D. Francisco João Silota é bispo de Chimoio, diocese moçambicana com cerca de 61 mil km2 (área equivalente a dois terços de Portugal) e um milhão de habitantes. Os católicos são 75 mil e a diocese tem 25 padres. Em Portugal, a convite da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (FAIS), D. Francisco Silota, que é também vice-presidente do Simpósio das Conferências Episcopais de África e Madagáscar (organismo que reúne representantes dos bispos de todo o continente), passou por Aveiro e conversou com o Correio do Vouga, numa altura em que se comemora Dia Mundial das Missões (próximo domingo), sobre a sua diocese, a cooperação entre igrejas e países, a democracia em África e a inculturação.
D. Francisco Silota, como é a sua diocese e o seu povo?
A minha diocese vai do rio Zambeze, no Norte, ao rio Sabe, no Sul. A população é um pouco mais que 1 milhão, em 61661 km2. Feliz ou infelizmente, desta população toda, só 75 mil são católicos baptizados, 7,5 por cento da população. Os outros são de outras dominações cristãs, muçulmanos e da religião tradicional, os chamados “animistas”. Mas que é isso de animista?
Não é essa a designação habitual?
Quando dizem “animista”, interrogo-me. Nós, cristãos, até certo ponto somos animistas. Temos as nossas petições através dos nossos irmãos já mortos. Acreditamos na comunhão dos santos. Temos o Dia de Todos os Santos. O nome de animismo está baseado na incompreensão de alguns antropólogos. Foram a África, por pouco tempo, viram as pessoas a fazerem libações, talvez a pronunciação de nomes familiares, e pensaram que os africanos adoram os espíritos. Ou ofere-cem sacrifícios aos espíritos. Não adoram os espíritos. Veneram os antepassados. Os sacrifícios não são entregues finalmente aos espíritos, mas a Deus. Os espíritos servem de intermediários. O mesmo se passa na sociedade africana. Se temos um chefe com os seus conselheiros e alguém traz um presente, não vai entregá-lo directamente ao chefe. Há sempre trâmites até chegar ao chefe. E o chefe também não entrega nada directamente à pessoa. Essa mediação está em todo o lado. Alguns não compreenderam bem os africanos, daí chamaram “animistas”. Hoje fala-se mais em “religião tradicional”, que em alguns lados está mais formalizada.
Como vê a cooperação entre igrejas, por exemplo, com o envio de jovens em experiências missionárias ou o acolhimento de padres africanos em Portugal?
Na minha diocese não temos jovens voluntários de Portugal ou de outros países. A ideia, como ideia, apoio-a muito. A Igreja, por definição, deve ser uma comunhão. Que haja cooperação, é normal. Em Novembro passado estivemos – parte dos bispos de África e dos bispos da Europa – reunidos [em Lisboa] para trabalhar nessa comunhão, para manifestar essa solidariedade. Formar uma Igreja que seja família e solidadiredade – isso é que é a globalização em sentido positivo. Todos trabalharmos juntos e para o mesmo fim. Estaríamos a reproduzir as primeiras comunidades, em que tudo era para todos e todos para cada um. Não havia essa tentação que todos nós temos: uns mais privilegiados e outros mais pobres, uns superiores e outros inferiores. Algumas dioceses estão a fazer geminações. Isso é positivo, dependendo dos acordos que fazem.
Pode haver alguma tentação de superioridade entre igrejas, algum colonialismo encapotado?
Se, de facto, o que vai para ajudar olha de cima para baixo, como superior, ah, isso é perigoso. Mas temos de tentar aquela solidariedade de que falamos em Novembro. O trabalho vai demorar muitos anos. Vamos tentar como irmãos. Entre irmãos, um é mais capaz disto, outro é mais capaz daquilo, mas cada um contribui para todos. Aí, dificilmente acontece o espírito de paternalismo, que é muito perigoso. Pode haver uma manipulação indirecta. Queiramos ou não, se aquele que ajuda não tem intenção clara, o dinheiro acaba por mandar mais. O dinheiro influencia a linha de poder de um país e o mesmo acontece na Igreja. Isso não. Uma ajuda na comunhão deve conduzir-nos a responder aos desafios encontrados localmente. Não pode perturbar o movimento da igreja local.
Como é a situação social na sua diocese? Há notícias que nos dizem que Moçambique está a crescer muito em termos económicos. Isso nota-se no seu povo?
Bom, meu irmão, é difícil responder, sobretudo agora que temos muita gente a padecer de fome e de sede por causa da seca. Grande parte de Moçambique – e mesmo da África Austral – tem problemas de fome. Na nossa diocese temos cinco distritos mais afectados, três no Norte e dois no Sul. Na parte Sul, desde Abril, devia ser tempo de colheitas, mas porque não choveu o suficiente, há gente que passa fome e sede. Andam 20 a 30 km em busca de água. Parece exagerado, mas é mesmo assim. A fome é uma realidade. Os membros da Assembleia da República deram voltas pelo país fora para verificar onde havia maior intensidade de fome. Algumas das zonas mais afectadas são da minha diocese.
Os relatórios internacionais dizem que Moçambique é dos países africanos com maior sucesso no combate à miséria…
Pode ser que os números da situação económica de Moçambique sejam positivos. Ou que as finanças dos bancos digam que a situação está a melhorar. Mas ainda há muita fome. O actual governo tem um programa de luta contra a pobreza absoluta, mas não me quero pronunciar, porque só tem meses. Como tudo é relativo, é possível que relativamente aos outros países de África, o movimento de baixo para cima seja maior em Moçambique. Mas o que constato é que a maioria da população é muito pobre.
Moçambique tem sido apontado como exemplo de transição da guerra civil para a democracia. A democracia está bem implantada? As feridas da guerra civil estão saradas?
Creio que as feridas, para ficarem curadas e cicatrizadas, vão levar muito tempo. De facto, está-se a tentar viver o espírito do acordo Geral de Roma, mas é difícil sair de uma situação que vivemos durante anos. Em 1990 saímos do regime monopartidário para o multipartidarismo. Mas a vivência do multiparditarismo e da democracia está cheia de questões. Que democracia? A imitação do ocidente? Se é isso, como vamos respeitar a tradição local? É uma questão que se põe. Que haja certas liberdades, é certo que há. Que as armas se tenham calado, sim. Mas, creio que o espírito de respeitar a liberdade de opinião de uma maneira completa ainda é um processo.
Considera que uma democracia africana seria algo de dife-rente de uma democracia ocidental?
Interrogo-me sobre isso. Podemos imitar e temos de estar abertos e acolher o que de positivo vem dos outros; senão, formamos um gueto. Devemos seleccionar, mas para seleccionar temos de ter raízes. Nesse caso, o que recebemos dos outros enriquece o que já temos.
Mas acredita que com uma ou outra adaptação será um regime que mais corresponde ao anseio dos povos… Isto é, pergunta pelo figurino da democracia, mas não a questiona…
Se é o respeito das liberdades e dos deveres, em que com responsa-bilidade há liberdade política, econômica e religiosa, concordo. Faz parte dos direitos humanos. Com uma democracia que seja o respeito pelos direitos humanos concordo a 100 ou 200%.
Veio a Portugal a convite da FAIS. Esta fundação tem colaborado com a sua diocese?
A FAIS, quer a delegação de Portugal, quer no sentido geral, tem-nos ajudado muito. No meu caso, há dois anos tive um problema sério com uma viatura. Em questão de horas conseguiram contactar França e de lá mandaram uma peça para o meu carro de dezassete anos, de forma a voltar a andar. Isto pode parecer uma coisa reles, mas se o bispo não tem com que se deslocar, como vai atender o seu povo? Sei que a Fundação ajudou a construir o Seminário Propedêutico da Beira, importante para que haja sacerdotes locais. Na nossa diocese, coisas como a fotocopiadora, a viatura para assistir a duas paróquias vizinhas, o salão do centro polivalente e a sua mobília, o financiamento de equipas pastorais… têm sido alcançadas graças à FAIS. Quem fala de Chimoio, fala de outras dioceses. A FAIS responde à ajuda requerida pelas igrejas locais. Uma mão samaritana como a da FAIS ajuda realizar os nossos anseios.
Qual a principal preocupação pastoral da Igreja moçambicana?
Estamos a tentar difundir uma Boa-Nova mais significativa. Julgamos que isso seria a implementação do que o falecido João Paulo II disse na sua primeira missa em solo moçambicano, em 1988. A ideia era esta: que a mensagem evangélica tenha sentido para o moçambicano, que seja vista como um bem, como algo que o enriquece. Daí o problema da inculturação. Estamos a tentar trabalhar de maneira a que o Evangelho seja inculturado. A inculturação é a coluna vertebral de toda a pastoral. Acreditamos que através da inculturação o Evangelho pode encarnar, e o Verbo pode habitar.
A inculturação leva a ter práticas e modos diferentes de ser Igreja?
Certamente. Dou um exemplo, em Portugal, quando a autoridade fala, a autoridade e os outros devem ficar de pé. Para nós, quando uma autoridade está a falar, o melhor é estar sentada. No Evangelho, Cristo é a autoridade. Agora, como raciocinar e trabalhar teologicamente, estando em comunhão com a Igreja universal, para que isto diga alguma coisa ao povo?
Está a sugerir que o Evangelho seja proclamado com as pessoas e o sacerdote (ou diácono) sentados… É um aspecto da liturgia, mas a inculturação passa por outros campos…
Sim, por muitos outros. Esse desafio surgiu no sínodo para África: que os teólogos trabalhem em vários campos. Não queremos fazer queixas do passado, mas muitas coisas foram como que uma imitação, sem ser claro porque fazemos desse modo. Já no Sínodo de 1974, quando se falou de evangelização, os bispos disseram que o tempo da teologia da adaptação já tinha passado. Agora é tempo da encarnação. O Evangelho tome o corpo das realidades africanas. É um trabalho sério e para o longo prazo.
Isso pode chegar aos costumes e às concepções, por exemplo, de família ou de matrimónio?
Pode ser, para ter sentido. Porque não? Para não ser só uma execução mecânica. O campo está aberto. O sínodo africano pediu aos teólogos que trabalhem em vários campos. Só assim a fé cristã pode ser assimilada, em vez de ser uma espécie de veste externa.
Para terminar, conheceu D. Francisco Nunes Teixeira, natural da diocese de Aveiro (falecido em 1999), que foi bispo de Quelimane?
Conheci-o, quando eu era seminarista. Ele foi secretário do Sr. D. Sebastião. Depois foi nomeado bispo quando se criou a diocese de Quelimane. Eu sou da diocese de Tete. Ele aparecia no seminário interdiocesano onde eu andava porque ia visitar os seus seminaristas.
PERFIL DO BISPO DE CHIMOIO
D. Francisco João Silota nasceu em 1941 em Zuoya. Passou por um seminário diocesano, mas entrou mais tarde para os Missionários de África, congregação também conhecida por “Padres Brancos”, o que lhe permite afirmar com bom humor: “Sou um Padre Branco preto”. Foi ordenado presbítero em 1974 e sagrado bispo em 1988. Desde 1990, quando a diocese foi criada, é bispo de Chimoio.
