pede-se aos alunos que escrevam, mas não se lhes ensina a escrever

Autor de “Introdução à Escrita Criativa” (ed. Colibri, obra recenseada no Correio do Vouga de 23 de Dezembro de 2009) e de vários livros de poesia e contos, João de Mancelos define-se mais como investigador do que como escritor ou professor que também é. Admirador do poeta Eugénio de Andrade, está presentemente a investigar, em pós-doutoramento na Universidade de Aveiro, a influência de poetas de língua inglesa na obra do autor portuense. Nesta entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira, o principal assunto é a escrita criativa

CORREIO DO VOUGA – A escrita criativa tornou-se um fenómeno popular. Porquê?

JOÃO DE MANCELOS – Há dois tipos de pessoas que frequentam os cursos de escrita criativa. Por um lado, os escritores-aprendizes, que já escrevem mas querem escrever melhor para chegar a publicar. Por outro, os que simplesmente querem ser melhores leitores. Estes últimos frequentam os cursos para saberem como se faz, como se obtém este ou aquele efeito. Permite-lhes apreciar melhor as obras, tal como um ouvinte de música clássica, conhecendo mais os autores e as técnicas, pode apreciar melhor a música.

Diz no seu livro que somos um país de poetas, mas em que não se lê poesia.

Sim, cada vez me convenço mais de que os poetas são os únicos a ler poesia. É por isso que a poesia não se vende e há pouca crítica e referências a livros de poesia nos jornais e revistas.

Há muitos a quererem escrever e poucos a quererem ler o que se escreve?

É um fenómeno. Mas os escritores deveriam começar por ler muito mais. Devem receber outras influências. Até um mau livro pode ser uma leitura interessante porque aprendemos o que não se deve fazer. Ainda há um certo desprezo pela escrita criativa.

Desprezo dos intelectuais?

De alguns. Há quem pense que escrita criativa é só fazer exercícios. Não conhecem as técnicas. E alguns pensam que as técnicas são receitas. A escrita criativa está a entrar mal em Portugal. Quando um curso de escrita criativa se chama “workshop”, está tudo estragado. A primeira coisa a fazer é ter algum respeito pela língua e não usar temos ingleses no nome do curso…

Disse que há técnicas, mas não receitas. É possível ensinar a escrever criativamente?

Sim. Isso sempre se fez. Os escritores sempre pediram conselhos a outros escritores mais experientes. A escrita criativa não é uma coisa recente. Nos EUA, existe no ensino desde 1880. Da mesma forma que um músico vai para o conservatório e aprende técnicas de composição ou um pintor vai para uma escola de Belas-Artes, também um escritor pode e deve frequentar cursos de escrita criativa. Ernest Hemingway frequentou. William Faulkner frequentou. Toni Morrison frequentou. Todos eles são Nobel da Literatura. Alguma coisa hão-de ter apren-dido com a escrita criativa.

O que é mais importante, o talento, o esforço ou o domínio das técnicas?

Tem de ser tudo. Se tiver talento mas não conhecer a técnica, não vai a lado nenhum. Se tiver talento e técnica mas não se esforçar, também não vai a lado nenhum. O esforço é absolutamente essencial. Mas o talento é básico. Se não se tem um mínimo de talento, não se aprende nada no curso. Ou aprende-se apenas a apreciar os outros escritores.

Que conselho dá a alguém que tem algum talento, tem umas ideias, mas não sabe como passá-las ao papel?

Que frequente um curso de escrita criativa e que compre obras de escrita criativa. Depois de frequentar um curso, tem de continuar a trabalhar. Sempre. Hemingway dizia que a escrita é uma área em que somos aprendizes até ao fim da vida. Se há coisa que a escrita criativa ensina é a humildade. Se eu vejo que agora escrevo melhor do que escrevia há uns anos, devo pensar que o que escrevo amanhã será melhor do que o que escrevo hoje. Estamos sempre a aprender. E também se aprende muito lendo outros autores e até lendo entrevistas de escritores, que vão revelando os seus hábitos de escrita.

Como surgiu o livro “Introdução à Escrita Criativa”?

Desde 1996 que lecciono escrita criativa. O primeiro curso que leccionei foi na Biblioteca Municipal de Aveiro. Depois introduzi uma unidade didáctica sobre este assunto nas cadeiras que leccionava na Universidade Católica, em Viseu. Lá orientei um mestrado sobre escrita criativa; foi o primeiro em Portugal. E passei por muitas escolas secundárias e bibliotecas a fazer pequenos cursos, de horas. Continuo a estar disponível, a título gracioso. Tudo isto contribuiu para passar a livro o que já há muito faz parte do meu dia-a-dia.

Quando faz um desses pequenos cursos, o que ensina?

Faço uma apresentação em que desmonto os mitos sobre a escrita criativa e explico algumas técnicas básicas. Por exemplo, completar uma frase em que há uma comparação: “A chuva a cair num telhado de zinco é como…” Às vezes surgem ideias interessantes. “…É como o barulho da máquina de escrever do vizinho”. “O choro de um bebé a meio da noite é como… uma sirene de ambulância”. Coisas muito simples. Claro que não são como as técnicas que ensino na Universidade de Aveiro, nos cursos livres, mas abrangem a construção de personagens, a importância do local e do espaço, técnicas para investigar.

Diz no seu livro que normalmente é na adolescência que surge o gosto pela leitura e pela escrita. Foi assim consigo?

Foi, graças à poesia de António Gedeão e às Cantigas de Amigo. Miguel Torga e Eugénio de Andrade e, mais tarde, Fernando Pessoa também foram influentes.

O ensino actual não desperta para a escrita?

Penso que no ensino se continua a fazer muito este tipo de composição: “Como foram as tuas férias?” Pede-se aos alunos que escrevam composições, mas não se ensina a escrever. Só se diz que tem de ter uma introdução, um desenvolvimento e uma conclusão. Ora, isso não é nada. Como se constrói uma personagem? Como se descreve um espaço? Qual o tipo de narrador mais adequado à história? Como se cria “suspense”? Quais as técnicas para desbloquear a inspiração? No ensino básico e secundário não ensina nada disto.

Está a sugerir que os próprios professores de português…

…deviam frequentar um bom curso de escrita criativa.

Referiu as técnicas para desbloquear a inspiração. Quais são?

Há muitas. Por exemplo: Se a pessoa não está inspirada e costuma escrever no computador, experimente escrever num bloco de notas. Mudar a técnica de escrita. Outro exemplo: criar o caderno do escritor. Cada vez que tem uma ideia, apontá-la. Pôr lá uma fotografia. Quer criar uma personagem? Não precisa de criá-la do zero. Pode inspirar-se em pessoas conhecidas. Vá dar um passeio e imagine que está junto da personagem e entreviste-a: que idade tem, quais os seus sonhos, os que faz… Tudo isto são técnicas simples.

Define-se como investigador, mais do que como escritor ou professor. O que investiga actualmente?

Estou num pós-doutoramento na Universidade de Aveiro. Estudo sobre a presença de poetas de língua inglesa na obra de Eugénio de Andrade, um poeta muito culto, com obra permeável a outros autores. O meu estudo de Eugénio de Andrade já deu origem ao livro “O marulhar de versos antigos. A Intertextualidade em Eugénio de Andrade” (ed. Colibri). Dentro de pouco tempo poderá sair outro livro.

Que poetas influenciaram Eugénio de Andrade?

John Keats, Yeats, Walt Whitman, que Eugénio de Andrade diz ter influenciado tanto na obra como na vida, na maneira de ser e estar. Outros poetas como os modernistas norte-americanos, de que é exemplo E. E. Cummings, também influenciaram.

Revele-nos os seus gostos literários. Parece preferir autores de língua inglesa?

Ao nível da prosa, sem dúvida. Prefiro os norte-americanos Philip Roth, Paul Auster e Toni Morrison. Ao nível da poesia, prefiro a europeia e portuguesa. Temos grandes poetas e tive imensa pena por o Nobel da Literatura não ter sido atribuído a Miguel Torga, Eugénio de Andrade ou Sophia Andresen. Temos ainda grandes poetas como Rosa Alice Branco, filha de Vasco Branco, aqui de Aveiro, Isabel Cristina Pires e Paulo Ramalho, ambos de Coimbra, ou Casimiro Brito, de Loulé. A poesia continua a dar cartas.

O livro “Introdução à Escrita Criativa” encontra-se à venda da Livraria da Universidade de Aveiro ou em www.edi-colibri.pt. João de Mancelos tem sítio pessoal em http://mancelos.com.sapo.pt, onde apresenta uma selecção dos seus trabalhos científicos e literários. J.P.F.