sentido, as Bem-Aventuranças podem ser o texto mais perigoso e revolucionário ou o que mais serve para criar ateus e fazer “terrorismo religioso”. Este terrorismo acontece quando os “profissionais da esperança adiada” dizem perante uma dificuldade ou dor: “Paciência. Deixe lá. É a vontade de Deus”. Nas Bem-Aventuranças, face positiva do decálogo dos nãos, os pobres em espírito (ou através do espírito, por causa do espírito) não são miseráveis mas os que “reconhecem que tudo o que recebem é de Deus”. Bem-aventurados os que choram, não porque “se não choras, não mamas”, mas porque “só chora quem ama” – insistiu. Na linha dos três R da ecologia, é preciso “reduzir o ódio”, “reciclar o mau feito”, “reutilizar a capacidade de dizer «gosto de ti»”.

Teoria das pulgas

Para aumentar a solidariedade, para incentivar a cidadania, para reformar o sistema, frei Ventura defendeu a “teoria das pulgas”. “A pulga não para o comboio, mas chateia o maquinista. Temos de treinar muitas pulgas para chatear muitos maquinistas”. Em vez de sermos gente com “deus na barriga”, transformados em talibãs, podemos ser “gente com gente para que cada vez mais gente seja gente sem deixar de ser pessoa”.