Persistência e futuro da paróquia

A instituição paroquial tem de aprender da sua história a saber renovar-se a tempo e assimilar, sem ingenuidades ou falsos preconceitos, os valores seculares condizentes com o Evangelho que ela tantas vezes comporta, apregoa e aprecia.

A resistência da paróquia ao longo da história dá azo a diversas leituras, por vezes cruzadas e antagónicas, das quais importa destacar duas: a de quem aprecia os valores tradicionais e a de quem, aberto aos ares da modernidade, prefere realçar os dados novos que emergem, de forma contrastante com o passado, e provocam um modo de pensar e viver orientados por outras referências culturais.

Difícil de substituir

Parece ser consensual que as tentativas de substituição da paróquia por outra organização eclesial têm sido infrutíferas, mesmo quando se trata de fraternidades apostólicas ou de comunidades cristãs de base, fruto de caminhadas bíblicas, de catecumenados de inspiração cristã, de movimentos de busca e intervenção. A referência a um horizonte mais amplo – em que se articulem na unidade as legítimas diversidades, expressando e gerando a comunhão –, vem criar exigências organizativas que, “com nome ou sem ele”, passam pela paróquia, enquanto comunidade instituída no seio da Igreja diocesana.

Esta constatação faz-nos ver com mais atenção e rigor a instituição paroquial, detectar a sua relação com o meio ambiente, captar a mútua interferência de ambos, compreender o alcance de certas análises nem sempre isentas de preconceitos, discernir critérios e perspectivas que prevalecem em algumas leituras mais divulgadas.

Vivendo a reciprocidade com um meio conservador e fechado, mantendo a tradição e a ordem como valores mais destacados, cultivando a relação da vizinhança e da honra como forma de controle social, prezando a uniformidade pública como regra de comportamento ético normal, apostando na família como meio mais comum de transmissão de costumes inspirados na religião e, por vezes, como espaço mais natural para a educação da fé, que imagem de si mesma podia projectar a paróquia senão a de uma instituição que se identifica com a população civil que simultaneamente é cristã? A origem semântica das palavras aponta nesse sentido. Freguesia é o conjunto dos filhos da Igreja. Paróquia é o aglomerado de pessoas, mais ou menos relacionadas, peregrinas, que demandam um futuro diferente, uma terra e pátria comuns.

Nova cultura, nova configuração

A paróquia tradicional configura-se num quadro de valores que formaram heróis e santos, homens e mulheres de nobres sentimentos e grandes capacidades, gente humilde de sabedoria provada na vida e resistente à intempérie a que estava sujeita, jovens que sonham e realizam ideais de notável grandeza e generosidade. Correspondeu a uma época histórica, que parece ter passado definitivamente.

As vozes da modernidade foram cavando os alicerces em que a cultura paroquial assentava. A história voou rápida e, agora, o ambiente em que surgiram as contestações mais fortes é frequentemente esquecido e adulterado; também a honestidade de sentimentos e a honradez de palavra que constituem a “atitude de fundo” de quem ousa dissentir são preteridas e, em sua vez, surgem adulteradas afirmações de discórdia e avolumados actos de hostilidade. E são estes, predominantemente, os paradigmas difundidos com exageros descontextualizados.

João Paulo II, num gesto profético sem precedentes, assume a atitude pública de pedir perdão à humanidade pelas tropelias e pecados que a Igreja havia cometido. Fê-lo, não como espectáculo, mas como fruto de uma nova relação com a família humana universal, sobretudo aquela que foi mais ferida nas “noites sombrias” do pensamento único imposto. Infelizmente, ninguém mais teve coragem de imitar tal nobreza de sentimentos e assumir os erros dos responsáveis que governaram povos dizimados, os desvios das ciências que cometeram atrocidades nas investigações, a destruição da natureza de tantos que se afirmaram seus “senhores”.

A paróquia é o povo que vive este cruzar de influências e molda o seu modo de ser e estar na sociedade civil. Esta, progressivamente, vai ganhando consistência, organização e poder de afirmação. E muito lhe falta andar, pois é ainda reduzida a sua consciência cívica, notoriamente débil o seu tecido associativo, claramente deficiente a cota de valores mínimos consensuais, ostensivamente manipulada por meios que filtram a informação por processos sofisticados ou nem tanto.

Liberta de funções passadas

A libertação de funções que sobrecarregam a instituição paroquial facilita-lhe a concentração no fundamental da sua missão. O poder político exigiu o controle da população pelo registo dos nascimentos e dos óbitos, conseguiu chamar a si a legislação sobre o casamento e a escola, assenhoreou-se de bens pertencentes a organizações religiosas, pretendeu erigir como sua tarefa exclusiva o bem estar da nação, decretando a separação ostensiva da Igreja e movendo a perseguição a quem destoasse do novo pensamento único. E prossegue com a sua pretensão mais global: moldar o cidadão e formatar a sociedade no quadro do novo pensamento único, materialista, agnóstico e laicista.

A paróquia está mais livre para ser Igreja local no meio do povo, para ir ao encontro das pessoas e sintonizar com as suas situações, para abrir horizontes à festa e ao divertimento humano, para acompanhar os migrantes de toda a espécie, para “dar a mão” aos feridos da vida, para estar na sociedade de forma interventiva com a sabedoria do Crucificado e a paixão do Ressuscitado.

A hegemonia da cultura predominante, e com tendências para se acentuar, exige necessariamente que a instituição paroquial aprenda da sua história a saber renovar-se a tempo e assimile, sem ingenuidades ou falsos preconceitos, os valores seculares condizentes com o Evangelho que ela tantas vezes comporta, apregoa e aprecia. Exige, igualmente, a ousadia de propor, sem medo e com acerto, a novidade contrastante de Jesus Cristo, o “modelo” humano mais qualificado para ser pessoa e conviver em sociedade.