Pedro Abrunhosa dá uma aula diferente

Ouvir figuras mais ou menos mediáticas, em programas de tv ou de rádio, ou ler o que escrevem na imprensa, em blogues ou em redes sociais, tem algum impacto. Mas recebê-las na escola e ouvi-las, ao vivo, ali, a um ou dois metros, assume um (im)pacto muito maior, porque o (con)tacto se torna efectivo. Parece estabelecer-se um pacto, graças ao tacto, porque não são só os ouvidos que ouvem, mas é sobretudo o olhar que se cruza e fixa, a fotografia que se tira e a empatia que surge.

Foi assim com a ida de Pedro Abrunhosa à Escola Secundária Dr. Mário Sacramento, numa biblioteca que foi pequena para tantos interessados em ver e ouvir o músico falar de – imagine-se e para surpresa de muitos – livros e a importância da leitura. No dia seguinte, a Ana comentou: “Pensava que o Pedro Abrunhosa era uma pessoa muito ocupada e não tinha tempo para ler!” E a Sandra acrescentou: “Não sabia que o músico era um homem tão culto!” Pedro Abrunhosa culpou os livros por ser quem é, pois desde muito cedo descobriu o prazer da leitura e da aventura, com as personagens de Mark Twain (As Aventuras de Tom Sawyer e de Huckleberry Finn), Emílio Salgari (Sandokan) Jorge Amado e Victor Hugo, por exemplo. Podia viver as vidas de vilões, de heróis e de tantas personagens sem ter de sair da sua pele. Aos 13 anos, quis ser aventureiro como os seus heróis e viajou pela Europa, sozinho, com um bilhete de InterRail. Trabalhou para se sustentar, pois esgotou-se-lhe o dinheiro rapidamente. Hoje, seria impensável um adolescente de 13 anos viajar sozinho, à descoberta da Europa, comentaram já vários alunos. Essa sua atitude intrépida e o facto de o ter feito impulsionado pelas leituras foi considerada uma das experiências mais interessantes pelos alunos que o ouviram. Quando referiu o “Conde de Monte Cristo” e o “Memorial do Convento”, alguns alunos trocaram olhares cúmplices com os seus professores por estarem a estudar a obra de Saramago, ou porque já leram a de Alexandre Dumas para apresentar na aula.

Algo que surpreendeu o público foi o tempo dedicado ao trabalho. O Bruno até considerou impraticável trabalhar 16 horas por dia. O que é certo é que o músico, além de fazer referência aos tempos de Conservatório, em que ficava a estudar enquanto os amigos faziam noitadas, explicou que o seu processo de criação de letras e músicas envolve muito esforço e dedicação, experimentando vários instrumentos até decidir qual o mais adequado. Respondendo ao João, explicou que, tal como o impressionista francês Manet, não acredita na inspiração, mas sim no trabalho e no empenho. “Apliquem-se!” foi uma das frases que insistentemente lançou aos alunos que ali o ouviam. O importante não é ser ‘famoso’, conceito aliás muito criticado pelo músico, pois valoriza o facto de ser reconhecido pelo trabalho que faz e não por participar em programas de televisão à procura de talentos, ou por dar entrevistas a revistas que só se interessam pelas vidas privadas.

Incentivou os alunos a escreverem, nos blogues, no Facebook, a deixarem de lado os telemóveis para dedicarem tempo à leitura (cinco páginas por dia é a receita para nos ‘viciar’ num bom livro), a ir ao cinema ver bons filmes (e não apenas os sucessos de bilheteira), a pesquisar sobre Van Gogh e Amadeu de Sousa-Cardoso, por exemplo, a deixar que a arte dê magia à vida, neste mundo em que há tantos problemas e preocupações.

Tantas mensagens transmitidas num ambiente divertido, mas sério, serão certamente digeridas e partilhadas em grupos de amigos, discutidas com professores, pais e outros adultos. No dia 3 de Maio, os alunos não foram ouvir o músico para faltarem às aulas. Foram a uma aula diferente, porque não chegam os conteúdos dos programas oficiais. Importante será, como disse Pedro Abrunhosa, “enriquecer a vida interior”, porque “somos todos idênticos na essência: precisamos de alimento por dentro para sobreviver à vida que é dura. Uma das coisas que ajuda a ultrapassar os problemas é ler”.

Teresa Correia

O músico que não gosta de ser controlado

No fim da conversa, aos cerca de 100 alunos que o ouviram, com ele cantaram, que se riram das suas piadas, que lhes fizeram várias perguntas sobre o seu sucesso e as preferências literárias, deixou uma mensagem muito séria: não consumir drogas. Cada um deve ser capaz de controlar a própria vida. Pedro Abrunhosa deu o seu exemplo e afirmou que não gosta de ser controlado, ele é que se controla a si mesmo. Se quiser ‘curtir’ será com as substâncias que o organismo produz, a adrenalina vem dos espectáculos e não da ingestão de substâncias tóxicas. Ver estudantes alcoolizados em festivais e queimas das fitas é algo que o incomoda. Para si não escolheu esse caminho. Conforme lembrou no início da sessão, o caminho por que cada um opta terá consequências, no imediato ou num futuro mais ou menos próximo. Se se fizerem escolhas com responsabilidade, poder-se-ão seguir diferentes caminhos. A escola sugere várias direcções, mas não basta o que aí se propõe, tem de se complementar com outras vivências responsáveis. Investir na vida agora é uma forma de colher frutos mais tarde. A factura a pagar pode ser mais ou menos onerosa, depende da escolha que se fizer.