Penúria e excesso de dinheiro

Questões Sociais A penúria de dinheiro observa-se por toda a parte: nas pessoas e famílias mais carenciadas; nas instituições e serviços sociais; nas empresas menos viáveis; nos sistemas de segurança social, de saúde, de educação, de justiça…; nas empresas do Estado; nos ministérios; nos próprios órgãos de soberania… A penúria atinge níveis insuportáveis em muitas situações.

Porém, ao mesmo tempo, verifica-se um notório exesso de dinheiro, embora não reconhecido. Para além das grandes fortunas e dos rendimentos mais altos, o excesso de dinheiro verifica-se em organismos públicos, com realce para os que gerem fundos comunitários (da União Europeia). Com toda a naturalidade, os «senhores» do excesso de dinheiro movimentam milhões e milhares de milhões de euros, nos seus orçamentos, programas, projectos…O dinheiro é excessivo não por ser superior às necessidades mas sim por se sobrepor a elas. Os «senhores» do dinheiro, sobretudo público, tornam-se numa espécie de poder supremo em relação às necessidades: com base nos seus regulamentos, eles fixam quais as necessidades «elegíveis»; aprovam e reprovam candidaturas; transmitem a imagem de satisfação pelos graus de execução dos seus orçamentos; deixam pairar a ideia de que as candidaturas não aprovadas e os problemas sociais não abrangidos são de menor importância; dão mesmo a entender que só serão mesmo importantes na medida em que venham a ser contemplados através da aprovação das respectivas candidaturas. Tudo isto originou uma verdadeira profissionalização do acesso aos financiamentos e à criação de redes de influência, com vantagem não para as situações mais graves mas para as organizações mais qualificadas e mais bem relacionadas neste universo.

Formou-se uma nuvem negra entre os «senhores» do dinheiro e a realidade; nuvem formada pelos clientes habituais, pelos estudiosos, pelos profissionais envolvidos, pela a rede de influências… Daí resulta um paradoxo invencível, por enquanto: a penúria de dinheiro para inúmeras carências sociais; e a super-abundância de poder para as excluir do acesso a financiamentos. Por esse motivo, torna-se indispensável o reconhecimento e desenvolvimento de dinamismos sociais de base: isto é, das pessoas que vivem os problemas sociais e das que estão a seu lado na procura de soluções, independentemente do acesso a financiamentos, públicos ou privados. Talvez que um dia, a partir daí, os financiamentos venham a estar ao serviço de quem mais precisa.