Carta Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) publicou uma Carta Pastoral, anunciada há meses, intitulada “Responsabilidade solidária pelo bem comum”. Trata-se de um documento em que denuncia os pecados sociais que caracterizam o nosso tempo e que têm a sua origem primeira “no coração da pessoa”, sem deixar de afirmar que há em Portugal sinais de participação solidária que importa implementar.
O documento, no fundo, é um expressivo e oportuno convite à reflexão, tendo por base os grandes princípios da doutrina social da Igreja. Lembra aos cidadãos a neces-sidade de participarem na construção do bem comum, o que exige uma nova responsabilidade moral na sociedade, uma confiança solidária e uma esperança renovada no nosso País.
Os egoísmos individualistas, o consumismo, a corrupção, a desarmonia do sistema social, a irresponsabilidade na estrada, a exagerada comercialização do fenómeno desportivo e a exclusão social são os pecados sociais apontados pela CEP e que é preciso combater, rumo a uma sociedade “mais justa, mais fraterna e mais solidária”. Nessa linha, “interessa ver a crise ou as crises com olhar confiante, discernir os problemas com análises responsáveis e assumir atitudes participativas e construtivas do bem comum”.
Mas se os pecados sociais são marcas indeléveis do nosso tempo, os bispos portugueses também reconhecem, nesta Carta Pastoral, sinais de participação solidária, que convidam a alimentar a esperança como dinamismo gerador de uma nova atitude de empenhamento na comunidade. E deles destacam uma nova atitude perante os problemas sociais, expressa no discernimento crítico, na denúncia e na participação nas soluções, na tomada de consciência da sociedade como comunidade cultural e na promoção de todas as formas de educação.
Alargando horizontes, frisam o incremento de tantas formas de voluntariado, a responsabilidade participativa de todos no campo da saúde, da habitação, da escola, da comunicação social, do emprego, da economia, da política e da justiça, a busca de nova identidade portuguesa e a construção de uma Europa baseada nos valores culturais e espirituais.
Como prioridades pastorais, a CEP aponta metas que devem alicerçar-se na “busca de caminhos e condições mínimas necessárias para uma sociedade justa e próspera”, onde o ser humano esteja sempre no centro; na defesa da vida, “que é um tesouro que é preciso conservar e promover sem o desvirtuar”; e na família, “a primeira e insubstituível escola de humanização e sociabilidade”.
Os nossos bispos salientam a importância da paz, porque “a guerra, ao trazer o sofrimento e a morte, é sempre um atentado à vida humana”; da solidariedade, porque “é necessário alimentar a esperança, face a situações de jovens sem trabalho. Recordam as pessoas com deficiência que estão marginalizadas e os idosos abandonados, mas também os países prisioneiros da fome e da miséria.
A identidade de Portugal, que é fruto da “ousadia de um Povo que, não se deixando limitar à sua pequenez geográfica, assumiu o primeiro grande projecto de universalidade, fazendo do diálogo e da convivência com os outros povos a verdadeira dimensão da sua vocação e da sua grandeza”, não foi ignorada neste documento da CEP.
F.M.
Dinamismos a renovar
Da esperança contra os pessimismos;
da confiança contra os derrotismos;
da participação contra os passivismos;
do empenhamento responsável no bem comum contra os refúgios nos individualismos;
do diálogo na procura de soluções para os problemas da nossa sociedade contra confrontos estéreis sem perspectiva de futuro;
da justiça e da opção pelos pobres contra as desigualdades;
do acolhimento dos estrangeiros e dos imigrantes contra as exclusões;
da promoção dos direitos humanos contra os atentados à dignidade humana;
da paz contra os terrorismos, conflitos e guerras;
da democracia participativa contra as ditaduras;
da reforma das leis e instituições públicas contra as estagnações;
do cuidado pelo ambiente contra os desastres ecológicos e comportamentos irresponsáveis;
da cultura da vida contra as culturas de morte;
da dignidade da vida contra as doenças e destruição do ser humano;
da paz social contra os ambientes de crise;
da solidariedade e da subsidiariedade contra os egoísmos e injustiças.
