P.e Carreira das Neves no Centro Universitário “Paulo vê mais longe e provoca uma revolução de 180 graus” no cristianismo nascente, afirmou Joaquim Carreira das Neves, padre franciscano e biblista, na conferência que proferiu há oito dias no Centro Universitário Fé e Cultura. “Sem Paulo, não estaríamos aqui”, defendeu. O cristianismo teria ficado na Palestina e poderia ter-se extinguido passados três ou quatro séculos, como aconteceu com outras correntes religiosas. Sem Paulo, o cristianismo seria um judeu-cristianismo muito apegado a Moisés.
De verbo fácil, perante um salão lotado, Carreira das Neves desmontou algumas falsas ideias sobre Paulo, a Bíblia ou mesmo o cristianismo nascente, que poderão ter deixado nos ouvintes a sensação de que a cultura bíblica, em geral, é muito pobre. Exemplos: Paulo não escreveu as treze cartas que lhe são atribuídas, mas apenas seis. As outras sete são da escola (ou seja, dos seguidores) de Paulo, mas não têm a mesma teologia e cristologia. Há cartas de Paulo que encerram em si várias outras. Por outro lado, o Livro dos Actos dos Apóstolos, escrito depois de Paulo, ignora as suas cartas. De certa forma, o Livro dos Actos tenta remendar a divisão que dilacerou o cristianismo primitivo (Paulo por um lado e alguns apóstolos, entre os quais está Pedro, por outro). Outro exemplo, ainda: as afirmações de carácter antifarisaico e antijudaico dos Evangelhos são reflexos da oposição entre a igreja nascente e os “irmãos mais velhos” (os judeus). Muitas foram postas na boca de Jesus.
Porque algumas destas afirmações poderiam deixar perplexos os ouvintes, o biblista sublinhou várias vezes: “Temos de ver estas coisas com os olhos de há dois mil anos e não com os de agora”. “Não podemos retirar os textos do contexto”. E: “Quando mais leio e mais estudo, mais acredito”.
P.e Carreira das Neves esclareceu que a vida de Paulo teve três períodos. No primeiro, Paulo foi um judeu íntegro, “um autêntico talibã”; no segundo, foi um cristão entre Jerusalém e Antioquia, com os apóstolos; no terceiro, prega sozinho, embora nunca se esqueça de Jerusalém. Sinal disso foram os peditórios que promoveu em favor da comunidade de Jerusalém.
Em resumo, qual o grande legado de Paulo? Levar ao mundo que “Jesus é o «Kyrie», o Senhor, e que a salvação vem pela morte e ressurreição de Jesus Cristo”, afirma Carreira das Neves, esclarecendo que São Paulo afirma isto contra a Lei de Moisés (“as obras da Lei”), contra a sabedoria dos filósofos gregos, contra a “Pax Romana”, o poder imperial num mundo pagão. Legado de Paulo é também a sua paixão evangelizadora. Paulo pensava que podia evangelizar o mundo todo durante a sua vida e que a plenitude dos tempos estaria próxima, defende Carreira das Neves. “E quanto mais sofria, mais se animava, mais coragem tinha”.
O mundo de Paulo era o império romano, à volta do Mar Mediterrâneo. O mundo de hoje é muito mais vasto, mas é igualmente marcado pelo paganismo, como no tempo do Apóstolo. “Hoje temos fome de exotismo e esoterismo”, disse o biblista, apontando romances e teorias de sucesso que se afastam ou deturpam a mensagem cristã. O nosso tempo, afinal, não é assim tão diferente do de Paulo. O mundo continua a procurar a salvação em correntes, teorias, modas, pessoas que não a podem oferecer. Como há dois milénios, Paulo não teria descanso nos nossos dias.
J.P.F.
