Pertenço-te…

Texto Na verdade, quem sou eu para pretender que não te pertenço? Se, na verdade, eu te pertenço, isso não quer dizer que sou posse tua; não é no plano do ter que esta relação misteriosa se situa, como aconteceria se Tu fosses uma potência finita. Não só te libertaste, mas também me queres, me levantas, também a mim como liberdade. Chamas-me para me criar, Tu és o próprio chamamento. Se eu me recusar a ele, quer dizer a Ti, se me obstinar em declarar que só a mim pertenço, é como se me enclausurasse; é como se me obrigasse a estrangular com as minhas próprias mãos esta realidade em nome da qual julgo resistir-te.

Se assim for, reconhecer que te pertenço é reconhecer que só me pertenço com esta condição – ainda mais, que esta pertença é idêntica e que se confunde com a única liberdade autêntica e plenária que posso pretender: esta liberdade é um dom.

Gabriel Marcel (1889-1973)