“Peço a vossa solidariedade”

Cartas dos Leitores Carta do Pe Laurindo, missionário da Boa-Nova com origem em Vagos, pedindo a solidariedade dos leitores do Correio do Vouga.

Arquidiocese de Luanda, Paró-quia de Nossa Senhora da Boa Nova, 04 Janeiro de 2006

Queridos Irmãos e Irmãs e Amigos em Cristo Jesus, Paz e Bem

Eu, Pe. Laurindo Neto, Missionário da Boa Nova, desde que me ordenei sacerdote em 1972 até 1982 trabalhei em Angola, no Kuanza Sul. Gostei imenso de trabalhar com o povo angolano. Em 1982, através de “sequestro”, tive de deixar Angola com muita pena e emoção. Fui para o Norte do Brasil, Estado do Maranhão, onde trabalhei 19 anos; sempre na esperança de voltar para Angola, onde tinha ficado meu coração. Graças a Nossa Senhora de Fátima, chegou a hora de voltar para o meio do meu querido Povo angolano. No dia 05/11/05 cheguei a Luanda. Dia 06, domingo, já celebrei as 3 Missas das 7, 9 e 11 horas na matriz de Nossa Senhora da Boa Nova, onde irei viver e trabalhar em comunidade com o pároco, Pe. António Valente Pereira.

Esta paróquia foi criada a 01/10/1995. Fica no Km 12, à saída de Luanda para Catete, município de Viana. É uma paróquia de gente refugiada da guerra, vinda de toda a Angola. Tem a superfície de 240 km2 e a população de mais de 200.000 habitantes. Cada dia está aparecendo mais gente, procurando lugar para morar ou fazer a sua barraquinha. É impressionante ver todos os terrenos ocupados com casinhas construídas ou a construir, e o povo (homens, mulheres, jovens e crianças) a construir blocos de cimento para fazer a própria casinha. As casinhas ficam tão encostadas umas às outras que nem dá para fazer esgoto, rua, canalizar água ou electrificar. A paróquia vê-se obrigada a ir na frente, a preservar terreno e cercá-lo, para construção das futuras capelas, para o povo se reunir em comunidade; senão ficará sem terreno e as seitas tomarão conta do povo.

A paróquia, apesar de ter sido fundada só há 10 anos, cresceu demasiado… explodiu… e continua a explodir…

Tem 47 comunidades, onde o povo reúne e celebra o Domingo em comunidade e onde o padre de vez em quando vai celebrar Missa com o povo. A paróquia está dividida em 7 zonas.

Como o Governo não conseguiu dar resposta imediata às necessidades urgentes que esta situação explosiva provoca, as paróquias e congregações religiosas estão fazendo o possível para acudir a este povo carente, sobretudo no campo da educação e da saúde. No campo da educação, esta paróquia, com a colaboração do povo e dos benfeitores das Missões, está mantendo 36 professores, que ensinam 1703 crianças da 1ª à 4ª classe, até aos catorze anos; 26 professores, que ensinam 310 crianças e jovens na 5ª e 6ª classe e 432 adultos da 1ª à 4ª classe e 455 da 5ª à 6ª classe. Total: 2900 alunos e 62 professores. As salas para ensinar esta gente ainda não temos. Usamos as capelas, aonde há capela. Onde não há capela nem sala, ensinamos debaixo de árvores. Na matriz, começámos a construção de 8 salas, mas ficou só nas paredes, por falta de verba.

Nas comunidades, o povo está programando construir as capelas e salas. Pouco-a-pouco, estão fabricando os blocos de cimento. Quando chove, não é possível ter aulas. Até hoje, o governo não se decidiu a dar qualquer ajuda. E não basta ter as aulas. Precisamos as carteiras, quadros, mesas, livros e higiene. A paróquia forma os professores para que ensinem as pessoas na formação integral: Pessoa completa: Alma e corpo.

No campo da saúde, a paróquia abriu um posto médico com medicina alternativa, com 3 enfermeiros que atendem diariamente 110 consultas. Atendemos 1150 portadores de deficiência física (dos quais 450 são crianças). Estes portadores de deficiência física são atendidos nos estudos, consultas médicas, pequenos projectos, muletas canadianas, triciclos, arte e ofícios, reabilitação física, Computação. Atende tuberculosos, crianças desnutridas de 0 a 3 anos.

No campo pastoral a paróquia apoia:

– Comissão de Justiça e Paz, Pastoral da Criança, Promaica (promoção da mulher angolana da Igreja Católica), Vocacionados, Cruzada Eucarística, Legião de Maria, Apostolado da Oração, Filhos de Maria, Escuteiros, Pastoral da Família, Catequese, Juventude, R.C.C. e Pastoral Bíblica.

– Maiores necessidades:

• Portadores de deficiência física;

• Apoio aos catequistas que dedicam muito tempo aos trabalhos pastorais.

– Obras:

• Igreja na futura paróquia de Nossa Senhora de Fátima, na Sapú

• Legalização de terrenos

• Trinta capelas.

Graças a Deus que o povo Angolano é muito solidário e dá o que pode. Não se nega. Mas este povo desta paróquia da Boa Nova é refugiado. Não tem bens materiais; tem pouco emprego e muitos filhos. No Governo de Angola, ainda não entrou em vigor o subsídio social de apoio a idosos e inválidos. Por isso, os idosos e inválidos são um peso para as famílias e uma dor de alma para a paróquia.

Tudo isto que escrevi só se compreenderá bem se for visto. Não é fácil. Irei tirar algumas fotos para dar alguma ideia.

Todos estes trabalhos só são possíveis com a extraordinária colaboração dos Leigos. Deus seja bendito.

Com este meu desabafo, peço a vossa solidariedade na oração e, se possível, na ajuda monetária. É uma maneira de ser missionário à distância.

Desculpem este meu desabafo. Mas eu sinto-me unido a todos vocês. Obrigado. Recebei o meu abraço de união fraterna.

Pe. Laurindo Neto

Nota da Direcção: Se desejar responder ao apelo do Pe. Laurindo Neto, pode pedir informações pelo telefone 256 899 330 ou contactar o Reitor do Seminário das Missões de Cucujães, Apartado 40, 3721-908 Vila de Cucujães