Partilha de recursos

É sabido que a terra tem ainda recursos para todos, para proporcionar patamares de vida digna, se bem que a realidade se cubra de densas sombras com os desníveis de fruição dos bens: alguns com quase tudo e uma mul-tidão incontável com nada, porque o pouco repartido por tantos desaparece sem se notar.

Em tempo de Quaresma, as mudanças interiores que é urgente fazer – a conversão! – passam por uma fruição sóbria dos bens, no intuito de contribuir para a equidade da repartição de recursos, que desenhe contornos de vida aceitável para todos.

O II Sínodo de Aveiro dedicou uma das suas reflexões, propostas e decisões precisamente à partilha de bens e serviços. Recordar poderá espevitar-nos a consciência para tentar viver o que votámos.

“O cristão mantém com os bens materiais, naturais ou produzidos, uma relação nova, própria de quem se torna discípulo de Cristo pelo Baptismo e vive a comunhão que Deus nos confia. A novidade desta relação está no apreço com que são valorizados esses bens, na ética do trabalho e do comércio que estabelece regras para a sua produção, distribuição e administração, no estilo de vida sóbrio e digno de quem os possui, os usa e os partilha. O cristão testemunha, assim, a solidariedade que, em nós, o Espírito vivifica e assume responsavelmente a participação na missão que Cristo nos entrega. Vive, de facto, como discípulo que reproduz, a seu modo, as atitudes do Mestre.”

Trata-se de uma novidade de relação com os bens, com incidências claras no comportamento social que a posse, uso e distribuição dos mesmos implica para aqueles que querem ser fiéis ao Mestre. Nesse sentido, a Igreja tem de se apresentar como reserva crítica da humanização no uso dos bens, como fermento da sociedade civil, como laboratório exemplar desse mesmo uso e com o empenhamento de movimentos e grupos que dêem forma a atitudes e estruturas de humanização e solidariedade.

E não serão poucas as vertentes da própria vida da Igreja em que o seu papel de testemunho se torne processo educativo, para os seus membros e para quantos nela põem os olhos. O desprendimento no uso, a efectiva partilha em prol dos mais necessitados, das Igrejas irmãs, serão, sem dúvida, “fermento de comunhão solidária, de serviço fraterno e de voluntariado generoso”.

Querubim Silva