Personalidades dizem o que pensam da “nova evangelização”

Blogue de inspiração cristã questiona personalidades nacionais sobre mudança na Igreja e “nova evangelização”

Que consequências tiveram as transformações sociais na experiência religiosa? Como é que a Igreja pode fazer uma leitura dos sinais dos tempos de modo a acolher as marcas de Deus que estão presentes na sociedade? Faz sentido utilizar a expressão “nova evangelização”? Como pode ser definida? Estas são algumas das perguntas que o blogue Religionline (http://religionline.blogspot.com) está a colocar a diversas personalidades portuguesas. Até à segunda-feira passada haviam respondido Guilherme d’Oliveira Martins (presidente do Tribunal de Contas e do Centro de Reflexão Cristã), Ana Vicente (escritora, membro do Movimento Internacional Nós Somos Igreja) e Joaquim Carreira das Neves (padre franciscano, exegeta bíblico).

O P.e Joaquim Carreira das Neves centra-se no que é evangelização em si, embora reconheça que “para «novos paradigmas» se exija «nova evangelização»”, porque, “como dizia Jesus: «Não se pode meter vinho novo em odres velhos»”. O franciscano realça que o “evangelho não é um livro, mas a proclamação de um «acontecimento». Evangelização não é a divulgação “de uma ideia, uma doutrina, uma ética, mas um «encontro com um acontecimento» (…) causado ou proporcionado por uma pessoa – a pessoa de Jesus”. Neste sentido, a evangelização será sempre nova e muito “diferente das nossas catequeses formais”. A evangelização assim entendida não está “nem contra protestantes, judeus, islâmicos, ateus, ciência, evolucionismo”, afirma. E acrescenta: “Há, simplesmente, o desejo de preencher o vazio existencial, próprio do ser humano. Mas, também aqui, há que considerar a ambiguidade deste vazio. Nas sociedades modernas e democráticas contactamos com pessoas que preenchem este vazio com a cultura, a ciência, a liberdade. São respostas sem religião que devemos considerar e respeitar”.

Estruturas eclesiais obsoletas

Ana Vicente, por seu lado, interroga-se sobre a utilidade da palavra “nova” (“quem não se lembra dos Novos Dicionários do século XIX, que jazem nas prateleiras, e de tantos outros Novos, sem esquecer o Estado Novo?”), olha para a secularização como “uma das boas notícias do século XX” e afirma que as estruturas eclesiais estão “completamente obsoletas”, o que dificultará “a busca de fidelidade à mensagem evangélica original e simples”. “Não é possível com uma estrutura altamente hierarquizada, exclusivamente masculina e celibatária, ao nível da tomada de decisão, ou seja ao nível do poder real, crer que os povos, crentes nesta ou naquela expressão religiosa ou agnósticos ou ateus, possam dar ouvidos a um discurso advindo de uma instituição que está tão em contradição com a mensagem de Jesus – inclusiva, universal, de amor, de paz, de respeito pela consciência individual, de misericórdia, de compaixão”, afirma, referindo ainda a “tragédia da prática do abuso sexual, físico e psíquico, por parte de sacerdotes”, a perseguição de “teólogos e teólogas” que “procuram caminhos diferentes” e a incoerência do desejo de leis com “condenem criminalmente as mulheres que fazem um aborto” a par com a indiferença quanto à morte de crianças já nascidas devido à fome.

Guilherme d’Oliveira Martins reconhece que as “transformações sociais têm uma influência indiscutível na experiência religiosa” e vê legitimidade na expressão “nova evangelização”, que há-de ser mais do que “estratégia de comunicação”. Nota que “o Evangelho de Jesus Cristo deve corresponder à procura de compreensão e desenvolvimento numa sociedade assente na dignidade universal da pessoa humana”, mas não duvida de que “não há (não pode haver) uma única fórmula de acção para as diferentes circunstâncias”- “O melhor método – conclui – terá de passar sempre pela lógica do fermento na massa ou do grão de mostarda. Como diz o Salmo 24: «Todos o caminhos do Senhor são graça e fidelidade para aqueles que guardam sua aliança e seus preceitos»”.

O Religionline, um blogue convidado do jornal “Público”, é coordenado pelo jornalista António Marujo e animado por jornalistas e comunicadores católicos de vários locais do país.

O inquérito tem como pano de fundo o Sínodo dos Bispos de 2012, que será sobre a Nova Evangelização, a recente criação por Bento XVI do Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização e o processo promovido pelos bispos portugueses de “Repensar Juntos a Pastoral da Igreja em Portugal”.

Jorge Pires Ferreira