João, diácono em Ílhavo, Kátya, professora de Esgueira, e Marisa,enfermeira de Cacia, relatam-nos as suas vivências missionárias em Moçambique
Moçambique: um mundo diverso, onde nem o português consegue ser língua mãe. Tivemos a felicidade de vir para uma das zonas mais pobres deste país, onde o calor atinge temperaturas altas. Aterrá-mos num aeroporto pobre e à nossa volta víamos aquelas aldeias típicas africanas, de barro e capim. Muita gente na estrada, a pé e de bicicleta; passavam também pick-ups (como as nossas) e camiões para o Malawi e a Zâmbia (nossas vizinhas). Chegámos a Moatize. A casa onde ficámos é da Missão Salesiana e, como nos tinham dito, é a Missão mais pobre. Não nos tem faltado nada daquilo que é básico. Os primeiros dias foram de contacto com as pessoas e com a zona: tivemos vários encontros e visitámos várias comunidades do mato. As pessoas parecem um pouco distantes mas; depois de iniciarmos uma conversa, até se mostram simpáticas e acolhedoras.
Fizemos de tudo um pouco: acção de formação a professores e orientação pedagógica; sensibilização para a higiene oral e corporal nas escolas; apoio a diversos grupos paroquiais; visita às comunidades do mato e celebrações da palavra. Acabámos de passar um fim-de-semana em algumas comunidades junto à fronteira com o Malawi. Experimentámos a pobreza quase extrema do povo, mas também a sua generosidade, hospitalidade e firmeza de fé. As celebrações são longas e, para quem está habituado a ‘ter missa’ cronometrada, até são um pouco cansativas; mas a alegria e a simplicidade fazem-nos esquecer o tempo. Visitámos comunidades onde o padre só passa de dois em dois meses e, algumas até, poucas vezes num ano, mas que estão organizadas e subsistem sem a presença habitual do padre.
Nas escolas por onde passámos falta quase de tudo, ou melhor, talvez seja mais fácil dizer o que têm: uns troncos a servir de bancos, uma mesa para o professor (que faz imensos quilómetros de bicicleta, por caminhos difíceis, e que apresenta muitas vezes falta de interesse pelo que faz), um quadro (ou em alguns casos, meio quadro) e umas estacas ao alto com um tecto em capim. Eis as nossas escolas cheias de crianças.
O hospital de Moatize é aquilo que não é um hospital: sujo, com fracas condições e, talvez, pouco mais que o sentido meramente profissional de quem lá trabalha. A religiosa que nos acompanhava trabalhava lá e era uma lufada de ar fresco naquele ambiente. Infelizmente visitámos o hospital provincial e o ambiente era degradante.
Sentimos a injustiça deste mundo em que vivemos. Uma criança vai de urgência ao hospital e no dia seguinte os pais estão na missão a pedir quatro euros para pagarem a despesa do filho, porque não têm. Como podemos dormir descansados quando há gente a morrer de fome, de falta de dinheiro? Como podemos viver descansados quando há gente que vai para a cadeia por injustiça? Encontrámos alegria no rosto das crianças, força e coragem nos mais velhos, pureza de vida em algumas aldeias no mato, encontrámos alegria e dedicação de muita gente… Encontrámos pouca vontade política de construir um mundo mais justo, mais fraterno e mais solidário. Encontrámos os vícios próprios de um mundo global, onde em qualquer esquina se vende coca-cola, onde a Sida mata mesmo e também é dos ‘negócios’ mais lucrativos, onde o ‘deixa andar’ é lema, onde há gente que nos olha de lado e nos chama ‘muzungu’ (que quer dizer ‘branco’). No meio desta realidade, fazemos a experiência de Igreja, partilhamos a mesma fé, e a fé que nos une também aos irmãos luteranos, metodistas, muçulmanos. Fazemos a experiência de uma igreja pobre e rica, onde existe gente que se dedica e onde existe gente que procura apenas o seu interesse, onde às vezes se está com os mais pobres e onde, por vezes, interessa estar com o poder; sentimos uma Igreja aberta ao espírito evangelizador, mas também tolhida por hierarquias de poder.
É este o nosso mundo…muito diferente e muito semelhante.
João, Kátya e Marisa
