Partos de dores que geram amores

Uma pedrada por semana Nem tudo o que nasce vê a luz nas maternidades. Na vida, gerar é também alimentar, estimular, ajudar a crescer, ajudar a ser gente que pensa e que fala. São tanto pessoas como coisas. Sempre de estimação. Dão alegrias e dores. Fazem parte da vida de muita gente, têm família alargada. De uns que já partiram, de outros que ficaram. Todos amaram a seu modo. A notícia da morte tem eco segundo os amores que nos ligam.

Eu sei que o tempo obriga a mudanças. Nem por isso se sofre menos, quando as mudanças decretam que “acabou”. Palavras de circunstâncias nunca falam de definitivo.

Chegou-me de Lisboa um telefonema de pesar e indignação “Acabaram com o nosso jornal!” Eu não sabia, nem imaginava. Daí a minutos pude certificar-me. E lá vinham, bem explicadas, as razões. Entendi, mas não deixou de me assomar ao canto do olho a lágrima teimosa da saudade de um amor de muitos anos e de muitas lutas. O dinheiro mandou que partisse e o seu nome não deixa que regresse. Triste fadário!

Passou num ápice, como em filme, tudo o que me liga a este jornal, como parte longa da minha história. Amores antigos que perduravam. Por ele, embora não só por ele, continuei presente na cidade, que nunca esquecerei, nunca deixarei de amar…

Ele já tinha 126 anos e, agora, até chegava remoçado.

É tão importante um jornal para a missão da Igreja – os tempos do PREC bem o quiseram calar, a ele e a tantos outros – que só me resta desejar que das cinzas renasça luz. A vida não se lê por completo se não se pode levar aos outros a leitura feita.

Eu que não sou um nostálgico, fico a perguntar-me se vale a pena amar tanto o que ao longo de uma vida de lutas e projectos, nos foi saindo da alma, da dedicação sem limites, das noites perdidas, dos sonhos acalentados. O que foi muitas vezes parto doloroso, mas sempre início e compromisso de vida…

Cai à nossa volta tanta coisa que amamos! Umas vezes cai por si, outras por um ansioso afã de mudança. Por vezes, tanto por esperança de melhor, como por cansaço do mesmo…É assim. Nem todos podem ter memória de tudo.

Eu sei que quem decide também sofre e o sofrimento alargado até pode gerar vida. Nem todos os partos são indolores, mas todos podem gerar amores.