Para falar das religiões e saber do que se fala

Anselmo Borges

Religião e Diálogo inter-religioso

Imprensa da Universidade de Coimbra

136 páginas

Quando este livro saiu, em Setembro de 2010, Fr. Bento Domingues escreveu no “Público”: “Anselmo Borges acaba de publicar, sobre esta problemática [diálogo inter-religioso], um livrinho que é, verdadeiramente, uma obra-prima. Se me irrita o prazer que alguns jornalistas manifestam em situar Portugal na cauda da Europa, não escondo que também me irrita a ignorância que observo, entre nós, na abordagem do fenómeno religioso. Já não há desculpa. Gostaria que este livro de bolso fosse a companhia de todos os que desejam saber do que falam, quando falam de religião” (12 de setembro de 2010).

Quem diz jornalistas diz professores, catequistas, sociólogos, psicólogos e até teólogos ou outras pessoas minimamente atentas à cultura – e não apenas à religião –, como justifica Umberto Eco num texto citado neste livro para defender a presença da religião, das religiões em geral e não apenas do cristianismo – na escola pública: “Nas escolas italianas, Homero é obrigatório, César é obrigatório, Pitágoras é obrigatório, só Deus é facultativo. Se o ensino religioso se identificar com o do catecismo, católico, no espírito da Constituição deve ser facultativo. Só lamento que não exista um ensino da história das religiões. Um jovem termina os seus estudos e sabe quem era Poséidon e Vulcano, mas tem ideias confusas acerca do Espírito Santo, pensando que Maomé é o deus dos muçulmanos e que os quacres são personagens de Walt Disney” (p. 95).

Compreende-se o entusiasmo de Bento Domingues. Este “Religião e Diálogo inter-religioso” é uma magnífica síntese sobre o religioso e o sagrado, as práticas religiosas e o ateísmo, o diálogo inter-religioso e a procura da paz, os fundamentalismos e a violência, a secularização e a religião na escola pública, a verdade e a revelação em todas as religiões, a exclusividade e complementaridade das religiões.

Após notar que a humanidade está num “período axial” (expressão de Karl Jaspers), de quatro grandes transformações, Anselmo Borges, professor da Universidade de Coimbra e padre da Sociedade Missionária Boa Nova, realça que “nada indica que as religiões estejam em vias de desaparecimento (p. 16). E dá números. Apresenta de seguida diversas definições de religião e caracteriza não só a prática religiosa mas também o ateísmo, invocando o filósofo francês A. Comte-Sponville. Não é irrelevante a particularização. Comte-Sponville, com a razão de afirmar que crê que Deus não existe (escreve Borges citando o filósofo francês: “Se alguém disser que sabe que Deus não existe, «não é em primeiro lugar um ateu, mas um imbecil», do mesmo modo que, se alguém disser que sabe que Deus existe, «é um imbecil que toma a sua fé por um saber». Cada um com as suas razões, tanto o ateu como o crente, têm fé”), é exemplo daqueles que procuram uma espiritualidade sem Deus, “no quadro de um certo tipo de experiência mística, feito de evidência, de plenitude, silêncio, experiência oceânica, simplicidade, eternidade”.

A segunda parte deste livrinho (136 páginas de pequeno formato) será possivelmente a mais útil numa sociedade globalizada como a nossa, em que se coloca mais a questão inter-religiosa (diálogo entre religiões) do que a ecuménica (diálogo entre confissões cristãs). Na realidade, todos os dias chegam pela TV quer notícias de confrontos que têm por base o fundamentalismo religioso, principalmente islâmico, quer o fascínio pelas espiritualidades e filosofias orientais. Mas não há qualquer problema com as confissões cristãs, cuja desunião é uma questão mais de hierarquias do que de bases crentes.

Apresentando três modelos de relacionamento entre religiões (o exclusivismo, que diz que só uma religião é verdadeira; o inclusivismo, que sustenta que só uma é verdadeira, mas as outras têm elementos da verdade e da salvação; e o pluralismo, que diz que todas as religiões participam da salvação de Deus), o autor opta pelo terceiro, reconhecendo evidentemente que o diálogo não é fácil. No diálogo, valerá principalmente o princípio: “Todas as religiões, desde que não só não se oponham ao Humanum, mas, pelo contrário, o afirmem e promovam, são reveladas e verdadeiras” (103), que é, no fundo, o que vem no capítulo 25 de Mateus (“Quanto te viemos com fome e te demos de comer?”) A este propósito, Anselmo Borges recorda com dois místicos cristãos o que deverá ser importante em qualquer religião. Disse Mestre Eckhart (1260-1328), frade dominicano: “Se alguém estivesse num êxtase como S. Paulo e soubesse que um enfermo precisava que lhe levasse um pouco de sopa, eu consideraria muito melhor que por amor abandonasse o êxtase, servindo o necessitado com um amor maior”. E Ruysbroek (1293-1381), outro místico, um pouco depois, afirmou: “Se estás em êxtase e o teu irmão precisa de um remédio, deixa o êxtase e vai levar o remédio ao ter irmão; o Deus que deixas é menos seguro que o Deus que encontras”.

J.P.F.